“O Agente Secreto” em 3 dimensões
por Wellington Borges Costa
Sou da mesma geração que Kléber Mendonça Filho. Mas diferentemente dele nasci e cresci em São Paulo. A paisagem que ele recria do Recife na década de 70 eu vi na Pauliceia, multiplicada por dez.
O primeiro tema que o filme desperta já chama a atenção logo de cara, plasticamente. É a importância do cinema de rua no relicário arquitetônico das cidades. Num rolê hoje pelo Centro de São Paulo, apenas nas cercanias das Avenidas Ipiranga e São João, recordo de mais de cem cinemas. Arouche, Art Palácio, Olido, Marabá, Ipiranga, Marrocos, Paissandu, Ouro, Regina, República, Metróple, Metro, Comodoro, Cinespacial…
A ”O Tubarão” – de forte presença no filme de Kléber – eu assisti no Cine Aladim na Avenida Celso Garcia, no Brás.
Não havia shoppingcenter. Cinema era o grande rolê nas cidades. Qualquer uma tinha sua sala de cinema de rua. A então pequena Franca, que eu amo e frequentava, tinha quatro.
Não por acaso, o cinema é o cenário preferencial do filme. E há a presença do projecionista Alexandre, sogro do protagonista, que me lembra o Alfredo do italiano Cinema Paradiso”, cuja maravilhosa mescla de lirismo e metalinguagem ocupa o pódio das minhas memórias afetivas cinematográficas. A última cena de “O Agente Secreto”, inclusive, acontece em um posto de saúde, nos dias de hoje, que funciona onde outrora havia um cinema. E isso nos puxa o segundo tema.
A segunda dimensão em que o filme mergulha é a questão da memória histórica. A história se passa em 1977, na vigência da ditadura militar no Brasil, que empoderava fardados truculentos, especialmente na polícia. A foto oficial do General Ernesto Geisel, então presidente, é onipresente nos vigiando o tempo todo em vários ambientes do filme.
O clima de repressão contrasta com a atmosfera libertária do carnaval pelas ruas de Recife. A fantasia corre solta, seja nas fake news sobre a perna cabeluda, na gata siamesa de duas cabeças, na figura fantástica de Dona Sebastiana, vivida pela atriz Tânia Mara, gestora do Edifício Ofir, pensão que abrigava refugiados do regime, em clandestinidade.
A repressão já havia vitimado a esposa do protagonista, que voltava a Recife em busca do filho, com quem planejava fugir do país.
No tempo presente, em tempos de gúgol, historiadoras tentam recuperar a memória nacional pesquisando fitas cassete. Uma delas se envolve tanto com o episódio que resolve ir a Recife se encontrar com o filho do protagonista, também vivido por Wagner Moura. E ali se evidencia este segundo e grande tema do filme, a amnésia coletiva. Pois o filho praticamente nem se lembra do pai, cujos esforços todos foram empreendidos em função do filho. Da mesma forma que muitos brasileiros hoje assumem um negacionismo histórico e democraticamente votam em inimigos da democracia, defensores da ditadura e seus agentes de repressão, como torturadores.
E chegamos então ao terceiro tema e terceira dimensão discutida no filme. O protagonista não era um ativista político. Não era alguém a quem o regime rotulava como “terrorista”. Não estava envolvido com qualquer resistência do tipo guerrilha, luta armada, nada disso.
Por que então foi perseguido de forma implacável? Porque incomodava, não exatamente aos militares, mas às elites que apoiavam o regime.
Lembro muito bem que na escola, à época do filme, falava-se muito em combustíveis alternativos ao petróleo. Não pesquisei, mas creio que o “pró-álcool” seja justamente dessa época, governo Geisel (gúgol!, gúgol!).
Pois bem. O protagonista do filme era um cientista brasileiro que, já nos anos 1970, em uma Universidade Pública no Nordeste do Brasil, desenvolvia um projeto de carro movido a eletricidade! Sim, senhoras e senhores. Tipo um moderno Biuaidi desses de hoje, tanto tempo depois. E isso incomodava a indústria automobilística privada multinacional, sócia e fiadora da ditadura no Brasil.
A figura escrota do fascistão e seu filho playboy, racistas, machistas, xenófobos, evidencia isso. O cara implica até com o cabelo comprido do cientista, em uma época em que mesmo Cid Moreira e Sérgio Chapelin apresentavam o Jornal Nacional (porta-voz do regime) com cabelos compridos.
O terceiro tema, portanto, mais sutil, é a defesa da produção científica na Universidade Pública. Além do negacionismo histórico, nota-se hoje o negacionismo científico e, nestes tempos, forte ataque das elites às Universidades Públicas, sobretudo após ações afirmativas de inclusão social.
Assim como o empresário do filme, a elite quer só pra ela. E desencadeia campanhas de desvalorização como recentemente vimos no caso da filha do ex-jogador Túlio que, aprovada pelo Sisu na UERj, optou por uma faculdade privada em defesa dos “valores da família”.
Torcerei muito pelo filme, não em clima de Copa do Mundo. Mas em nome da História, da Cultura e da Ciência no Brasil.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário