O caos entre a virtualidade e o apagamento das relações presenciais, por Lucio Lauro B. Massafferri Salles

Fronteiras de diferentes ordens e graus parecem estar se apagando nesse fenômeno que agregou um estranho culto à ignorância, movido no ódio e no ressentimento

Foto José Domingo Laso

O caos entre a virtualidade e o apagamento das relações presenciais

por Lucio Lauro B. Massafferri Salles

Há alguns dias assisti a uma fala, em vídeo, da jornalista investigativa britânica Carole Cadwalladr¹. Em uma palestra, Carole não só criticou a função das redes sociais (especialmente o Facebook) no processo que afastou o Reino Unido da União Europeia, denunciando um movimento estratégico de manipulação das subjetividades dos usuários das redes, como estendeu a sua crítica/denúncia ao papel cumprido por essas redes nos processos de desestruturação das democracias, em diversas partes do mundo atual. No curso desse abalo, o mais grave é que leis formais fundamentais e regras solidárias de convivência estão sofrendo o risco de ir “para o espaço”, sendo dissolvidas num ácido corrosivo de alienação e ignorância, a serviço de interesses criminosos balizados na ganância desmedida do poderio econômico. O que parece haver de novo, nesse caso, não é só o fato de várias democracias estarem desmoronando frente à emergência violenta de autoritarismos por toda parte, o que Andrew Korybko² analisa sob a perspectiva das estratégias típicas das Guerras Híbridas, com os seus programas neurolinguísticos de manipulação e narcotização das mentes; via língua, imagens e informações difundidas de acordo com as especificidades dos seus alvos, que podem ser líderes, massas populares e governos.

A novidade, que experimentamos num agora – em plena vigência – é que esse processo plural de destruição está ligado ao estranho fenômeno da disseminação massiva de ódio e intolerância que brota dos subterrâneos de certas estruturas desse mundo virtual, para manifestar-se com visibilidade no rastro de um apagamento das relações sociais presenciais. De certo modo – poderão dizer – há algum tempo que esse dito apagamento das relações presenciais dá sinas de estar se manifestando, o que se vê a olhos nus nos ônibus, nos metrôs, nas ruas e mesas de bares, entre tantos outros lugares, com um grande número de pessoas fixadas nas telas dos seus celulares, absortas, capturadas por imagens e palavras compartilhadas, escritas ou em viva voz, com os conteúdos que esse “outro virtual” oferece ininterruptamente³.

Sem desconsiderar a utilidade das tecnologias de comunicação/informação, o que parece ainda carecer de tempo para ser entendido com profundidade, a fim de, quem sabe (?), poder ser modificado, é a complexidade que envolve o alcance e as consequências desse modo de se relacionar, que tanto pode se assemelhar a uma bizarra e distorcida versão futurista do antigo mýthos de Narciso. Nessa distorção, um tanto quanto grosseira (como muitos exemplos o são), tudo se passa como se uma parte dos capturados pelas telas, imagens, espelhos ou “lagos virtuais”, ao invés de definharem até o fim (quem sabe potencializando alguma depressão?), tornam-se progressivamente pessoas intolerantes e profundamente ressentidas, convictas de que a chamada realidade provém prioritariamente das imagens e das falas que invadem as suas mentes, as suas almas, fazendo-as crer em muitas coisas que são estrategicamente disseminadas. Não deixa de ser um tipo de adoecimento, do corpo e da mente (indissociáveis).

Imersas em uma virtualidade que parece ter desequilibrado fortemente a balança das relações com o mundo fora do virtual (4), do contato corpo a corpo, das conversas olho no olho, muitas dessas pessoas podem não estar conseguindo ou sabendo escapar, inclusive, do círculo vicioso de dialetizar com seus próprios perfis virtuais e até mesmo com perfis-robôs, que disparam toda sorte de distorções, falsificações de imagens, mentiras e agressões, uma vez que, nesses específicos espaços da cybernuvem (sabemos hoje) ocorreram e ocorrem manipulações estratégicas de medos e fantasmas, visando diversos fins escusos, para não dizer criminosos.

