“Medo Líquido”: por que, mesmo conhecido, Lula ainda assusta?
por Armando Coelho Neto
A Roma Antiga, ao adotar o pão e circo, conseguiu saciar impulsos primários da sociedade e conter possíveis revoltas. Já no século XX, como pão e circo era pouco para a sociedade estadunidense, a engenharia social conseguiu trocar cidadania por consumo. De quebra, criou a sociedade da ganância e do desejo, muito bem contada no documentário Século do Ego (Adam Curtis, 2002), multicitado nesse GGN.
Por meio de uma denominada “engenharia do consentimento”, Século do Ego tem, entre outros focos, a ascensão do consumo nos Estados Unidos durante o período entre-guerras. Para lidar com o público, um dos métodos foi estabelecer uma conexão entre os próprios medos e desejos inconscientes das pessoas. E assim, em nome da liberdade, estabelece-se um forte, porém imperceptível, controle social.
O documentário explora as teorias de Sigmund Freud sobre o inconsciente, e que foram adaptadas por seu sobrinho, Edward Bernays, mirando o consumismo moderno e a propaganda política. “Máquinas de desejo” substituíram o cidadão e, a exemplo do pão e circo romanos, a estabilidade social se processa por meio da gratificação do ego, sedução e controle social instrumentalizado até pelo medo.
A ideia de controle social pelo medo chegou a ser tratada há 30, 40 anos, sob o viés da superinformação. A acumulação de dados conseguia criar um certo “ruído branco”, constante e uniforme, capaz de gerar confusão e distorcer a capacidade de compreensão nas pessoas. Como uma série de propagandas ruins que se confunde com a notícia, o excesso de informação não processada desinforma. Simples assim.
A reflexão sobre o tema desaguou na expressão “Medo Líquido”, uma ideia extraída da obra do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. O autor também trata da “modernidade sólida”, na qual as instituições, empregos e relacionamentos eram feitos para durar. De repente, nada é, tudo está, do ex-cercadinho do ex-capitão encarcerado às twittagens de Donald Trump, tudo pode mudar até o fim da tarde.
Se nada é, tudo está, e o futuro é incerto, o “Medo Líquido” seria uma espécie de medo “fluido”, por meio do qual não é possível saber de onde nasce a ameaça, de onde vem o perigo, o temor estranho, indizível, amorfo e impalpável, de forma a converter-se numa espécie de ansiedade constante. Convertido em instrumental político, o medo líquido pode ser o inimigo apontado pela extrema direita.
Medo, ansiedade, desinformação, déficit cognitivo em curso: os fatos que se interligam são os que representam proteção contra o inimigo difuso ou definido. Pelas estatísticas, por exemplo, aos 20 anos o cidadão já tomou entre 20 e 25 vacinas, mesmo assim espalha, até hoje, mentiras sobre vacinas. Medo da vacina, do controle do cidadão pelo Estado… E o controle dos algoritmos sobre sua vida?
Eis que esse palpiteiro oficioso se depara com um exemplar da espécie. Estilo bonachão, ligado em cantores fanhos e angustiados, e que até posta gatinhos e mensagens de autoajuda no Facebook. E, claro, mais preocupado com as leis trabalhistas da China do que com o fim da jornada 6×1, que prevê a redução gradual do horário de trabalho no Brasil. As catastróficas teorias sobre o Pix, então…
Distante da realidade, o interlocutor consegue reunir todos os medos do mundo na ameaça comunista, convicto de que matar comunistas seria a redenção do Brasil. Falando muito e ouvindo pouco, cada frase dele soava metálica, como se oriunda de um protótipo recém-saído do documentário Século do Ego. Tinha cheiro de Freud e Musk, e vomitava turrices sobre comunismo como “Reels” das redes sociais.
Que tal tentar ser leve e arriscar debater o medo usando o vinho da mesa, Casillero del Diablo? Consta que os proprietários da vinícola tentavam uma produção especial guardada em barricas. Entretanto, à noite, à sorrelfa, os empregados se deliciavam com o vinho escondido. Então, a figura de um diabo foi colocada na gruta armazenadora. Por medo, os empregados desistiram e os patrões comemoraram.
Com três mandatos, Lula é um candidato analógico sem surpresas. Sofre na era digital o impacto do “Medo Líquido” produzido pela engenharia social. Incluiu o pobre no orçamento, aguçou o consumo, e ousou dizer: o pobre quer mais. Porém, do pão e circo da Roma Antiga a Elon Musk, a arte de enganar tem sido a regra. “A internet satura instintos de uma forma não prevista pela natureza” (Forbes).
Hoje, na política, vale mais quem controla o medo do que quem entrega mais. Fica mais essa metáfora, além da do vinho.
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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Jones F. Leite
11 de fevereiro de 2026 9:59 amA intoxicação do “vinho do medo” embriaga de forma deletéria o povo brasileiro; pior é que sinto um tanto seus vapores…