O Chanceler sincero
por Felipe Bueno
Se ainda é cedo para dizer como Friedrich Merz será conhecido daqui a algum tempo nos livros de História, caso no futuro ainda existam livros, já se pode dizer com algum grau de certeza que o atual chanceler da Alemanha tem um dom para criar polêmicas com outras nações. Este, claro, é um mundo em que as declarações – sérias ou não – ficam amplificadas pelo poder das redes sociais, e eis aí um paradoxo: aparecem sob as lentes de aumento virtuais muito maiores do que realmente são e, ao mesmo tempo, desaparecem com muito mais facilidade ao sabor dos pronunciamentos subsequentes.
Em novembro do ano passado, Merz deixou mais de um brasileiro irritado durante a COP 30 em Belém. Na ocasião, declarou que integrantes de sua delegação ficaram “contentes” ao deixar a capital paraense para retornar à Europa. A fala foi amplamente interpretada como desrespeitosa com o país anfitrião e com a região amazônica, gerando críticas do governo brasileiro e de analistas internacionais. Arrogante? Ignorante? Sincero? Corta para abril de 2026.
Liderando uma Alemanha já há tempos preocupada com sua vizinhança por causa da interminável guerra na Ucrânia, Merz resolveu dizer o que pensa sobre a ação dos Estados Unidos contra o Irã, e avaliou que a nação persa está humilhando os ocidentais. Para Merz, a falta de uma estratégia de saída clara por parte de Washington e a habilidade de Teerã em protelar negociações expõem a maior potência do mundo a um desgaste comparável aos fracassos no Afeganistão e no Iraque.
Enquanto procura fontes alternativas para garantir sua estabilidade no cargo e a normalidade da Alemanha, Merz vai gastando sua energia própria para manter sua relevância: lembremos que, ainda no fim do ano, colocou-se contra a então recém-anunciada doutrina de segurança dos Estados Unidos, alertando que a “aliança de valores do Ocidente não existe mais”. O que viria depois dessa aliança? Não sabemos. Talvez nem Merz saiba.
O polêmico chanceler ajusta a mira para fora, mas seus alvos mais urgentes estão no próprio quintal: preocupações energéticas, econômicas, fiscais e militares de uma nação que, sim, continua ocupando papel de liderança e destaque em seu continente. Mas há um problema! Se é certo que quase nada mudou das paredes para dentro, do lado de fora, porém, as placas que indicam as direções e sinalizam as proibições foram trocadas da noite para o dia.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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