Ontem fui ao Sesc 24 de Maio assistir ao fantástico show “A música dos 80 anos”, com repertório da década de 1940, em homenagem aos 80 anos do Sesc. Um espetáculo inesquecível: pelas canções, pela reconstituição dos arranjos da época e pelos intérpretes — Ayrton Montarroyos, Ju Santos, Leila Pinheiro e uma surpreendente Silvia Borba, recifense que, em 2022, lançou o álbum “Fala Mulher”, produzido pela minha amiga Socorro Lira. O Brasil precisa conhecer Silvia. Ela parece ter atravessado o túnel do tempo, vindo diretamente dos anos 1940.
Foi um show de brasilidade. O retrato de um país que, no pós-guerra, começava a se descobrir, a perder o sentimento de vira-lata — que renasceria nas últimas décadas — e a celebrar o orgulho de produzir a melhor música do planeta.
A cada samba-exaltação, a cada samba sincopado que celebrava o país, o auditório era tomado por arrepios cívicos. A emoção explodia em gritos políticos e mãos levantadas, com os dedos formando o L. “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor”.
Estavam ali estudantes, velhas guerreiras das lutas contra a ditadura, casais de meia-idade. Gerações diferentes, unidas na celebração do Brasil e da nacionalidade. E ali pude constatar, mais uma vez, o extraordinário papel de Lula como elemento aglutinador do sentimento nacional e da modernização social do país.
Há inúmeras críticas a fazer a ele, especialmente ao terceiro governo. Jamais teve a imaginação criadora dos grandes estadistas, de lançar as bases do futuro. Mas, ao mesmo tempo, foi o político que impediu a desagregação maior do país, à rendição a modelos selvagens que sepultariam qualquer veleidade democrática.
Um dos maiores desserviços prestados ao Brasil, sobretudo pela mídia, foi a construção do antilulismo. Em qualquer país civilizado, Lula seria preservado como um ativo nacional: uma das poucas lideranças com representatividade para atuar como fiadora da democracia. Isso não significa poupá-lo da crítica. Significa distinguir a fiscalização de um governo da tentativa de destruir uma referência democrática.
Durante o primeiro governo Lula, quando a mídia investiu pesadamente no mensalão — um primeiro ensaio de golpe —, quase todos os ex-presidentes vieram em seu socorro: José Sarney, Itamar Franco e até Fernando Collor. O único que se eximiu foi Fernando Henrique Cardoso.
Lula sempre foi um grande fortalecedor do capitalismo brasileiro. Não afrontou os cânones do mercado, raramente avançou sobre privilégios e deixou de enfrentar os abusos financeiros e a submissão do país a políticas monetária e cambial que sufocaram as possibilidades de crescimento. Essa é uma de suas limitações centrais.
Ao mesmo tempo, foi um defensor intransigente do aprimoramento da democracia e procurou garantir oxigênio a setores fundamentais para o desenvolvimento, como educação, ciência e tecnologia e inclusão social. Sob sua liderança, o incompleto sistema democrático brasileiro ampliou a participação do sindicalismo, abriu espaço para a atuação produtiva do MST e expandiu o acesso dos mais pobres à saúde e à educação.
Hoje de manhã, fui tomar café com minha vice-caçula, ex-aluna da Poli. Ela me contou sobre a emoção de um dos primeiros cotistas ao conseguir, pela primeira vez na vida, encher a geladeira da casa da família. Estive na formatura dela, a mesma em que se formou a primeira geração de cotistas. Todos os discursos celebravam a democracia, a inclusão, o respeito e a responsabilidade dos formandos para com a escola pública.
O contraste com a resistência às cotas não poderia ser maior. Quando a política foi questionada no Supremo Tribunal Federal, o verdugo era o então senador Demóstenes Torres; o ghostwriter, o colunista Demétrio Magnoli. A disputa foi tão feroz que a Folha abriu uma página para Magnoli acusar os repórteres responsáveis pela cobertura de agir como uma gangue a serviço do petismo. Ou seja, o jornal deu espaço para um ataque aos seus próprios jornalistas. Era mais um capítulo da grande batalha pela inclusão.
O fio condutor do trabalho de Lula foi humanizar minimamente um país atrasado: encontrar brechas na política para assegurar aos mais pobres condições elementares de uma vida digna.
Seu governo deixa a desejar pela falta de uma visão de futuro, de um projeto capaz de fazer o país dar um salto. Mas, quando se observa o papel de uma mídia disposta a viabilizar até um chefe de milícias para impedir sua vitória, também se compreende a dimensão das resistências que enfrentou. Lula avançou onde foi possível. E permanece, aos 80 anos, como um grande símbolo da democracia, uma bandeira capaz de reunir brasileiros de diferentes correntes contra a ultradireita miliciana.
Que consiga o quarto mandato. E que, empurrado pelas ruas, pela rapaziada que acordou para o Brasil, convoque as forças nacionais para desenhar e realizar o grande salto rumo ao futuro. E que o país comece a se preparar para receber o bastão da democracia e do desenvolvimento e caminhar pelas próprias pernas.
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Edson Monteiro
18 de outubro de 2026 3:34 pmPrezado Nassif!
Vc tem essa capacidade de indicar os pontos centrais dos méritos e dos deméritos de uma personalidade pública, de maneira imparcial e objetiva!
