21 de maio de 2026

From Rússia, with love, por Paulo Nogueira Batista Jr.

Os problemas principais da humanidade demandam soluções globais baseadas num diálogo amplo do qual ninguém pode ser excluído.
Xinhua

From Rússia, with love

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por Paulo Nogueira Batista Jr.

O mundo atravessa uma quadra de extraordinária complexidade e elevados riscos. Estamos ameaçados por perigos de guerra nuclear, por problemas sociais e demográficos, pela destruição ambiental e pelos impactos incalculáveis do progresso tecnológico acelerado, em especial da inteligência artificial. Faz-se necessária, mais do que nunca, uma discussão verdadeiramente global, não excludente, da qual possam participar todas as nações. 

Escrevo da Rússia desta vez. Vim para cá para participar, em Sochi, de um evento de grande importância para os russos: o encontro anual do Clube Valdai, um fórum de discussão de assuntos de interesse mundial. Neste ano, o tema central do encontro foi “O mundo policêntrico: instruções para uso”.

Embora não seja um fórum oficial, o Clube Valdai é muito prestigiado pelo governo russo. No encontro deste ano, assim como nos anteriores, tivemos a presença de várias autoridades russas, entre elas o ministro Lavrov, das Relações Exteriores, e o próprio presidente Putin, que passou mais de quatro horas debatendo com os 140 participantes de 40 países, incluindo intelectuais, diplomatas, economistas e acadêmicos de quase todas as partes do mundo.

Em razão da desinformação que prevalece no Brasil e nos países desenvolvidos, o Clube Valdai é pouco conhecido fora da Rússia. Mal comparando, poderia dizer que é uma espécie de Davos russo. Como Davos, Valdai é uma instância onde pessoas de todo o mundo discutem questões internacionais candentes. Davos, entretanto, é palco para as elites ocidentais e seus vassalos de países em desenvolvimento. Já em Valdai, o tom é dado pelos russos e pelos participantes do exterior, a grande maioria dos quais de países do Sul Global. A presença de europeus e americanos é bem reduzida.

Não era essa a intenção dos criadores de Valdai quando o clube foi estabelecido há pouco mais de 20 anos. A ideia original era criar as condições para um diálogo entre a Rússia e o Ocidente. Nos últimos dez anos, e especialmente depois do início da guerra na Ucrânia, esse diálogo foi interrompido. Os poucos ocidentais que comparecem correm riscos profissionais. A Rússia é vista como tóxica no Ocidente e como tóxicos, também, por extensão, são vistos aqueles que aceitam convites para vir a Valdai. Nos Estados Unidos e na Europa, a democracia é cada vez mais relativa.

Observo, de passagem, que é preciso visitar a Rússia para perceber quão absurda é a russofobia que, como nunca antes na história, reina atualmente no Ocidente. A Rússia é um grande país, de ampla e variada cultura, que tem muito a dizer ao resto do mundo. 

Entre os russos com quem dialoguei em Sochi, quero destacar o professor Sergey Karaganov, teórico de relações internacionais celebrado na Rússia e um dos criadores do Clube Valdai. Karaganov manifestou a sua decepção com a falta de diálogo com o Ocidente e fez uma sugestão interessante, que é, na verdade, o principal tema deste artigo.

Os problemas principais da humanidade – sociais, econômicos, tecnológicos, demográficos e ambientais – demandam soluções globais baseadas num diálogo amplo do qual ninguém pode ser excluído. O Ocidente, raivoso e em declínio relativo, não pode ficar de fora. “Os ocidentais estão perdendo”, disse Karaganov, “mas são uma parte nossa”. Uma nova ordem mundial, destacou ele, tem que estar centrada não no indivíduo, como no Ocidente, mas no humano, isto é, no substrato essencial que nos une a todos.

Trazer os americanos e europeus para um diálogo franco é uma tarefa difícil, para dizer o mínimo. Autossuficiência e arrogância são traços enraizados nos ocidentais. Ainda mais difícil, provavelmente impossível, é trazer esse povo para um fórum sediado na Rússia, como mostra a experiência de Valdai, ou qualquer outro fórum que seja patrocinado pela China ou outros países vistos como hostis pelo Ocidente.

Aí é que entraria o Brasil. Não poderíamos construir um novo fórum, de natureza global, que incluísse todos os países, para uma discussão aprofundada dos problemas da humanidade? Não poderia o Brasil liderar este projeto? Algo como Valdai, mas sem a marca russa que impede a participação em grande escala de americanos e europeus. Quem sabe, acrescento,  um “Clube de Discussão do Rio de Janeiro”? Esse clube poderia, entre outras coisas, patrocinar encontros anuais no Rio, cidade que já demonstrou a sua capacidade de hospedar eventos internacionais, ao sediar com sucesso as cúpulas do G20 e dos BRICS, em 2024 e 2025, respectivamente.

O Brasil tem pelo menos três características que podem ajudá-lo a cumprir essa tarefa. Primeiro, é um país que tem entrada praticamente no mundo todo, sendo bem recebido em qualquer parte. Diferentemente da Rússia e da China, o Brasil não está em confronto direto com o Ocidente. Segundo, é um país de dimensões continentais, um dos gigantes do mundo, em termos econômicos, demográficos e territoriais. Terceiro, tem em Lula uma liderança de porte mundial, um político experimentado e verdadeiramente interessado em manter diálogo franco e aberto com todas as nações, próximas e distantes, grandes e pequenas, ricas ou pobres.

E não poderia o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), estabelecido pelos BRICS em Xangai, ter um papel no apoio à formação e desenvolvimento deste fórum? O NBD, mais conhecido como Banco dos BRICS, é presidido atualmente pela ex-presidente Dilma Rousseff. Fundado em 2015, é a principal iniciativa prática dos BRICS. Conta com amplos recursos e poderia ser um dos financiadores do fórum Rio de Janeiro.

Talvez o governo brasileiro não tenha neste momento vontade e tempo para uma iniciativa internacional de grande porte. Reconheço que a ideia pode parecer irrealista. Mas, convenhamos, não é verdade que nada de importante no mundo se faz sem uma certa dose de utopia?     

                                                         ***

Versão resumida desta crônica foi publicada na revista Carta Capital.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e escritor. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais 10 países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela Editora LeYa Brasil o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, segunda edição 2021, e pela Editora Contracorrente o livro Estilhaços, em 2024.
E-mail: paulonbjr@hotmail.com
Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br
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Paulo Nogueira Batista Jr.

Paulo Nogueira Batista é economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Lançou no final de 2019, pela editora LeYa, o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata. A segunda edição, atualizada e ampliada, foi publicada em 2021. E-mail: paulonbjr@hotmail.com X: @paulonbjr Canal YouTube: youtube.nogueirabatista.com.br Portal: www.nogueirabatista.com.br

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  1. Sérgio Santos

    17 de outubro de 2025 8:48 am

    Excelente proposta! Tomara seja compartilhada até chegar aos humanos que ora ocupam cargos com o poder de realizar o primeiro de muitos encontros como esse da Rússia!
    Parabéns professor!

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