O bastidor indigesto das eleições no Congresso, por Gustavo Conde

Há, aparentemente, mais um ciclo de tentativa de "injeção de esperança" no brasileiro que ainda acredita na democracia.

Agência Brasil

O bastidor indigesto das eleições no Congresso, por Gustavo Conde

Muita gente considerando o alinhamento da “esquerda” ao “Bloco de Rodrigo Maia” como uma “vitória da democracia”.

Para saber o que isso significa, é preciso converter a percepção em realidade com base na experiência histórica recente.

Traduzindo: todas as vezes em que a esquerda anunciou uma “vitória”, perdemos.

Trata-se também de uma autocrítica.

Muitas vezes, argumentei que a esquerda se fortalecia diante do enfraquecimento de Bolsonaro. Fazia parte, dentre outras coisas, de uma certa “mobilização da tropa”, embora me fiasse com rigor em pressupostos da luta política tradicional.

Errei e erramos todos – e é bom não ter medo de errar.

O caso é que Bolsonaro não faz parte dessa luta política tradicional. Ele implodiu o sistema. Hoje, sequer tem um partido político.

É um tanto óbvio, portanto, que as análises sobre sua performance enquanto “articulador” tenham de ser devidamente recalibradas em outros pressupostos, muito mais relacionados com linguagem e comunicação.

Há, aparentemente, mais um ciclo de tentativa de “injeção de esperança” no brasileiro que ainda acredita na democracia.

Muitos analistas progressistas estão apostando suas fichas no Congresso, na assepsia ideológica subscrita no sintagma rarefeito “defesa da democracia”.

Entendo que, a este ponto da nossa catástrofe, isso seja arriscado e, a rigor, ingênuo.

O timing histórico para essa “injeção de esperança” não só passou como nos atropelou.

O efeito-manada, no entanto, ainda deixa suas marcas.

Como perdeu a identificação social nas periferias, a esquerda vai apostando suas fichas no clima gerado pelas mídias progressistas e nos movimentos de arrasto via redes sociais.

E é uma questão geracional: os jovens ficam estarrecidos (com o bloco) e os dirigentes partidários e “analistas” mais “experientes” entram em modo “justificativas”.

Toda a articulação e subsequente explicação sobre a vinculação ao “Bloco de Maia” passou pela chancela dos sites progressistas, mas não todos: ali (aqui) também se contrapõe nesse momento o velho contra o novo.

Colunistas “experientes” em peso saíram em defesa da “concertação parlamentar”. Títulos de matérias migraram todos para exaltação da formação do bloco, trazendo a “defesa da democracia” como ponto de convergência.

Até aqui, tudo relativamente bem. Mas o curioso é que as mídias tradicionais também se enveredaram por esse caminho. O Estadão fez até uma matéria elogiando Gleisi Hoffmann.

Afinal de contas, o que está acontecendo?

Nenhuma novidade. Estamos sendo arrastados de novo para um novo ciclo de ilusões. Estamos sendo levados a acreditar que “eleição na Câmara é assim mesmo” e que “é preciso impedir Bolsonaro”.

Impedir Bolsonaro com um grupo que o sustenta? Que o tutela?

Não é fácil codificar a esperança da esquerda nesse momento. Parece até que o Brasil se iluminou com o “Bloco de Rodrigo Maia”.

Estamos todos muito confusos, a verdade é essa. A pandemia mexe com a nossa capacidade de julgamento em todos os níveis.

Eu diria, de maneira prudente: é preciso esperar um pouco para ver no que vai dar essa articulação no Congresso. Até 7 de fevereiro, muita água vai rolar – e todos sabemos que as eleições no Congresso são uma roleta-russa.

É curioso, no entanto, a perda de timing que nos esfola o juízo. Quando se abre uma janela para que a luta política se reinscreva, há um movimento de contenção. O momento político de eleições no Congresso seria perfeito para aprofundar o debate sobre o país, sobre que país queremos, sobre o Estado Suicidário que vamos tutelando com requinte e graça.

Mas, qual o quê. O negócio é celebrar, até porque estamos com déficit de celebrações.

A oposição (oposição a quê?) foi até responsável, divulgando a composição do bloco com os artífices do golpe com notável discrição. Gleisi só faltou tapar o nariz na coletiva que anunciou o bloco – sua linguagem corporal não deixou dúvidas.

Deu um certo orgulho.

A “festa” ficou por conta dos conciliadores. A imprensa tradicional comemorou com mais parcimônia.

Enfim, vamos, provavelmente,  para mais uma rodada de frustração.

Não é uma notícia de todo ruim, afinal, aprendemos com frustrações. Aliás, estamos aprendendo com frustrações há 5 anos. É bom para o caráter.

Para não dizer que não falei de flores, deixo uma provocação final.

Há o risco de haver alguma inteligência de fato nesse bastidor indigesto das eleições congressuais. Se a oposição estiver escondendo algum tipo de “jogo”, alguma “cartada”, podemos ter, de fato, alguma “esperança”.

Porque ser “transparente” com esse conjunto de forças políticas que nos joga cada vez mais para a sub representação é pedir para ser esmagado.

Vou torcer para termos uma carta na manga. Tomara, né, gente?

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2 comentários

  1. De acordo. O “acordão” do maiafogo está mais para educunha do que qualquer outra coisa.
    Negócio de macacos velhos, cheios de cumbucas pros novidades enfiarem as mãos.
    Como dizer que algo de bom sairá de um encontro de ruindades conservadoras e golpistas?
    Se a pauta deles é a privatização do estado e a total retirada dos direitos trabalhistas e humanos, como se aliar à bancada da bala, do crime, do agronegócio e dos neoliberais?
    Seriam tolos o suficiente para, eleito o novo (epa!) presidente, acreditarem que serão cumpridas as “promessas” de campanha disso e daquilo: nadica, vão é golpear os tais progressistas com novos votos de “tiau quirida”.
    Nem deus e nem o diabo entrariam nessa furada.
    Vejamos.

  2. Fizeram até um manisfesto, Mais um, de que são pródigos. A meu ver, é uma forma cínica de declarar: nós avisamos quais são os nossos princípios. Avisamos, mas não aproveitamos o momento em que somos afagados à procura do nosso voto, Nada impusemos. Perdemos, por antecedência. Como o manifesto é cheio de boas intenções, não se podem impor, hoje, as suas “exigências”. Exceto o item 4, contra os crimes de lesa-pátria das privatizações da Eletrobras, Petrobrás, Bancos Estatais e Correios. Era a hora de impor. Ou Maia, a outra face da moeda Paulo Guedes, retira AGORA as citadas do programa de lesa-pátria ou não tem conversa. O contrario é apoiar. Aderir, de fato, apesar da conversa mole do manifesto, à pauta golpista, neoliberal, ou seja, anti-Brasil.

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