Gabeira e a personalização da Luta contra a corrupção: os construtores de narrativas, por Frederico Firmo

Mas Gabeira vai repetindo os clichês que fundamentam a narrativa, quando fala que não pode julgar pois não conhece o "contexto". Impossível que ele desconheça o contexto. Todos sabíamos das violações mas muitos acharam que as violações eram necessárias.

Gabeira e a personalização da Luta contra a corrupção: os construtores de narrativas

por Frederico Firmo

Agora em construção a narrativa do momento diz respeito a transformação dos abusos ocorridos no processo da Lava Jato em ataques à luta contra a corrupção e à Lava Jato. É uma narrativa sem esteio na realidade, pois a Lava Jato continua na mesma comarca com procuradores do MP e policiais federais, mas um novo Juiz da Comarca. Portanto se ela continua não há porque considerar os vazamentos como um ataque a luta contra a Operação. Mas a narrativa vai sendo construída na esperança de encontrarem uma saída para um determinado grupo de pessoas.

No caderno de Opinião do Estadão, Gabeira, longe do Brasil e do brasileiro, fala que o país não é monótono. Para comprovar sua tese segue a narrativa pejorativamente confundindo a imprensa com o Brasil e insinua que no Brasil, isto é os brasileiros, consideram o caso Neymar no mesmo patamar dos vazamentos de possíveis ilegalidades de Moro e Dallagnol.

Num ato de prestidigitação, os vazamentos de Moro e Dallagnol, passam a ser um ataque, primeiro à Lava Jato, e logo a seguir um ataque à luta contra a corrupção, ou em suas palavras “,uma regressão à era da impunidade”.

Oras bolas me parece que pelo contrário o vazamento pode nos ajudar a por fim na impunidade. Afinal é corrupção, prevaricação e crime utilizar cargo publico para favorecimento e ou prejuízo de alguém. Portanto, os questionamentos sobre os conteúdos do vazamento se encaixam na luta contra a impunidade e corrupção.

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Mas me chama a atenção o fato de Moro e Dallagnol serem tratados como sendo a próopria Operação. Personalizar a luta contra a corrupção é um grande desserviço. Afinal o pais avançou quando criou condições para a atuação legal do MP e da PF. E seria interessante resgatar quando e em que governo estas condições foram criadas. Mas Gabeira acha que quem criou isto foi Moro e Dallagnol e reforça a narrativa de que mexer com Moro e Dallagnol é atacar a luta contra a corrupção. Na verdade a personalização e a apropriação pessoal deste aparato por alguns que ganharam notoriedade parece agora cobrar um preço.

Os membros da Força Tarefa deveriam ser os primeiros e querer tudo esclarecido. Mas como diz Gabeira, este não é uma país monótono, mas sem dúvida é monotemático. A imprensa que criou o mito e o herói, agora debita na população a necessidade de mitos e heróis.

Mas Gabeira vai repetindo os clichês que fundamentam a narrativa, quando fala que não pode julgar pois não conhece o “contexto”. Impossível que ele desconheça o contexto. Todos sabíamos das violações mas muitos acharam que as violações eram necessárias. E Gabeira parece ser um deles, embora não confesse, pois confessar seria destrutivo para sua imagem. E assim sai do jurídico e joga tudo para o campo pastoso da política. Usa todos os termos usando a mesma justificativa de Moro e Dallagnol, que na luta contra a corrupção encontram dificuldades imensas que justificam medidas extremas. Este é um artificio retórico similar ao criar dificuldades para se obter facilidades.

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As dificuldades deveriam gerar o aperfeiçoamento no laborioso trabalho de levantamento de provas. Porém abdicaram dos métodos mais modernos e sofisticados de obtenção de provas e abertamente defendem que delações , prisões provisórias, conduções coercitivas, e violações do direito, e trabalho midiático prevalecem sobre as provas.

Gabeira continua na defesa da ilegalidade quando afirma que o vazamento de Dilma e Lula poderia ser “tecnicamente justificável” como ” uma tentativa de bloquear a fuga de um acusado”. E ai chama o STF de refúgio. Isto é, chama o foro privilegiado como um lugar onde se foge da lei. Esquece, ou não quer lembrar, que no caso do mensalão, o foro privilegiado serviu apenas para abreviar as possibilidades de recurso. Implicitamente Gabeira acredita que a lei só existe em Curitiba, e que só pode ser aplicada por Moro e Dallagnol. Ingenuamente diz que é um mero exercício de interpretação achar que a gravação foi intencionalmente feita para fortalecer o impeachment. Uma ingenuidade grande demais para um homem tão experiente quanto Gabeira.

Para finalizar chama a Lava-Jato como o instrumento mais eficaz produzido na história do Brasil. Ele deve saber que a tortura é muito eficaz em obter informações e confissões. Mas eficiência não é um termo jurídico enquanto justiça sim.

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2 comentários

  1. Excelente.
    Sobre o último parágrafo: entre as “eficiências” e “eficácias”, a chantagem, a troca de favores e o tráfico de influência que o Borroso (deve estar se borrando de ser desmascarado e ter que enfrentar Gilmar no plenário, rs) acha que só são ruins quando praticados pela ralé via “jeitinho” – outro dia, chamado por um comentarista deste GGN de malemolência, rs.
    E pensar que este sacripanta foi a esperança da esquerda na eleição pra prefeito do Rio em 2012…
    Vi este cara pessoalmente numa palestra do alemão Hans Magnus Einsenberg no instituto Goethe há muitos anos, e meu santo não bateu com o dele.
    Triste é pensar que nas esquerdas há muit@s lob@s em pele de cordeir@ como ele. Ao menos este foi desmascarado a tempo.

    Parabéns ao comentarista pela inteligência dos argumentos, e pela sutileza e clareza da exposição.

    Sampa/SP, 15/06/2019 – 09:38

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