Lei Antifacção: Rio de Janeiro, 40 graus
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Vários governadores do Rio de Janeiro foram condenados, afastados do cargo, presos e/ou se tornaram inelegíveis nos últimos anos. Esses foram os casos de Cláudio de Castro, Wilson Witzel, Luiz Fernando Pezão, Sérgio Cabral, Rosinha Garotinho, Anthony Garotinho, Moreira Franco.
O Rio de Janeiro parece estar mergulhado num mar de lama do qual não pode ser retirado. Todas as instituições cariocas estão comprometidas de alguma maneira. Aquelas que não foram controladas pelo crime organizado são vítimas do terror que ele espalha.
A cidade maravilhosa é cercada de morros. O maior deles parece ser o morro de dinheiro administrado pelas facções criminosas. Ele é tão alto e farto que penetrou nos partidos políticos, despertando a cobiça inclusive de membros do MP e do Judiciário.
A PM carioca às vezes trabalha contra o crime organizado cometendo violências inenarráveis e até ilegais. Outras vezes, os policiais simplesmente prestam serviços aos criminosos. Muitos são involuntariamente utilizados como soldados nas guerras que as quadrilhas de traficantes e milicianos travam pelo controle de territórios.
Quase tudo nos territórios disputados e ferozmente controlados pelas quadrilhas é fornecido pelos “donos privados” deles: drogas, segurança, gás, gatonet TV, internet, transporte alternativo. Os comerciantes pagam “voluntariamente” tributos às quadrilhas, porque a execução fiscal nesses casos pode ser letal.
As academias de polícia do Rio de Janeiro e as academias de oficiais do exército sediadas naquele estado estão treinando policiais e militares ou apenas futuros milicianos? A incerteza é total e o povo quer apenas sobreviver, então ele se curva e tenta seguir em frente. Talvez seja possível sobreviver à próxima chacina organizada por bandidos, sejam eles pistoleiros milicianos ou policiais militares.
O poder das facções cariocas já chegou no Congresso Nacional. E o modelo carioca foi implantado em São Paulo, onde tem sido ora combatido ora acariciado por Tarcísio de Freitas. A Faria Lima claramente virou uma sucursal financeira de todas as quadrilhas brasileiras. Atingia pela crise do Master ela é defendida pela imprensa e pelo governador carioca de São Paulo. Dinheiro bom é dinheiro circulando no mercado financeiro e gerando comissões e verbas de publicidade?
A promulgação da nova Lei Antifacção foi aplaudida pela imprensa. Entretanto, é preciso lembrar que toda Lei que parece boa pode virar uma ferramenta terrível nas mãos de um MP elitista, politizado e dominado de baixo acima por promotores autoritários, simpáticos à extrema direita. Quantos deles são agentes dos traficantes cariocas? Perguntar ofende, não fazer perguntas incômodas pode ser pior.
Além disso, o Judiciário que aplicará a Lei Antifacção é o mesmo que funciona como uma organização criminosa devotada a assaltar aos cofres públicos (os famosos salários acima do teto e penduricalhos abaixo da moralidade ferozmente defendidos pelos juízes e desembargadores) e que já demonstrou uma vocação autoritária para interferir no campo político protegendo vagabundos ricos de direita e condenando seletivamente miseráveis e pessoas de esquerda.
Falta juízo à população brasileira? Algumas vezes sim, outras não. É realmente difícil para mim condenar pessoas que na maioria das vezes estão alheias aos problemas que os homens públicos criam e que muitos deles não querem resolver. As dificuldades que as pessoas pobres passam são grandes e o desânimo com a política é compreensível, muito embora seja prejudicial.
Os ideólogos das novas tecnologias dizem que a IA vai resolver todos os problemas do mundo. A riqueza será abundante e estará ao alcance de todos. A cura para o câncer será encontrada e ficará à disposição das pessoas doentes. Remédios miraculosos serão inventados. Os robôs farão tudo e ninguém precisará trabalhar porque todos seres humanos serão beneficiários de uma renda universal.
Tudo isso é conversa fiada. A única coisa que está acontecendo é o aumento da automação e do desemprego. Quem continua empregado está sendo mais e mais monitorado em tempo real por aplicativos inteligentes. A aceleração da concentração de renda nas mãos das Big Techs é uma realidade. Ela está ocorrendo por causa da massiva transferência de atividades essenciais e próprias do Estado para empresas privadas que cobram bilhões de dólares para prestar serviços à população utilizando de graça bancos de dados públicos.
Mas eu notei que ninguém, nem mesmo Curtis Yarvin, Sam Altman, Jensen Huang, Elon Musk, Sneha Revanur, Lila Ibrahim, Ilya Sutskever, Mustafa Suleyman e outros que dominam a cena tecnológica de uma maneira ou de outra ousaram dizer que a IA será capaz de retirar o Rio de Janeiro do mar de lama em que ele se encontra. Eles provavelmente sabem que a IA tem um grande potencial para acelerar e aprofundar a piora de coisas que já são ruins.
Não é possível ser otimista, mas podemos pelo menos ser irônicos. Desde 08 de março de 1808, quando Dom João VI se instalou no Rio de Janeiro com a corte portuguesa a cidade maravilhosa não foi mais a mesma. Ela adquiriu uma importância política que não tinha e um status diferenciado das outras cidades brasileiras.
No século XIX o Rio de Janeiro se tornou mais importante do que Salvador. Mesmo tendo sido superada em riqueza por São Paulo no século XX, a cidade maravilhosa continuou a ser o centro das atenções e das decisões políticas até a construção de Brasília. No século XXI, o Rio de Janeiro disputa com outras cidades a condição única de sede do crime organizado mundial, com sucursais na Europa, EUA e Ásia. A importância das montanhas de dinheiro sujo do Rio de Janeiro na Faria Lima é tão grande que o governador paulista é um carioca.
Dom João abriu os portos às nações amigas. Para interromper o fluxo de drogas e estrangular definitivamente as quadrilhas, talvez seja necessário a União fechar o porto do Rio de Janeiro. Mas isso seria inútil se o Galeão e outros aeroportos cariocas continuassem abertos.
A solução para o Rio de Janeiro não existe, talvez então seja necessário parar de pensar tanto naquela cidade e construir um futuro industrial para o Brasil. Isso também não será uma tarefa fácil, porque a tigrada bem vestida e perfumada da cobertura é capaz de desistir de qualquer coisa, menos da taxa de juros elevada. Essa é a única coisa, aliás, que possibilitou a solidificação do pacto político não escrito que unificou banqueiros, especuladores e agentes financeiros do crime organizado.
Se a Lei Antifacção ajudar a desmontar esse pacto ela cumprirá um importante papel civilizatório. Todavia, isso será doloroso e a tigrada da cobertura e os “canetas” dos especuladores na imprensa começarão a chiar assim que trilhões de reais começarem a sair do sistema financeiro, a deixar de gerar comissões e verbas de publicidade. A temperatura política no Rio de Janeiro e em Brasília vai aumentar. Então melhor escolher corretamente a trilha sonora.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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