4 de junho de 2026

O menino de Monte Mor (A Lavagem cerebral de meu pai), por Armando Coelho Neto

Quem no Brasil não conhece gente que trocou postagens de gatinhos e flores por mensagens de ódio, preconceito?

O menino de Monte Mor (A Lavagem cerebral de meu pai)

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por Armando Rodrigues Coelho Neto

Aos 17 anos, ele estava usando símbolo nazista no braço, roupa preta, uma machadinha, coquetéis molotov (bomba caseira). Atirou a bomba contra uma escola em Monte Mor (SP). Em casa, teria material de ideologia de extrema direita, e segundo a mãe era depressivo, sofria ou sofreu bullying. Foi recolhido pela polícia, ganhou manchetes, teve o rosto ora exposto ora não e viveu sua “catarse”.

O extremismo de direita é fenômeno internacional. Fascismo, nazismo, neofascismo (sem precisão e sentido) são aqui tratados como simples referências ao avanço da extrema direita no mundo, e que chegou ao Brasil. Com acerto, a antropóloga Adriana Dias diz que células neonazistas cresceram 270,6% no Brasil entre janeiro de 2019 a maio de 2021. Teve 870% a mais de ataques de xenofobia em 2022.

Em apenas um ano e meio no cargo, o ex-capitão, hoje foragido, é responsável por mais brasileiros mortos do que toda a ditadura militar que ele glorifica como exemplo (1964-1988), diz o cientista político Daniel Flemes, na revista eletrônica Teoria e Debate, sobre o renascimento do fenômeno no Brasil. Para ele, nenhum governo democraticamente eleito foi tão explícito e tão longe quanto o ex-governo.

Quando Flames fez a afirmação, o país estava bem longe do 8 de janeiro último. Chegou, porque achou terreno fértil nas instituições, entre elas a militar – secular capitã do mato das “elites” corruptas (exceções silentes). Foi ela que deu suporte a quem só queria “Acabar com tudo isso que está aí”, matar pelo menos uns 30 mil, honrar a memória de Brilhante Ustra – torturador maior dos anos de chumbo.

A grande mídia fertilizou o descrédito na política, incensou gestores, negou voz às organizações populares, ignorou injustiças sociais, protagonizou terrorismo midiático contra Lula e o PT. Ao mesmo tempo, foi condescendente com a corrosão da democracia, fabricou falsos heróis no Poder Judiciário… Quem não lembra do Batman, “O menino pobre que salvou o Brasil”? Salvou mesmo?

Mesmo embriagado pelos holofotes, o Batman tinha resíduos morais. O mesmo não ocorreu com ex-juiz corrupto que fez política criminalizando a política, teve status de herói no reino do denuncismo, do jornalismo sem contraponto. Ao cair em descrédito na direita e na esquerda, cidadãos desavisados ficaram vulneráveis à engenharia do ódio nas redes, bem mais profissional na arte de mentir do que a velha mídia.

A grande mídia antecede as fake news do pseudojornalismo à diversão. Para destruir um só homem (Lula) antecipou a lavagem cerebral coletiva, abriu caminho por onde trilharia o neofascismo. Encontrou eco entre pastores evangélicos, empresários corruptos e uma horda de sem caráter fanáticos que em surto psicótico resvalou no crime de turba, cujo desfecho foi o 8 de janeiro. Eis o ódio que está nas ruas.

O livro “Os engenheiros do caos” (Giuliano da Empoli, 2019) trata do uso de algoritmos para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. Já o documentário “O Século do Ego” (Adam Curtis, 2002) parte de experiências antigas de manipulação. O documentário “Lavagem cerebral de meu pai” (The Brainwashing of My Dad, Jen Senko, EUA 2015) enfoca o mesmo fenômeno com tímido sinal de esperança.

De pacato cidadão democrata (cortês com negros e pobres), o pai de Senko, diretora da obra, é transformado num fanático de direita. Quem no Brasil não conhece gente que trocou postagens de gatinhos e flores por mensagens de ódio, preconceito? Cidadãos antes cordatos, gentis, de repente viraram cães raivosos prontos para atacar, diz a jornalista Cynara Menezes (blog Socialista Morena) sobre a obra.

A exemplo de milhares de incautos, o pai de Senko foi vítima de um crime social urdido durante o governo Richard Nixon para controle da mídia pelos republicanos. A regra de ouro de ouvir os dois lados foi quebrada e aos poucos líderes de projeção passaram a influenciar e ganhar adeptos em todos os setores da sociedade, de igreja a tribunais. Qualquer semelhança com o Brasil é uma proposital coincidência.

O caso do adolescente de Monte Mor (interior de São Paulo) é apenas uma ocorrência a mais no Brasil. Sob fantasma da insegurança e conflitos pós-adolescência, ainda que não necessariamente nazista ou fascista, jovens como ele são presas fáceis para o discurso simplista de extrema direita, no qual a solução é igualmente simples: basta destruir o oponente, abraçar o maniqueísmo…

O jovem infrator integra a lista de presas tão frágeis quanto aqueles que jogam o destino nas mãos de pastores. O infortúnio dos fiéis vem da falta de fé, do dízimo baixo, da exposição e ou condescendência com as maldades produzidas por comunistas a serviço de satanás. Portanto, “não olhem para cima”, só ouçam nossas fontes, “conheceis a verdade e ela vos libertará”. O senhor a tem, não é, ex-capitão?.

Para especialistas, a horda nazifascista, ainda que sem saber que o são, encontram sensação de pertencimento social, saem da angústia inerte estimulados à ação e à idolatria, no Brasil personificada no ex-capitão. Suas mensagens dúbias e enigmáticas simulam parábolas cristãs, têm o álibi com o qual enfrentaria tribunais no futuro, sob a insólita alegação: não foi bem isso que eu disse, entenderam mal.

No documentário, o pai de Senko tem final feliz. Vítima de uma crise renal, é internado e perde o contato com a rede do ódio. Passa a receber informação diferenciada e volta a ser a figura dócil de antes. Críticos tratam o trabalho como ingênuo e simplista, mas parece evidente que sem o corte do nocivo fluxo informativo e mais fiscalização nas redes sociais não há saída. Fica a dica.

Se fosse negro e miserável, o adolescente de Monte Mor teria por certo outro destino. Eis o detalhe que facilita o florescer do nazifascismo no Brasil e dificulta a reversão da lavagem cerebral de famílias país afora.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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3 Comentários
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  1. emerson57

    27 de fevereiro de 2023 9:53 am

    li e gostei.

  2. MAURA BEZERRA VILAR

    27 de fevereiro de 2023 10:46 am

    Que legal Armando.
    Vc como sempre se dedica a assuntos com conhecimento de causa, contextualiza e revela para seus leitores o quanto pesquisa e que o conhecimento liberta deixando-o muito a vontade para falar de qualquer assunto que envolve política etc
    Gostei e sempre com o gostinho de “quero mais”. Beijos 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 13

  3. Antonio Fernando Castanheira

    28 de fevereiro de 2023 6:51 am

    Perfeito.

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