No presente caso, você foi muito feliz em suas conclusões!
Luiz
18 de outubro de 2026 4:01 pmMeu caro: insisto em deixar o meu quilombobl livre. Ouço os sons de rum-pi-lê forte, sonoros e firme. O Brasil ouvirá isto como nossa história prova. A gente vencerá sempre. O povo se levantará. Agora é a nessa vez.
emerson57
18 de outubro de 2026 6:34 pmOu o Brasil acaba com as “globo” ou as “globo” acabam com o Brasil.
Jose de Almeida Bispo
18 de outubro de 2026 8:40 pm“Lula avançou onde foi possível.”
Pode apostar que sim.
Trabalhar pelo engrandecimento de um país onde seus capitães “movem cruel guerra aos seus próprios navios, vendendo mastros… enxárcias, e só não vendem os cascos porque não existe quem os compre”, no dizer do Padre Antônio Vieira… é complicado!
O Brasil é um milagre.
Mesmo com um quarto mandato, certamente não alcançarei muito mais que isso, nesses meus vinte ou trinta anos de vida que me restam.
Mas devo festejar. Eu vi coisas boas e inacreditáveis acontecer ao país, que foge a qualquer lógica pensável. Sobre o que ainda verei? Isso ao acaso pertence.
Cidadão sem cidadania
18 de outubro de 2026 9:04 pmO real e extraordinário legado de lula ,50 milhões de pessoas no bolsa família ou seja seres humanos sem trabalho, porque ? Lula ajudou a desendustrializar o país, o legado do juros alto com o fim do artigo 192 , obra de lula , a entrega do pré sal , margem equatorial do pré sal , já foi doada por lula , entregou a mina de terra raras de Goiás e Bahia, fez a primeira reforma da previdência, a educação tá um lixo , o sus na periferia é um desastre, farmácia população aqui na periferia quase nunca tem remédio, aumentou a repressão deixando guarda agir como outra polícia, a população da periferia tem horror a isso ( sim foi o STF que fez mas lula autorizou ) muitas empresas foram embora pro Paraguai, os trabalhadores de alto estudos estão indo embora, os braçal está indo embora, o brasil não tem futuro, porque não nasce gente e esse dados e fundamental, sem empresa e trabalho na ninguém quem casar e ter filhos , somos uma colônia mineral e alimentar pro estrangeiro, lula vai perder não porque fez algo , mas sim porque também ajudou a desendustrializar o país e será culpa única de lula , democracia? Em 99 porcento do país existe a lei do cão, nas periferias nada mudou e vejo isso nos meus 60 anos , só andamos pra trás , o Brasil será o eterno pais do futuro, sem elite civil e militar e teremos o que sempre tivemos uma classe dominante civil e militar que vai deixar o país na miséria em benefício próprio.
Sílvia Conceição
18 de outubro de 2026 11:38 pmEsqueceu do BRICs , grande enfrentamento de Lula contra o imperialismo, como não fez um grande salto??????
Sílvia Conceição
18 de outubro de 2026 11:40 pmE o BRICs, não fez um grande salto para o futuro, como assim???
fca
19 de outubro de 2026 8:03 amPassou da hora de expor a conivência existente entre todos os setores do establishment e as falsas forças “anti-establishment”.
Pedro Rocha
19 de outubro de 2026 11:14 amOs pensadores brasileiros – independente do grau de sofisticação que possuem – entendem muito mal a relação entre a forma e a prática, a superfície e a qualidade do conteúdo. “O Lula defendeu bases democráticas” precárias e consideravelmente insatisfatórias, pois é justamente assim que é a democracia brasileira. O Lula e todo o movimento que o PT paulista lidera há vinte anos são em grande parte conservadores. Houve uma defesa da forma? ótimo, não houve entretanto sua qualificação. Qual a melhor Democracia do mundo? da Suíça? a finlandesa? Na brasileira bandidos são candidatos que se elegem e chefiam assembléias. Aqui deixamos dez famílias manipulando os sistemas de comunicação e informação, rádio e tevê. A outra parte deixamos nas mãos de firmas norte-americanas. E o que fez um presidente de “esquerda” diante dessa situação? Viaja y viaja, tenta resolver conflitos mundiais.
Jo lima
20 de outubro de 2026 1:45 pmNesse show provavelmente não havia entregador de i food, motorista de aplicativo, ; são eles que vão decidor a eleição porque o governo Lula não teve competência pra entendê-los. Nassif sempre descreve bem a bolha que uma parte do Brasil vive e que se surpreende com o Brasil de empregos precarizados e com dívidas impagáveis no sistema financeiro – obra de uma políticaveconômica gerida pelo perdedor Haddad e com a cereja do bolo posta por Galípolo. A Lula faltou a coragem de Getúlio dos anos 50, JK e Jango. Tentou até o fim servir a dois senhores – o sistema financeiro e a política social – e não deu certo. No mandato de 2002 a 2010 o fator que segurou seu governo foi a China comprando a preço de ouro nossas comoditties. Nesse Lula 3 não.houve essa sorte.
Jordan Fabrício Martins
20 de outubro de 2026 3:41 pmMuito ufanismo. Nassif deveria trabalhar com dados concretos (como sempre fez). Que tal uma análise do seguinte estudo?
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/10/ajuste-fiscal-requer-lideranca-politica-e-boa-tecnica.shtml