Mas os hospitais são do Hamas!, por Homero Fonseca

O terrorismo deve ser repudiado em todas as instâncias. Seja grupal, como o do Hamas, seja estatal, como o de Israel.

Mas os hospitais são do Hamas!

por Homero Fonseca

Outro dia, conversando com um cidadão brasileiro que tem parentes em Israel, ele – compreensivelmente – se disse angustiado. E acrescentou: “Lá a tensão é terrível”. Nesse momento, minha resolução inabalável de não me envolver em discussões pessoais sobre a guerra ruiu como uma parede de areia numa enchente. Tentei argumentar:

— Na Palestina a situação vai muito além de tensão. A destruição é generalizada, até os hospitais…

— Mas os hospitais são do Hamas!

Nesse exato momento, felizmente chegou meu táxi.

Faz três dias que aquela frase não para de martelar meu cérebro: “Mas os hospitais são do Hamas!” A exclamação aí é imprescindível: tenta traduzir, graficamente, o tom da fala, equivalente a “Bombardear hospital do Hamas pode!” O cidadão, claro, não se dá conta da gravidade de sua fala.

A frase carrega convicção, demonização, justificativa, robotização, confusão conceitual entre estado e pessoas, indignação seletiva, desdém pelo sofrimento de um povo (racismo e supremacismo). Toda uma ideologia.

O terrorismo deve ser repudiado em todas as instâncias. Seja grupal, como o do Hamas, seja estatal, como o de Israel. Toda ação terrorista é um atentado à humanidade, não importa a bandeira política. Vale lembrar que judeus praticaram atentados na região, durante a ocupação britânica (praticado pela Irgun, de Menachem Begin). O Hamas é produto do desespero de um povo submetido a uma colonização brutal (isto é uma explicação, não uma defesa). A Faixa de Gaza foi transformada em um gueto. A opressão colonial foi levada ao extremo paroxístico por Netaniahu.

As imagens, à revelia dos editoriais da mídia e das manipulações nas redes sociais, são eloquentes: pratica-se um pogrom contra os palestinos. O que se vê não é um ataque a um grupo terrorista, é a destruição em massa de um território e de seu povo.

Como no discurso dos colonizadores de sempre, a extinção dos bárbaros pelos civilizados é defendida como justa e necessária. Os colonizados não são humanos, seus hospitais são oficinas de conserto de terroristas — mesmo que os pacientes sejam velhos, crianças, mulheres grávidas, pacientes terminais. Essa gente não importa. Serão terroristas os dois milhões de habitantes da Faixa de Gaza? Na prática, os bombardeios massivos dizem sim.

Tenho profunda simpatia pelo povo judeu, amigos judeus, admiração por intelectuais judeus (Spinoza, Marx, Freud, Einstein, Isaac Bashevis Singer, Gershwin, Chagall). Imagino a apreensão generalizada e a dor dos que têm parentes mortos ou sequestrados. Mas não posso deixar de sentir empatia pelo sofrimento atroz do povo palestino, encurralado no campo de concentração de Gaza, submetido a um extermínio, tratado como não-gente. Mesmo os terroristas, de qualquer lado, são criminosos, devem ser punidos como tal, mas são gente. Se alguém não entende isso, não atina nos conceitos de estado de direito e de humanidade. Isso é racismo puro.

O mundo está rachado: a direita apoia Israel, a esquerda defende os palestinos. Mas nada é tão simples como torcer num Fla x Flu: na Alemanha, ressurgiram manifestações antissemitas; em Nova Iorque, judeus protestaram contra a chacina dos palestinos.

Pessoas sensatas querem a paz, a convivência de dois Estados, a cessação imediata da guerra. Talvez nada disso seja possível. Mas teremos feito nossa parte.

Homero Fonseca é pernambucano, escritor e jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi editor da revista Continente Multicultural, diretor de redação da Folha de Pernambuco, editor chefe do Diario de Pernambuco e repórter do Jornal do Commercio. Foi também professor de Teoria da Comunicação e recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Atualmente, dedica-se à literatura e mantém um blog em que aborda assuntos culturais.

Redação

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