O agro é pop, por Marco Piva

O MST, tão criminalizado em sete CPIs, é um exemplo de que as informações no Brasil capengam onde um lado não escuta o que o outro diz.

O agro é pop

por Marco Piva

Mais de mil convidados, shows de Wesley Safadão e Thiago Abravanel, cenário inspirado nos Emirados Árabes Unidos e um gasto de 15 milhões. Tudo isso para a realização do casamento de Raíssa Maggi Schefer, filha do empresário Elusmar Maggi, conhecido como o ‘Rei da Soja’. A festa épica envolveu mais de 600 profissionais diretos, 2 mil indiretos e uma decoração com 200 mil botões de rosas brancas, milhares de tulipas, orquídeas e uma profusão de flores.

O evento aconteceu no sábado, 25 de novembro, em Cuiabá, e teve a presença da alta sociedade mato-grossense. O noivo felizardo não é bilionário como o sogro, mas está na categoria de milionário, o que lhe garantiu o passe à noiva.

Este é o lado glamuroso do agronegócio que entre empréstimos de 364 bilhões de reais a juros baixos no Plano Safra 2023/2024 e gritos histriônicos contra o governo do presidente Lula, faz pose de quem leva o país nas costas. Leva não. A agricultura familiar é responsável por quase 70% dos alimentos que estão na mesa da população todos os dias. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, tão criminalizado em sete CPIs, é um exemplo de que as informações no Brasil ainda trafegam em linhas cruzadas onde um lado não escuta o que o outro diz. O MST é o maior produtor de arroz orgânico do país e comercializa alimento saudável em vários pontos de venda.

Mas, o que vale mesmo, é o exibicionismo típico de quem se sente o “rei da cocada preta”, ou melhor, o “rei da soja”.

Fico cá pensando com os meus botões o que leva um bilionário a fazer uma festança tão luxuosa enquanto, do outro lado do balcão, a fome ainda corre solta para 33 milhões de brasileiros.

O Brasil não é para amadores. Em 2018 elegeu Jair Bolsonaro, um capitão insurreto que queria explodir bombas nos quartéis como forma de protesto contra os salários da caserna. Eleito presidente, negou a pandemia até não mais poder, o que direta e indiretamente causou a morte de mais de 700 mil pessoas. Pior: insuflou sem assumir publicamente uma tentativa de golpe de estado para derrubar o governo eleito legitimamente nas urnas em outubro de 2022.

Além disso, desprezou as relações internacionais, acusando a China de…comunista (kkkk), e tornou nosso país um anão diplomático, ao preferir investir em discursos fora de época. Seu foco na política externa era agradar a Donald Trump e os extremistas de direita que governam alguns países do Leste europeu. Na América Latina, brigava com a Argentina, nosso terceiro maior parceiro comercial, e vociferava impropérios diários contra a Venezuela, que deve um bilhão de dólares ao Brasil.

E quem apoiava essa verdadeira insanidade política? Vários setores empresariais do agronegócio, muitos deles sendo descobertos agora nas sucessivas operações Lesa Pátria da Polícia Federal, que investiga os atos terroristas de 8 de janeiro desse ano.

A agricultura brasileira, é verdade, não é feita somente de maus empresários que, muitas vezes, usam a fartura dos empréstimos a juros baixos para comprar iates, aviões, jet-skis e bancar festanças épicas e viagens luxuosas ao redor do mundo. A agricultura familiar, a agricultura orgânica, as cooperativas, os pequenos e médios produtores rurais são peças importantes de uma engrenagem gigantesca.

Mas, com um passado escravagista mal resolvido até hoje, não é de esperar outra coisa senão verdadeiras ofensas ao distinto público que labuta diariamente para pagar o pão de cada dia.
Sim, o agro é pop como insiste em dizer a Rede Globo, cujos acionistas da família Marinho são também pop pelos negócios que os mantém no ranking dos maiores bilionários brasileiros.

Deveríamos ter vergonha, mas parece que essa não é uma característica natural da alma mater. Fomos colonizados, houve a independência e a fundação da República, mas a colônia não saiu de nossas cabeças.

Respeitáveis grandes fortunas do agronegócio, reconheçam: vocês não são pop nem aqui e nem na China. Ops, a China é comunista!

Marco Piva é jornalista e apresentador do programa Brasil Latino na Rádio USP FM 93,7.

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