Pablo Marçal, teologia coaching e a esquerda
por Francisco Fernandes Ladeira
Pablo Marçal, principal personagem das eleições municipais de 2024, é “mais bolsonarista que o próprio Bolsonaro”. Diferentemente do ex-presidente, ele realmente representa o slogan “liberal na economia, conservador nos costumes”. Se Nietzsche dizia que o cristianismo é um platonismo vulgar para as massas; podemos dizer que o “marçalismo” é a racionalidade neoliberal vulgar para as massas. Nos discursos do candidato a prefeito de São Paulo estão presentes todas as ilusões difundidas na atual fase do capitalismo, sobretudo a chamada “meritocracia” (a responsabilização do indivíduo por sua situação econômica).
É inegável que este tipo de falácia tem forte aderência nas classes populares. Diante da situação adversa cotidiana, as pessoas querem se apegar a soluções fáceis. Não por acaso, muito se fala que a “teologia coaching” (representada por Marçal) é a etapa superior da “teologia da prosperidade”. Só que, agora, o indivíduo “não se deu bem na vida porque não teve fé suficiente”; “mas por não ter se esforçado o suficiente”. Motoristas de aplicativo não se veem como sujeitos altamente (auto)explorados, mas “empreendedores”. Funcionários não se identificam mais como “trabalhadores”, mas como “colaboradores”, a partir da falsa impressão que uma empresa seria uma “família”. E por aí vai.
Como não tem propostas, Marçal aposta no caos em sua propaganda política. Suas táticas são produzir e divulgar fake news em larga escala, provocar adversários em debates, fazer cortes tendenciosos nas redes sociais, promover discursos messiânicos e apresentar posturas (supostamente) antissistema. Em algumas ocasiões têm dado certo. Não podemos negar que ele sequestrou a agenda pública nessas eleições. Em outras, como na cadeirada que sofreu de Datena, parece que o tiro saiu pela culatra, haja vista sua queda nas pesquisas de intenção de voto.
Por outro lado, para barrar eleitoralmente nomes como Pablo Marçal, é importante que a esquerda volte suas campanhas para questões materiais, que dialoguem com a realidade do grosso da população, como emprego, moradia, saúde e educação. Mostrar para a classe trabalhadora que a extrema direita de Marçal (sob o verniz de defesa da moralidade) representa, de fato, os mesmos interesses daqueles políticos tradicionais direitistas, que o povão tanto repudia.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Unicamp e especialista em Jornalismo pela Faculdade Iguaçu
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