5 de junho de 2026

Fux, Aras e os snipers, por Fernando Castilho

Enquanto as prisões dos mentores do golpe não começarem, veremos os deputados bolsonaristas cada vez mais assanhados
Imagem: Felipe Sampaio/STF e Adriano Machado/Reuters

Fux, Aras e os snipers, por Fernando Castilho

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Ano passado escrevi um texto em que tentava compreender o que aconteceu naquele 7 de setembro de 2021, principalmente o motivo do recuo humilhante do então presidente Jair Bolsonaro.

Rememorando rapidamente, hordas de bolsonaristas, entre eles, caminhoneiros vindos de todo o país, invadiram no dia anterior a esplanada dos ministérios procurando esquentar o clima durante as comemorações do dia seguinte.

Jair Bolsonaro fez sua parte ao discursar para a plateia sedenta de golpe, não se fazendo de rogado ao xingar e ameaçar o ministro do STF, Alexandre de Moraes.

Ao final da tarde o capitão procurou o ex-presidente Michel Temer para que redigisse uma cartinha a Moraes pedindo desculpas pelos xingamentos.

Naquele meu texto imaginei que o alto comando das Forças Armadas não aderiu à tentativa de golpe, o que deixou Bolsonaro isolado, pois sem elas não haveria como seguir adiante em suas pretensões. Ainda assim, parecia que a conta não fechava, afinal, por que as FA recuaram?

Na semana passada o jornalista Luís Costa Pinto em entrevista ao Brasil 247 e, posteriormente ao GGN, matou a charada.

Segundo ele, um dos comandantes das três Forças Armadas, exonerados em 29 de março de 2021, Edson Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Moretti Bermudez (Aeronáutica), teria relatado ao então Procurador-Geral da República, Augusto Aras um plano golpista do presidente. O motivo das exonerações teria sido a não aderência dos comandantes a esse plano que previa a decretação de uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem) para quer o exército assumisse o poder e o devolvesse em seguida a Bolsonaro.

Aras teria escalado o procurador Marcelo Weitzel para conversar com os comandantes das polícias militares de todos os estados e do Distrito Federal para que estes mantivessem seus efetivos dentro dos quarteis entre os dias 6 e 8 de setembro porque tinha a informação de que Bolsonaro contava com esses policiais.

Ato contínuo, Aras relatou o problema ao então presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux que teria telefonado para o general da reserva e então ministro da defesa Walter Braga Netto e, em tom firme, afirmado: “Ministro, eu não vou pedir GLO. Há atiradores de elite que eu ordenei que fossem estrategicamente colocados na laje do prédio do Supremo Tribunal Federal. Vou mandar que abram fogo contra quem quiser invadir o STF se eles romperem o terceiro bloqueio na Esplanada dos Ministérios. Já romperam dois. Se romperem o terceiro, darei ordem de atirar. Estou dentro do Supremo, e daqui não sairei!”

Então aí estaria a resposta ao motivo pelo qual o golpe deu chabu em 2021. Se Fux e Aras (quem diria?) não tivesse tomado atitudes firmes não teria havido eleições em 2022 e Lula não seria presidente. Possivelmente já estaria preso ou até morto. O mesmo aconteceria com Alexandre de Moraes. Ainda assim, custa-se a crer que Fux e Aras tivessem tido essa grandeza, mas a se confirmar a informação, merecem medalhas pelas atitudes heroicas que evitaram que o país, já naquele dia, tivesse afundado numa ditadura cujas consequências não conseguimos medir dado o comportamento tresloucado do capitão mandatário.

Agora que temos o depoimento de Luís Costa Pinto já seria a hora de ele ser ouvido pelo Procurador-Geral da República. Em seguida, a depender do que Paulo Gonet entendesse do depoimento, Fux, Aras, Pujol, Ilques Barbosa e Bermudez também deveriam ser ouvidos. E a se confirmar o teor da reportagem, Bolsonaro e Braga Netto deveriam ser colocados imediatamente em prisão preventiva.

Se parece difícil prender o ex-presidente por ele ser o mentor ou mandante da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2022, é solar que ele e Braga Netto, jogando fora das quatro linhas da Constituição, articularam a intentona de 7 de setembro de 2021, felizmente abortada.

Enquanto as prisões dos mentores do golpe não começarem, veremos os deputados bolsonaristas cada vez mais assanhados imaginando que o timing das prisões já passou. E é isso que já começa a influenciar novamente as hordas de golpistas.

É necessário que as prisões comecem o mais rápido possível para que o espírito do homem brasileiro cordial não se esqueça do que ocorreu em 8 de janeiro de 2022.

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Fernando Castilho

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.

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