O bolsonarismo e a incapacidade de pensar: os riscos da banalidade do mal, por Marcelo Paulo Wacheleski

O julgamento de Adolf Eichmann é o mais estarrecedor exemplo de como movimentos autoritários e fundamentalistas podem se constituir e banalizar o mal.

reprodução redes sociais

O bolsonarismo e a incapacidade de pensar: os riscos da banalidade do mal

por Marcelo Paulo Wacheleski

Não é de hoje que os cientistas políticos, juristas, sociólogos e filósofos vem alertando para a grande proximidade entre a estruturação dos movimentos bolsonaristas com as fases negras da história com o nazismo e o fascismo. Os traços em comum e a adesão cada vez maior de fundamentalistas às ordens de um líder sem o questionamento de sua adequação com o bem comum e o respeito à dignidade humana chamam atenção e estabelecem o alerta para o risco de uma ruptura não somente política, mas com os valores básicos de preservação da vida e da dignidade humana.

Os bolsonaristas aderem às ordens de um líder; interpretam mensagens que retiram de contexto de frases, falas ou gestos de seu líder; lutam e nome da família, da ordem, da pátria e dos valores morais que elegeram como universais. Não há espaço dentro das crenças bolsonaristas para os diferentes; para divergências ou para convivência com o que se constrói fora de suas crenças. Não questionam os bolsonaristas a adequação das ordens de seu líder ao disposto na Constituição Federal de 1988, aos valores que promovem a pluralidade, a multiculturalidade ou à proteção da dignidade da pessoa humana. Só há uma dignidade pensada de forma totalitária e que esteja dentro dos limites rígidos de valores que eles construíram a partir do discurso de seu líder.

No processo pós Nuremberg, o julgamento de Adolf Eichmann realizado em Jerusalém, é o mais estarrecedor exemplo de como movimentos autoritários e fundamentalistas podem se constituir e banalizar o mal. Eichmann era considerado um dos mais violentos e frios membros do sistema nazista responsável por deportar milhares de judeus para a morte. Porém, ao ser ouvido no Tribunal, o que se verificou em Eichmann foi a incapacidade de pensar e a evidência da banalidade do mal como descrito na análise de Hannah Arendt.

Eichmann durante seu julgamento se mostrou um burocrata, afirmou cumprir ordens, mostrou-se inconformado pela acusação por entender que somente fez o que precisava ser feito de acordo com a norma e seu líder. Eichmann reafirmou que não era um monstro, mas um virtuoso cumpridor de ordens em favor de seu líder. Expressou, ainda que era um bom cidadão com a má sorte de estar num Estado assassino, e que diferente teria sido se estivesse num Estado Justo, onde seria reconhecido. Como bem analisado por Arendt, o cidadão Eichmann era um sujeito condicionado que não agiu espontaneamente ou julgou as ordens recebidas, mas buscou se afastar da responsabilidade de pensar. Importante traço de Eichmann é também o apego aos valores morais e seu visível constrangimento por pequenos deslizes no quotidiano.

Por mais que se resista ao suposto erro comparativo, é inegável que a história tem a fundamental importância de manter a memória que impeça a repetição e banalização do mal.

A organização dos movimentos golpistas do dia 08 de janeiro de 2023 através de redes sociais e mídias, em que as mensagens indicavam a necessidade de cumprir as ordens de um líder; a busca de ver realizada a vontade máxima de um escolhido que dita a verdade e, sem dúvida, a reafirmação de valores totalitários intolerantes a resultados que sejam expressão de valores plurais como o resultado da eleição.

O que Eichmann nos lembra é que a banalização do mal não pode ser ignorada. O que se precisa observar é a necessidade de intervir dentro dos limites da Constituição e através de instituições estáveis e seguras, mas com a capacidade de desestruturar o crescimento da clara intenção de extinção das diferenças, da abolição da democracia e do que ela representa: a proteção da dignidade da pessoa humana, da vida e da liberdade.

Marcelo Paulo Wacheleski – Doutor em Direitos Humanos e Democracia pela UFPR; Pós Doutor em Direito pela Mediterranea Intern Centre Human Rights, Università di Reggio Calabria, MICHR, Itália.

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Redação

2 Comentários

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  1. O articulista foi ao ponto. Os bolsonarentos apresentam uma falha de associação lógica notável. Todos eles “condenam” os ataques de Brasília mas nenhum deles consegue associa-los aos seus próprios atos. Eles parecem dissociados de si mesmos, Eles fizeram mas não foram eles; foram os “infiltrados”; a culpa foi do Xandão que não liberou o código fonte: o governo devia dialogar mais com os manifestantes; a esquerda fez muito pior; seus protestos são legítimos e democráticos…O discurso irado e inconformado da deputada bia kissis torrents de sordi(da) ontem, na votação (unânime) da intervenção no Distrito Federal nos dá conta do mundo partcular que os bolsonarentos vivem. Ela se “comoveu” com as criancinhas, as mães e pais de família presentes nos acampamentos, que estavam sendo “injustamente” presos por conta do terrorismo em Brasília. Reclamou e pediu providẽncias urgentes para o socorro de uma velhinha que estava morrendo entre os terroristas detidos ( já era a segunda vez que essa mulher morria), fez apelos veementes pelo respeito à constituição. A mente dessa senhora que se diz procuradora do governo do distrito federal além de delirante, não tem inteligência sequer para interpretar fatos, quanto mais as leis.É estarrecedor,

  2. É aí que o pensamento de Wilhelm Reich entra em questão ao abordar as questões morais em seu livro “A Função do Orgasmo”. Mas parece que a ala “progressista gosta de elucubrações complicadas e que não levam a lugar nenhum com o pensamento lacaniano… é uma lástima.

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