A gravidade dessa questão a ser pensada, para poder ser mais bem compreendida, talvez não esteja tanto no fato de que há pessoas querendo sustentar ideias semidelirantes sobre o formato da Terra, uma bobagem sem nenhuma originalidade, ou que existam pessoas repetindo (também via teia social) que não somente os brasileiros que votaram em Lula, Dilma, Haddad, Ciro, Marina ou Alckmin são comunistas, como, também, Hitler era comunista, algo que uma leitura rápida do seu manual de psicopatia, de caráter autobiográfico, Mein Kampf (Minha Luta), contradiz facilmente. Fronteiras de diferentes ordens e graus parecem estar se apagando nesse fenômeno que agregou um estranho culto à ignorância, movido no ódio e no ressentimento, onde, não por acaso, atividades fundamentais como as artes, a filosofia e as ciências sociais, de um modo geral, passaram a ser covardemente atacadas. E esses campos de cultivo de experiências, indagações e saberes, são importantíssimos para que as pessoas despertem e desenvolvam posturas e pensamentos críticos que lhes sirvam, também, para diferenciar e identificar informações falsas, verdadeiras, manipuladas ou distorcidas.

Talvez, o mais espantoso seja notar que está em curso uma espécie de projeto caótico de destruição de quase tudo o que ainda permite chamar esse mundo de habitável, o que justifica insanamente os apagamentos de fronteiras representadas pelas leis, no que elas, em tese, podem barrar injustiças e prevenir/impedir a barbárie. Perigoso apagamento, também, é o das fronteiras, recentemente construídas é já postas em xeque, entre a dose de ficção que é própria à subjetividade de cada um, e essa gigantesca e ainda não suficientemente compreendida (em termos de alcance; consequências) teia de comunicação virtual. Não podemos entender um momento de ruptura dessa natureza somente com o olhar do passado, não sendo possível prever ainda o que virá.

 

Leia também:  O florescimento lucrativo do capitalismo de vigilância, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Notas:

[1] – A palestra da jornalista Carole Cadwalladr se chama Facebook’s role in Brexitand the threat to democracy (“O papel do Facebook no Brexit e a ameaça à democracia”):https://www.ted.com/talks/carole_cadwalladr_facebook_s_role_in_brexit_and_the_threat_to_democracy?utm_campaign=tedspread&utm_medium=referral&utm_source=tedcomshare

[2] Guerras Híbridas, das Revoluções Coloridas aos Golpes (Moscou. People’s Friendship University of Russia, 2015). Em https://tutameia.jor.br/brasil-e-alvo-de-guerra-hibrida/ uma entrevista com o analista político, norte-americano, Andrew Korybko, na qual ele sustenta que o Brasil é alvo de uma Guerra Híbrida (em curso). O livro de Andrew Korybko está disponível para download em https://guerrashibridas.files.wordpress.com/2018/03/guerras-hc3adbridas-a-abordagem-adaptativa-indireta-com-vistas-c3a0-troca-de-regime-2.pdf

[3]https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=VASywEuqFd8: (Sobre esse fenômeno, vale conferir a arte do músico/DJ Moby em parceria com o ilustrador/animador Steve Cutts, no clipe Moby & The Void Pacific Choir que divulga a música “Are you lost in the world like me”).

[4] – Sobre o fenômeno de captura da subjetividade humana, na virtualidade das redes de comunicação instantânea, vale a leitura da pesquisa de Malena Segura Contrera (Mediosfera. Meios, imaginário e desencantamento do mundo. UFRGS, 2017, disponível para download em https://www.ufrgs.br/imaginalis/editora/mediosfera).

Lucio Lauro B. Massafferri Salles – Professor e Psicólogo, Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, foi supervisor no Instituto Municipal Nise da Silveira.

 

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