21 de maio de 2026

Já que as regras definem o jogo…, por Luís A. Waack Bambace

Todo mundo é inocente até prova em contrário, mas tem a estória de não bastar à mulher de César ser honesta, ela deve parecer ser honesta.
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Já que as regras definem o jogo…

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por Luís Antônio Waack Bambace

A teoria dos jogos começa dizendo que as regras definem como um sistema social opera. Afinal elas mexem com os equilíbrios de decisões de cada agente do sistema na questão de opção por ações alternativas. Elas também têm que restringir o espaço de escolha quanto a quem ocupa posição de decisão relevante, e entre estas posições está o Banco Central. Todo mundo é inocente até prova em contrário, mas tem a estória de não bastar à mulher de César ser honesta, ela tem também de parecer ser honesta.

O vai e vem de pessoas entre bancos privados e banco central abala a confiança do sistema. Os bancos confiam nos seus, mas indústria, comércio e cidadãos comuns nem tanto. Aí a disposição em investir em algo produtivo cai, e a economia cresce menos. Afinal se o industrial achar que não dá para confiar em políticas de longo prazo, vai depreciar o faturamento e lucros futuros em seu planejamento, e aí pode achar que o investimento não compensa.

O Banco Central só ter de cumprir meta de inflação, e não ter seus modelos totalmente abertos, para que possam ser usados e avaliados por outros setores da sociedade e melhorados via sugestões de outros usuários é um problema grave. Tem a estória de que a decisão de Deus é correta por Ele se onisciente, onipresente e onipotente, e de olhar a eternidade de cada um de seus filhos e não só o melhor para um dado momento. Olhar só a inflação é olhar só o curto prazo, afinal um foco exagerado nela com juros mais altos sacrifica o emprego, e sobe a dívida pública tanto pelo aumento de seu custo como queda de arrecadação. Caem contribuição a previdência, impostos sobre lucros, imposto sobre produtos industrializados, ICM e tudo o mais. Não seria melhor o Banco Central ter uma meta tripla, envolvendo dívida pública, inflação e emprego?

Se a meta tripla for melhor e modelos totalmente abertos fossem disponíveis, não seria interessante que os candidatos a cargos no Banco Central tivessem que apresentar um plano de trabalho a uma comissão de busca, e que estes planos de trabalho ficassem disponíveis a consulta pública, e que este comitê acolhesse ressalvas de outros setores da sociedade que não o sistema financeiro? Mais, que o não cumprimento da metodologia apresentada pudesse gerar afastamento antes do fim do mandato, se uma maioria qualificada de metade mais um em cada uma das duas casas do congresso, ou talvez de 2/3 em cada uma das duas casas avalizasse o afastamento? Com a consulta pública, força-se ao postulante a elaborar uma política adequada, e vai se dar espaço para a indústria e comércio influírem na escolha de pessoas para cargos relevantes no Banco Central. Também eventualmente, se os planos do pessoal do setor financeiro não forem equilibrados o cargo vai ficar com alguém de fora dele.

Pode até parecer que uma regra assim, não tem muito efeito, mas, na verdade, isto vai forçar uma política de controle da inflação mais equilibrada e menos onerosa para os demais setores da sociedade. Por exemplo, redesconto maior reduz a inflação com juros menores. Ao mexer com o fluxo de caixa dos bancos obriga-os a subirem taxas de captação. Em tese como o governo pode emitir moeda, ao fazê-lo dentro de certos limites, ele não precisa subir tanto as taxas de seus títulos, e dependendo da variação do redesconto, esta emissão não leva a aumento de inflação. E o mais importante, a dívida pública cresce menos.

Subindo o juros de aplicações disponíveis ao público muita gente adia o consumo, e caem os preços de bens duráveis e semiduráveis. Na ponta do supermercado, há corte de itens mais caros, como iogurtes, queijos e outros, a menos que eles baixem de preço. Queijo mais barato e o sujeito faz pizza em casa e não compra tanta carne, derrubando o preço dela, e por aí vai. O industrial até pode adiar a construção de uma fábrica, mas mais capitalizado, tende a fazer outra maior depois. Temos de levar em conta que o empresário brasileiro paga de 30 a 50% ao ano pelo capital de giro, e o estrangeiro paga 3% ao ano mais variação cambial, face a ter crédito fácil em seu país de origem. Isto é uma vantagem diferencial enorme para empresas de fora, que faz, por exemplo, um Pão de Açúcar deixar de ser uma empresa brasileira e ter dono francês. Mas o problema é geral, a Romi, líder mundial de máquinas operatrizes não é mais uma empresa nacional. A Arno agora é da Bosch, A Walita da Philips. Se não sobrar nenhuma empresa daqui, também não vai ter banco privado nacional.

