O debate dos pangarés, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O debate dos pangarés, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Não assisti o debate da Rede Bandeirantes duas razões.

A maioria dos candidatos presentes no debate apoiou o golpe de 2016 (Alckmin, Marina Silva, Bolsonaro, Álvaro Dias, Meirelles e Cabo Daciolo). Aqueles que confrontaram o golpe (Ciro Gomes e Boulos) fizeram mal ao legitimar um evento cujo principal objetivo foi normalizar um espaço político antidemocrático criado mediante uma evidente violência institucional.

O segundo motivo pelo qual não liguei minha TV na Rede Bandeirantes foi a absoluta falta de representatividade do debate. O candidato a presidente preferido pela maioria dos brasileiros está injustamente preso em Curitiba e a (in)Justiça o impediu de participar da discussão. 

Dito isso passo a fazer algumas considerações sobre o debate dos pangarés a partir do que li na imprensa e vi no Twitter. Os principais jornais brasileiros comentaram o debate da Rede Bandeirantes como se ele fosse capaz de influir no cenário eleitoral. Ledo engano. Lula continuará sendo o candidato preferido da população. A ausência dele no debate foi amplamente debatida e divulgada no Twitter e no Facebook.

A tentativa da Band de normalizar o espaço antidemocrático imposto ao país por duas fraudes jurídicas (o Impedimento de Dilma Rousseff e a condenação e prisão de Lula por Sérgio Moro) não surtirá efeito. A resistência ativa dos apoiadores do PT continuará sendo um fator desestabilizador. A internet é capaz de reintroduzir na vida cotidiana dos eleitores a sensação de que estamos sendo forçados a viver numa realidade paralela artificialmente criada para retirar a soberania popular da arena política.

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Nesse sentido, o momento mais importante do debate foi protagonizado por Boulos. Quando deu boa noite a Lula (preso e impedido de debater) ele reintroduziu a realidade num espaço artificialmente criado para obliterar sua existência.

Os blogues sujos aplaudiram muito a performance de Boulos em razão dele ter chamado Bolsonaro de machista, racista e homofóbico. Esse, creio, pode ter sido o pior momento do candidato de esquerda no debate. A ingenuidade de Boulos me parece evidente.

O candidato do PSOL atacou o que considera ser defeitos do adversário. O problema é que esses supostos defeitos são percebidos por dezenas de milhões de brasileiros como as principais virtudes de Bolsonaro. Portanto, o que Boulos fez foi apenas e tão somente reforçar as qualidades positivas do adversário perante seus eleitores e simpatizantes.

Adolf Hitler disse certa feita que ele e seus colegas nazistas eram bárbaros, que eles queriam ser bárbaros, que tinham orgulho de ser bárbaros e que ser bárbaro era um título honrado. O irracionalismo, que levou Hitler ao poder e possibilitou que ao III Reich massacrar todos seus adversários políticos antes de iniciar a II Guerra Mundial, é um fenômeno perigoso. Ele tem a capacidade de hipnotizar e mobilizar dezenas de milhões de fanáticos evangélicos que são diariamente estimulados a odiar irracionalmente o PSOL justamente porque o partido de Boulos condena o machismo, o racismo e a homofobia.

A única maneira de lidar com o irracionalismo é a ironia, a malícia e a dialética erística. Boulos sido muito mais eficiente se dissesse que Bolsonaro não pode ser considerado machista, racista e homofóbico colocando em dúvida a sexualidade do adversário e obrigando-o a reafirmar suas convicções. Depois o candidato do PSOL poderia, por exemplo, mudar de assunto e discutir o estrago na economia brasileira que foi provocado pela ideologia de Bolsonaro em razão dela ter sido usada para destruir o governo Dilma Rousseff provocando desemprego, desespero e fome.

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Enquanto os candidatos debatiam na Band, os juízes comemoravam um aumento salarial inoportuno e imoral. Alguns deles certamente estão preocupados com a resistência de renomados juristas europeus aos abusos que a (in)justiça brasileira cometeu para mutilar a soberania popular impedindo Lula de disputar a presidência: 

https://jornalggn.com.br/sites/default/files/documentos/385836224-carta-de-juristas-ao-stf.pdf

Mesmo ausente Lula venceu o debate de ontem. Os juízes jogaram a credibilidade do Brasil numa cloaca e ninguém colocará mais dinheiro neste país de merda. 

