18 de outubro de 2026

O extraordinário legado de Lula, por Luís Nassif

Foi um defensor intransigente do aprimoramento da democracia e procurou garantir oxigênio a setores fundamentais para o desenvolvimento
Foto de Lula Marques - Agência Brasil

Show “A música dos 80 anos” no Sesc 24 de Maio homenageou a década de 1940 com intérpretes como Ayrton Montarroyos e Silvia Borba.
Evento reuniu gerações diversas celebrando brasilidade e o papel unificador de Lula na democracia e modernização social.
Lula é destacado como símbolo democrático, enfrentando resistências, com avanços sociais, mas sem projeto claro para o futuro do país.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Ontem fui ao Sesc 24 de Maio assistir ao fantástico show “A música dos 80 anos”, com repertório da década de 1940, em homenagem aos 80 anos do Sesc. Um espetáculo inesquecível: pelas canções, pela reconstituição dos arranjos da época e pelos intérpretes — Ayrton Montarroyos, Ju Santos, Leila Pinheiro e uma surpreendente Silvia Borba, recifense que, em 2022, lançou o álbum “Fala Mulher”, produzido pela minha amiga Socorro Lira. O Brasil precisa conhecer Silvia. Ela parece ter atravessado o túnel do tempo, vindo diretamente dos anos 1940.

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Foi um show de brasilidade. O retrato de um país que, no pós-guerra, começava a se descobrir, a perder o sentimento de vira-lata — que renasceria nas últimas décadas — e a celebrar o orgulho de produzir a melhor música do planeta.

A cada samba-exaltação, a cada samba sincopado que celebrava o país, o auditório era tomado por arrepios cívicos. A emoção explodia em gritos políticos e mãos levantadas, com os dedos formando o L. “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”.

Estavam ali estudantes, velhas guerreiras das lutas contra a ditadura, casais de meia-idade. Gerações diferentes, unidas na celebração do Brasil e da nacionalidade. E ali pude constatar, mais uma vez, o extraordinário papel de Lula como elemento aglutinador do sentimento nacional e da modernização social do país.

Há inúmeras críticas a fazer a ele, especialmente ao terceiro governo. Jamais teve a imaginação criadora dos grandes estadistas, de lançar as bases do futuro. Mas, ao mesmo tempo, foi o político que impediu a desagregação maior do país, à rendição a modelos selvagens que sepultariam qualquer veleidade democrática.

Um dos maiores desserviços prestados ao Brasil, sobretudo pela mídia, foi a construção do antilulismo. Em qualquer país civilizado, Lula seria preservado como um ativo nacional: uma das poucas lideranças com representatividade para atuar como fiadora da democracia. Isso não significa poupá-lo da crítica. Significa distinguir a fiscalização de um governo da tentativa de destruir uma referência democrática.

Durante o primeiro governo Lula, quando a mídia investiu pesadamente no mensalão — um primeiro ensaio de golpe —, quase todos os ex-presidentes vieram em seu socorro: José Sarney, Itamar Franco e até Fernando Collor. O único que se eximiu foi Fernando Henrique Cardoso.

Lula sempre foi um grande fortalecedor do capitalismo brasileiro. Não afrontou os cânones do mercado, raramente avançou sobre privilégios e deixou de enfrentar os abusos financeiros e a submissão do país a políticas monetária e cambial que sufocaram as possibilidades de crescimento. Essa é uma de suas limitações centrais.

Ao mesmo tempo, foi um defensor intransigente do aprimoramento da democracia e procurou garantir oxigênio a setores fundamentais para o desenvolvimento, como educação, ciência e tecnologia e inclusão social. Sob sua liderança, o incompleto sistema democrático brasileiro ampliou a participação do sindicalismo, abriu espaço para a atuação produtiva do MST e expandiu o acesso dos mais pobres à saúde e à educação.

Hoje de manhã, fui tomar café com minha vice-caçula, ex-aluna da Poli. Ela me contou sobre a emoção de um dos primeiros cotistas ao conseguir, pela primeira vez na vida, encher a geladeira da casa da família. Estive na formatura dela, a mesma em que se formou a primeira geração de cotistas. Todos os discursos celebravam a democracia, a inclusão, o respeito e a responsabilidade dos formandos para com a escola pública.

O contraste com a resistência às cotas não poderia ser maior. Quando a política foi questionada no Supremo Tribunal Federal, o verdugo era o então senador Demóstenes Torres; o ghostwriter, o colunista Demétrio Magnoli. A disputa foi tão feroz que a Folha abriu uma página para Magnoli acusar os repórteres responsáveis pela cobertura de agir como uma gangue a serviço do petismo. Ou seja, o jornal deu espaço para um ataque aos seus próprios jornalistas. Era mais um capítulo da grande batalha pela inclusão.

O fio condutor do trabalho de Lula foi humanizar minimamente um país atrasado: encontrar brechas na política para assegurar aos mais pobres condições elementares de uma vida digna.

Seu governo deixa a desejar pela falta de uma visão de futuro, de um projeto capaz de fazer o país dar um salto. Mas, quando se observa o papel de uma mídia disposta a viabilizar até um chefe de milícias para impedir sua vitória, também se compreende a dimensão das resistências que enfrentou. Lula avançou onde foi possível. E permanece, aos 80 anos, como um grande símbolo da democracia, uma bandeira capaz de reunir brasileiros de diferentes correntes contra a ultradireita miliciana.

Que consiga o quarto mandato. E que, empurrado pelas ruas, pela rapaziada que acordou para o Brasil, convoque as forças nacionais para desenhar e realizar o grande salto rumo ao futuro. E que o país comece a se preparar para receber o bastão da democracia e do desenvolvimento e caminhar pelas próprias pernas.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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