Como as decisões do Ministério da Fazenda e todo o investimento público dependem demais das decisões do Banco Central, está na hora de se debater como garantir decisões melhores deste órgão tão crucial para a economia de nosso país. Afinal o que aqui se aponta é só uma opção, não necessariamente a melhor, mas com certeza o que temos hoje não é o ideal para o país, e tem de ser questionado, para que se ache uma solução eficaz, que permita um maior crescimento econômico sem inflação. Lembro que não é o volume de gasto público que gera problemas, mas a qualidade deste gasto. Se o governo agir tal e qual gigantes do agro, comprando antecipadamente a safra com planos de distribuição e estocagem de excedentes, será que este gasto gera inflação? Afinal se passa a ter um maior controle da oferta e inflação de alimentos. Será que um investimento em pesquisa, capaz de fazer surgir em outra área uma gigante equivalente a Embraer, não melhora a questão de controle do câmbio? O Facebook tinha um sócio que era brasileiro, ao ser lançado. Se ele propusesse aqui uma rede igual ao Facebook, alguém financiaria? Infelizmente os critérios de seleção de projetos a serem apoiados no Brasil estão defasados em direção ao que a economia futura pede. A Finlândia, Coreia e outros países se tornaram economias fortes fortalecendo saúde e educação de seu povo. Será que investir em gente não é para nós também o melhor investimento de longo prazo?

Tomemos o caso do carry trade, no auge da safra o dólar cai, afinal se exporta mais face a não se ter estrutura de estocagem adequada. Isto sobe o lucro de quem injeta dinheiro nesta operação na entressafra, quando o dólar está mais caro. Aí como a sazonalidade daqui e do México são defasadas de 6 meses, dá para subir os ganhos tirando dinheiro daqui no auge da safra e colocando lá no auge da entressafra. Será que os modelos em uso olham isto? Se o modelo fosse aberto, alguém levantaria importância de incorporar sazonalidades de países que concorrem entre si no mercado de carry trade. Mais levantaria as questões de: capacidade de estocagem, estoques reguladores, e de exportação de itens deste estoque como a Malásia faz com arroz, usando a política de primeiro que entra, primeiro que sai, de forma a desovar itens mais velhos e não perdê-los por deterioração. Com mais capacidade de estocagem o câmbio varia menos, já que se solta o produto mais devagar, e não há tanto congestionamento de estradas e atividade portuária.

Aliás a questão do arroz da Malásia ficou famosa na crise asiática de 1999. Os juros aqui eram altíssimos, 40% ao ano de juros reais, e a Malásia vendia o arroz velho com juros iguais ao do tesouro americano com dois anos de carência e 5 anos além da carência para pagamento a prestação. O diferencial de taxas de juros garantiam o lucro, mesmo que o arroz fosse jogado fora, só que ele era vendido aqui a preços abaixo do valor nominal deste arroz na venda feita pela Malásia. Resultado, o arroz local encalhou, pois seu preço era mais alto que o de venda por parte da turma que fez esta operação. Aí quanto mais aumentava o juros, mais subia a importação, e o pessoal do governo dizia que a política estava certa, afinal se precisava reduzir a sangria de dólares e juros altos diminuiriam a importação e melhoraria a situação de fluxo cambial. Como se fez operações análogas com outros itens além do arroz e outros países que tinham esquemas de financiamento similares de exportações, é claro que a situação de fluxo cambial não teve o resultado esperado pelo modelo usado na época. Modelo é modelo, a própria equação dos gases perfeitos tem diferenças com relação a realidade, e por isto se tem equação de Van de Waals e equação virial quando se quer operar em determinadas condições onde o erro da equação dos gases perfeitos é alto.

Modelos lineares funcionam bem quando a economia modelada está perto do equilíbrio e não há como alguém iniciar um movimento inesperado de arbitragem de grande monta. O caso do arroz e Crise Asiática, ocorreu com a economia brasileira longe do equilíbrio, em situação de não linearidade forte, quando o modelo linear adotado levou a erros graves. O intercâmbio exagerado de gente entre os órgãos públicos de regulação econômica e grandes agentes privados, permite que estes agentes possam, via acesso exclusivo aos modelos em uso, prever ações dos agentes públicos e tenham ganhos com este privilégio.

O corolário do “Quem Toma Conta do Guardião”, artigo ganhador do Nobel de Economia de 2007 diz que a chance da decisão ser correta é tanto maior quanto: mais transparência tiver o processo de decisão; mais gente participar da decisão; mais regulamentada for a decisão; mais etapas tiver o processo de decisão; menor o valor do bem associado a decisão ou etapa da decisão; quanto maior a oferta do bem associado a decisão; quanto menos pressa se tiver no processo de decisão. Publicidade, não só sobe a transparência, como põe mais gente no processo, via envio de informações, sugestões, e veiculação de informações e dados pela imprensa. O segredo muitas vezes é a alma do negócio, e em geral quanto mais irregular o negócio mais o segredo ajuda. Não é este o caso da cadeia de combustíveis adulterados?

Luís Antônio Waack Bambace. Engenheiro Mecânico. PhD em Aerodinâmica Propulsão e Energia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Rui Ribeiro

    24 de outubro de 2025 10:02 am

    Segundo o Gilmar Mendes, o STF é jogo para adultos.

    Um jogo como assim, Cara Pálida? Jogar com a vida e a liberdade das pessoas? O judiciário não pode ser aleatório. Alea jacta non est.

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