Na França judiciário feudal foi destroçado pela Revolução. Em toda Europa ele foi esmagado pelas guerras napoleônicas. “Foi o único que me escapou.” – disse Napoleão em sua autobiografia sobre d. João VI. No Brasil o feudalismo togado renasceu e/ou foi reforçado a partir de 1808.

A única mudança que ocorreu com a Proclamação da República foi a transferência informal para os militares/juízes do “poder moderador” exercido por D. Pedro II (constituição do império). O resultado aí está: um golpe com o STF com tudo” e o assalto togado ao Orçamento.

E enquanto nós afundamos no feudalismo vários candidatos nanicos à presidência debatem a URSAL, defendem a entrega do petróleo aos gringos, propõe a extinção da escola pública e se esquecem que quem manda mesmo neste país de merda não compareceu nem viu o debate dos pangarés.

Lenin liderou a revolução russa pregando “todo poder aos soviets”. Cá todo poder foi doado à Embaixada dos EUA pelos juízes feudais. Portanto, não precisamos mais eleger o presidente da república. Nosso Estado já perdeu sua autonomia e foi integrado no império ao norte como vassalo cordial.

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Nada mais tenho a dizer sobre o debate que não vi.     

 

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12 comentários

  1. Tb não assisti aos 2 debates
    Mas soube do sucesso do patético Cabo Daciolo.

    Pastor, bombeiro, reacionário, aproveitou o debate para abocanhar votos do eleitorado fascista de Bolsonaro, já que é muito mais articulado que o capitão (não precisa muito). Eleito pelo PSOL, dizem que na esteira das manifestações de 2013, posteriormente foi preso, expulso do partido e mudou de lado. No debate acusou Ciro de ter fundado o Foro de SP e de participar da Ursal, que ninguém sabe o que é, mas já virou TT no Twitter.

    Lula segue preso.

  2. Conclusões do debate

    Assisti na paralela o debate da candidatura Lula, que foi muito esclarecedor em relação ao plano de governo.

    O debate da BAND foi extremamente assimétrico em temperamento, em % de intenção de votos dos candidatos, em tamanhos de partidos e etc. Programa frio e com todos claramente a desgosto (incomodados), inclusive os organizadores. Não houve nem “boa noite” nem nada. Os candidatos foram tratados como estudantes. A BAND imaginou um tipo de discussão em formato de “vestibular”, mas os candidatos preferem passar mensagens próprias ao invés de responder perguntas de jornalistas.

    A grande política da candidatura

    Pelo tipo de perguntas se observa, mais uma vez, que a BAND (e a mídia em geral) leva o debate para temas específicos sem sequer delinear o conceito de nação e de tipo de sociedade que cada candidatura propõe – que acredito seja o mais relevante. Se este ponto for avaliado primeiro, o eleitor teria já de cara uma primeira posição do campo político de cada candidato e dos apoios que o sustentam. O debate não divide claramente aos candidatos entre esquerda e direita e entre visão de nação autônoma ou colônia. Acredito que isso seja proposital, se entendemos que a mídia completa estará apoiando Alckmin.

    Os próprios candidatos pouco colaboraram neste quesito, apresentando apenas assuntos específicos. Em resumo, o debate leva a discussão para temas de prefeitura ou síndico de prédio, mas ainda longe da conjuntura política que atravessamos e do tipo de país que queremos.

     O debate entre “ministérios”

    Como não foi discutido o mais relevante, leva-se a discussão para pautas de “Ministérios”, de onde poderia surgir outro perfil dos candidatos.  Temos aqui uma avaliação muito pontual, baseada em atitudes comportamentais e estratégias de ação específicas para diversos temas, que confunde ao eleitor ao invés de ajudar a entender o que está em jogo. Este tipo de debate aponta para favorecer o candidato maduro, comportadinho e que parece mais sério que os outros, sem importar que o seu plano de governo consista, por exemplo, em entregar todas as riquezas para os EUA. Discussão para eleição de síndico de prédio, nunca para a Presidência do Brasil.

    Em compensação, cada candidato deixou a sua preferência ou linha de pensamento em termos de ações ministeriais, embora, sempre escondendo a real intenção, que permite que apenas duas ou três grandes opções reais para o Brasil se escondam por trás de mais de 35 partidos políticos. A BAND e a mídia discute o detalhe, e esconde se esse “detalhe” será 100% brasileiro ou será entregue às grandes corporações globais.

