“Formadores de opinião” da esquerda e a lógica da internet
por Francisco Fernandes Ladeira
Na grande mídia brasileira, o termo “formadores de opinião” é aplicado em referência aos articulistas que, com suas análises, influenciam e modificam os posicionamentos do público nos campos político, social, moral e cultural. Trata-se de mais uma das falácias midiáticas.
Esses “formadores de opinião” não possuem independência analítica. Refletem, de maneira fidedigna, a ideologia de seus patrões. São, na verdade, “especialistas em legitimação”. Suas atuações se limitam a repetir aquilo que os noticiários já buscaram inculcar nas mentes das pessoas, sob o prisma de “transmissão de informações”. É “mais do mesmo”.
Além disso, mesmo se os diferentes indivíduos tivessem realmente “opiniões” sobre os mais variados assuntos, tais posicionamentos seriam influenciados não apenas pela mídia, mas também pelo núcleo familiar, por crença religiosa, por líderes comunitários, por colegas de trabalho e tantos outros fatores.
Por outro lado, com a popularização da internet, aumentou o alcance da chamada imprensa progressista (evidentemente, ainda com uma audiência muito menor do que a da mídia hegemônica). No entanto, isso não impediu o surgimento dos “formadores de opinião” em alguns veículos da esquerda. Eles não rezam, necessariamente, pela cartilha de seus patrões. Porém devem obedecer à cartilha do politicamente correto.
Dessa forma, temendo a nefasta “cultura do cancelamento”, os “formadores de opinião” da esquerda aderem aos discursos do identitarismo e a toda a sua censura prévia, típica dos piores tipos de autoritarismo. Substituem a clássica luta de classes pelas diferenças de identidade. Tudo isso sem falar na novilíngua identitária. Palavras são substituídas. “Índio” virou “indígena”, “favela” virou “comunidade”, como se a mera substituição de termos pudesse melhorar a vida de setores historicamente excluídos. Muito pelo contrário, palavras com forte carga semântica melhor traduzem e denunciam as desigualdades. Infelizmente, “o mundo é como é”, não como “gostaríamos que fosse”.
Também há os “formadores de opinião” da esquerda que operam pela lógica do engajamento. Não importa mais a batalha de ideias, mas a capacidade de gerar cliques e cortes para as redes sociais. Webcomunistas banalizam Marx para causar polêmicas e gerar visualizações (o equivalente aos índices de audiência dos veículos de mídia tradicionais).
Outros participam de podcasts com influencers de extrema direita ou de debates do tipo “um comunista versus vinte conservadores”. É o famoso “bater palmas para maluco dançar” – no último caso, bater palmas para “malucos”, no plural. Vale tudo para aparecer. E, assim, assistimos à corrosão daquilo que Habermas um dia chamou de “esfera pública”. Parafraseando os Engenheiros do Hawaii, a lógica das redes não poupa ninguém.
Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Unicamp
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Rui Ribeiro
18 de novembro de 2025 2:48 pm“Palavras são substituídas. “Índio” virou “indígena”, “favela” virou “comunidade”, como se a mera substituição de termos pudesse melhorar a vida de setores historicamente excluídos. Muito pelo contrário, palavras com forte carga semântica melhor traduzem e denunciam as desigualdades. Infelizmente, “o mundo é como é”, não como “gostaríamos que fosse””. – Francisco Fernandes, trecho extraído do 5º parágrafo do texto ora comentado
Essa parte me fez lembrar do Engels. No texto intitulado “Sobre a Autoridade”, ele diz:
“Crêem estes senhores que modificam as coisas modificando-lhes os nomes. Eis aí como zombam do mundo esses profundos pensadores”. – Engels
O trecho acima transcrito também remete ao texto de Brecht intitulado “As 5 Dificuldades para escrever a verdade”, no qual ele diz:
“Quem em nosso tempo diz “população” em vez de “povo” e diz “propriedade da terra” em lugar de “solo”, só por isso já negou muitas mentiras. Tira das palavras sua mística preguiçosa. A palavra “povo” quer dizer uma certa unidade, e aponta para interesses comuns. Portanto, deveria ser utilizada somente quando se tratam de diversos povos, porque só nesse caso poderá existir interesses comuns. A população de um território tem interesses distintos e contraditórios, e esta é uma verdade geralmente suprimida. Quem fala do solo, descrevendo apenas o cheiro da terra e a cor do campo, apoia também as mentiras dos dominadores. Porque as questões do campo não são fundamentalmente fertilidade do chão, nem do amor do homem à terra, nem do seu trabalho, mas principalmente do preço do trigo e da mão-de-obra”.