O futuro será a ausência do esquecimento e do passado, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Um algoritmo não funciona assim. A menos que o sistema seja corrompido por algum motivo, ele nunca pode esquecer algo que viu.

O futuro será a ausência do esquecimento e do passado

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Reconhecimento facial de crianças em escolas na Inglaterra:https://www.ft.com/content/af08fe55-39f3-4894-9b2f-4115732395b9
OK. Aqui vamos nós em uma viagem ao passado.

Quando eu estava no ginásio, na década de 1970, tudo isso era apenas ficção científica. Na escola estadual que frequentei, eu era o principal suspeito quando algo acontecia. E sim, quase sempre eu havia feito alguma coisa. Os inspetores, professores e o diretor reconheciam facilmente meu rosto na multidão de alunos.

– Fábio, venha aqui agora.

Gosto de pensar que meu primeiro papel como advogado foi defender meus direitos na escola. Um dia eu estava conversando na aula e a professora jogou o apagador em mim. Eu me esquivei do apagador, peguei-a do chão e BOOM… fiz com que ele batesse violentamente no quadro-negro ao lado do professora.

Horrorizada e tremendo de raiva, a professora saiu da sala. Minutos depois, uma inspetora estava me levando para a diretoria.

– Você jogou a borracha na professora, garoto? Responda agora. – perguntou o diretor.

– Sim eu joguei. Mas ela jogou o apagador em mim primeiro e eu quero saber se ela tem o direito de fazer isso. Porque se ela não tem, ela está errada. E se ela tem o direito de me agredir, eu também tenho o direito de revidar.

A diretora queria me punir severamente e foi forçada a desistir, pois também teria que punir a professora. Acabei de recebendo uma advertência. No problemo. Isso acontecia com frequência.

É assim que nossa memória funciona, suponho. Nós vemos algo inteiramente novo e até ameaçador que não pode afetar diretamente nossa vida adulta (como o reconhecimento facial de crianças nas escolas) e isso funciona como um estopim para despertar memórias antigas e conscientemente esquecidas.

Um algoritmo não funciona assim. A menos que o sistema seja corrompido por algum motivo, ele nunca pode esquecer algo que viu. Todas as memórias estão presentes em todos os momentos, possibilitando a perpetuação de um castigo através do reconhecimento imediato do autor da falta.

Eu fui um estudante terrivelmente inquieto e, confesso, muitas vezes provocador e briguento. Mas às vezes os professores, inspetores e o diretor se esqueciam de mim. E assim eu consegui terminar o ginásio e segui em frente. Hoje, em razão da popularização de novas tecnologias de reconhecimento facial e do seu uso nas escolas, isso não seria mais possível. Este é um problema sério, sem dúvida.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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