    A mensagem final de cada candidato

    CIRO: Evitado pelos seus concorrentes diretos e também pelos nanicos que procuraram tirar casquinhas dos maiores, Ciro aproveitou os seus minutos para mostrar capacidade para guardar números e estatísticas, tentando passar a imagem de pensamento rápido, com soluções prontas, de candidato preparado e pronto para ganhar Nota 10 numa eventual escolinha do professor Raimundo. Já com tudo para ajudar a tirar gente no SPC, criar num piscar de olhos 2 milhões de empregos e etc. Ciro fala bonito, mas é justamente o candidato que tem maior quantidade de “russos” para combinar a execução das maravilhas que fala.

    MARINA: Não mudou em nada o seu discurso blá-blá-blá, acrescentada com joguinhos bobos de palavras, do tipo “população por centrão”.

    MEIRELLES: Mostrando o lado técnico da sua gestão, embora sob o comando de chefes diferentes. Tentou tirar partido do sucesso do Lula, apenas porque foi Ministro na época. Sem esclarecer se estava falando com o povo ou com as elites, soltou uma frase final que, sem dúvida, deverá favorecer o Lula: “Você tem que olhar o que cada um fez e alterou a sua vida”. Valeu Meirelles, se falasse isso no extenso tempo que dispõe na TV, Lula ganha no primeiro turno, pois ele sim alterou a vida de milhões de brasileiros, para melhor.

    DACIOLO: Um candidato surpresa, para encher linguiça no auditório da BAND. O Daciolo é do mesmo tipo Magno Malta, que acha que está na igreja dele falando com um monte de gente “menos instruída”. Para “honra e glória do senhor Jesus” o Daciolo vai levar o Brasil para ser a primeira economia e potencia mundial.

    ALCKMIN: Dentro do contexto, pelas características do debate e pela estratégia da mídia, é obvio que Alckmin terminaria como o bom mocinho, o comportadinho, educado e bom gestor, dentro da escolinha do professor Boechat.

    ÁLVARO DIAS: Foco na ficha limpa do candidato, receita padrão para um bom síndico de prédio. Querendo galgar na popularidade anti-PT do Juiz Moro cita-o reverencialmente ao longo das suas participações.

    BOULOS: O único que se lembrou do Lula (grato por isso). Boulos segue a estratégia de nanico querendo bater nos grandes. Acho que bateu demais e, em minha opinião, seguindo roteiro do PSol foi para a linha abaixo da cintura contra Bolsonaro, favorecendo mais uma vez o discurso deste. Fica claro como o PSol (queridinho da Globo) age como a esquerda que a direita gosta, e parte dessa direita é representada pelo Bolsonaro, que trabalha justamente abaixo da linha da cintura. A direita neoliberal, que tenta se fantasiar de Centro, leva o debate mais para cima, se contrapondo aí exatamente com o PT, a esquerda que a direita não gosta, pois dá certo.

    BOLSONARO: Bolsonaro, aproveitando a bola redonda que recebe do Boulos (que nem a cusparada do Wyllys) encerra participação dizendo que “Brasil merece presidente que não permita “ideologia de gênero” e ideologias de esquerda nas escolas”. Bolsonaro mostra que tentará subir exatamente acima das provocações ingênuas da esquerda colorida, modernosa e carnavalesca.

    Já o debate do “Lula” foi muito bacana e teve bastante audiência, aparentemente.

  3. Boa Fábio, assino embaixo.

    Boa Fábio, assino embaixo. Sua reflexão sobre o erro de Boulos é corretíssima. Boulos não poderia ser tão ingênuo.

  4. Menos é mais

    A primeira conclusão que se tira desse debate é que Lula ganha ao ser proibido de participar.  A proibição se transforma em preservação e e le cresce como fermento.  Como todo processo a dialética na campanha televisiva tambem é valida; Bolsonaro de boca fechada (leia-se muito pouco tempo) preserva-se tambem de expor todo seu primarismo e “murchar” para AlKimin e manter o “mito” para a plebe proto-fascista e desenformada.

  5. Não foi bem assim…

    Não sei como a imprensa está repercutindo o debate, mas eu vi. Boulous realmente chamou Bolsonaro de machista, racista e homofóbico, mas a pergunta dele para o Bolsonaro não foi sobre isso, foi sobre a “Val”. Isso se refereia denuncias que surgiram de que Bolsonaro manteria uma funcionária fantasma no seu gabinete, Bolsonaro como sempre tergiversou na resposta. E mais, quando perguntado novamente por Boulos sobre ter consiguido aumentar o seu patrimonio enquanto deputado so tendo aprovado dois projetos e mais de 20 anos no cogresso, obrigou o Bolsonaro a defender os privilégios que ele diz combater. Achei a estratégia do Boulos ótima, desfazer a imagem de ‘pureza’ do Bolsonaro como ‘o novo na politica’, o ‘impolutoo’ que é contra privilégios, pois é isso que faz muita gente aderir ao candidato fascista. Se a impressa não está repercutindo isso, o motivo é obvio, o Bolsonaro é o plano B das elites se o plano A(de Alckmin) não emplacar.

  6. Não deixarão os golpistas que

    Não deixarão os golpistas que vença um candidato que tenha o projeto de tornar aqui um país de respeito e parar com essa política econômica atual, que quer nos transformar num congo belga do século XXI. Farão de tudo pra não deixar que ganhem no voto. Se der errado, a união Mercado-Globo-Tucanos-STF não o deixarão governar – não esqueçamos que nosso parlamento é expert em impeachments. Se for preciso, STF já deu mostras que pode dar uma ajudinha pra que mude-se o sistema político e se imponha o parlamentarismo, afinal é muito mais fácil manobrar 500 do que 150 milhões de pessoas – e aí o Quico Rodrigo Maia terá chances de  mandar no país rs . O país vive o mesmo drama de 64 quando o golpe militar impôs uma visão socioeconômica e quem não a apoiava devia ser eliminado. Só que hoje há o véu de que tudo está funcionando democraticamente. Enfim, democracia pra inglês ver. 

     

     

     

     

  7. Uma cena deprimente

    Um senhor com a cara deformada por botox, querendo ganhar votos ao chamar como  Ministro da Justiça,  um juiz que acaba de ser desmoralizado internacionalmente, mas como todos os candidatos da direita,apresentou Moro para acalmar setores e mostrar o  porrete, ou um relho a seu lado. Pois é isto que Moro significa.  Esta triste figura, depois de trabalhar para o golpe e terceirizar o trabalho sujo, se escondeu em terras quase Paraguaias, pensando conseguir lavar e esconder toda a sujeira. Não conseguiu mas reaparece  como candidato que se diz o novo. Além do discurso de ódio, nada mais ficou, afinal não tem proposta alguma.

    Ao lado uma mistura improvável de beato com milico, fazendo coro e couro com aquele que adora ser o que é, isto é , um vazio total munido de um discurso violento e hostil,  cheio de clichês fascistas.O segundo tem como  proposta concreta   resolver a violência do país com castração química e resolver o problema da educação criando colégios militares. De resto os mesmos clichês  de menos estado e favorecimento da classe empresarial e do mercado, ( de olho no financiamento de campanha).

    Depois o vazio cheiroso, visto que é  inócuo e inodoro  e transparente. Pois quanto mais se olha se vê que a luz passa por ele como se fosse o vácuo. No discurso, mais clichês de mercado, mais austeridade fiscal, mais privatização, mais reforma trabalhista. Tudo isto naquele linguajar  tucano do interiorrrr que diz defender o novo. Negligente com o público, se preocupou  em agradar sua vice, um Bolsonaro de saia, que adora um relho, e benesses. Mas ainda tentou dançar um tango, com a   ex tudo , ex-seringueira, ex-petista, ex-ministra ex defensora da  natureza que agora   defende a Natura,  ex golpista. Mais uma que como o Botox se escondeu pensando passar incólume por toda esta sujeira.  Porém é pior do que o Botox, pois ainda finge estar em outro campo. Se ex em tudo ao menos permance  narcisista e egocentrada, afinal seu discurso político se resumiu a  falar heroicamente  de si mesma.

    Ao lado aparece entaõ a  figura de um banqueiro internacional, cujo discurso , posturas e respostas me deixaram com dúvidas sinceras sobre a competência dos  que dirigem o mercado. Este senhor  que mal sabe falar, nada falou. Ficou lembrando da época de Lula. Pela performance que implementou no governo atual e pela seu ar apalermado no debate, eu chego a conclusão que na época de Lula ele lá foi posto apenas como um enfeite, para acalmar o mercado. 

    Quanto a Ciro e Boulos, mal os vi. Até a posição das cadeiras foi  cuidadosamente colocada, os deixando  num ângulo quase invisível. Entre eles Meirelles que também queriam esconder, afinal naquele cenário, ninguém queria ser  Temer. Mas apesar da tentativa de escondê-los, reverberava pelo cenário  o temor dos outros candidatos, que não ousavam sequer fazer pergunta aos dois.  Que de fato foram os melhores do debate.

    Fábio fez bem em não assistir e fez uma bela análise.

  8. + comentários

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