O menino de Monte Mor (A Lavagem cerebral de meu pai)
por Armando Rodrigues Coelho Neto
Aos 17 anos, ele estava usando símbolo nazista no braço, roupa preta, uma machadinha, coquetéis molotov (bomba caseira). Atirou a bomba contra uma escola em Monte Mor (SP). Em casa, teria material de ideologia de extrema direita, e segundo a mãe era depressivo, sofria ou sofreu bullying. Foi recolhido pela polícia, ganhou manchetes, teve o rosto ora exposto ora não e viveu sua “catarse”.
O extremismo de direita é fenômeno internacional. Fascismo, nazismo, neofascismo (sem precisão e sentido) são aqui tratados como simples referências ao avanço da extrema direita no mundo, e que chegou ao Brasil. Com acerto, a antropóloga Adriana Dias diz que células neonazistas cresceram 270,6% no Brasil entre janeiro de 2019 a maio de 2021. Teve 870% a mais de ataques de xenofobia em 2022.
Em apenas um ano e meio no cargo, o ex-capitão, hoje foragido, é responsável por mais brasileiros mortos do que toda a ditadura militar que ele glorifica como exemplo (1964-1988), diz o cientista político Daniel Flemes, na revista eletrônica Teoria e Debate, sobre o renascimento do fenômeno no Brasil. Para ele, nenhum governo democraticamente eleito foi tão explícito e tão longe quanto o ex-governo.
Quando Flames fez a afirmação, o país estava bem longe do 8 de janeiro último. Chegou, porque achou terreno fértil nas instituições, entre elas a militar – secular capitã do mato das “elites” corruptas (exceções silentes). Foi ela que deu suporte a quem só queria “Acabar com tudo isso que está aí”, matar pelo menos uns 30 mil, honrar a memória de Brilhante Ustra – torturador maior dos anos de chumbo.
A grande mídia fertilizou o descrédito na política, incensou gestores, negou voz às organizações populares, ignorou injustiças sociais, protagonizou terrorismo midiático contra Lula e o PT. Ao mesmo tempo, foi condescendente com a corrosão da democracia, fabricou falsos heróis no Poder Judiciário… Quem não lembra do Batman, “O menino pobre que salvou o Brasil”? Salvou mesmo?
Mesmo embriagado pelos holofotes, o Batman tinha resíduos morais. O mesmo não ocorreu com ex-juiz corrupto que fez política criminalizando a política, teve status de herói no reino do denuncismo, do jornalismo sem contraponto. Ao cair em descrédito na direita e na esquerda, cidadãos desavisados ficaram vulneráveis à engenharia do ódio nas redes, bem mais profissional na arte de mentir do que a velha mídia.
A grande mídia antecede as fake news do pseudojornalismo à diversão. Para destruir um só homem (Lula) antecipou a lavagem cerebral coletiva, abriu caminho por onde trilharia o neofascismo. Encontrou eco entre pastores evangélicos, empresários corruptos e uma horda de sem caráter fanáticos que em surto psicótico resvalou no crime de turba, cujo desfecho foi o 8 de janeiro. Eis o ódio que está nas ruas.
O livro “Os engenheiros do caos” (Giuliano da Empoli, 2019) trata do uso de algoritmos para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. Já o documentário “O Século do Ego” (Adam Curtis, 2002) parte de experiências antigas de manipulação. O documentário “Lavagem cerebral de meu pai” (The Brainwashing of My Dad, Jen Senko, EUA 2015) enfoca o mesmo fenômeno com tímido sinal de esperança.
De pacato cidadão democrata (cortês com negros e pobres), o pai de Senko, diretora da obra, é transformado num fanático de direita. Quem no Brasil não conhece gente que trocou postagens de gatinhos e flores por mensagens de ódio, preconceito? Cidadãos antes cordatos, gentis, de repente viraram cães raivosos prontos para atacar, diz a jornalista Cynara Menezes (blog Socialista Morena) sobre a obra.
A exemplo de milhares de incautos, o pai de Senko foi vítima de um crime social urdido durante o governo Richard Nixon para controle da mídia pelos republicanos. A regra de ouro de ouvir os dois lados foi quebrada e aos poucos líderes de projeção passaram a influenciar e ganhar adeptos em todos os setores da sociedade, de igreja a tribunais. Qualquer semelhança com o Brasil é uma proposital coincidência.
O caso do adolescente de Monte Mor (interior de São Paulo) é apenas uma ocorrência a mais no Brasil. Sob fantasma da insegurança e conflitos pós-adolescência, ainda que não necessariamente nazista ou fascista, jovens como ele são presas fáceis para o discurso simplista de extrema direita, no qual a solução é igualmente simples: basta destruir o oponente, abraçar o maniqueísmo…
O jovem infrator integra a lista de presas tão frágeis quanto aqueles que jogam o destino nas mãos de pastores. O infortúnio dos fiéis vem da falta de fé, do dízimo baixo, da exposição e ou condescendência com as maldades produzidas por comunistas a serviço de satanás. Portanto, “não olhem para cima”, só ouçam nossas fontes, “conheceis a verdade e ela vos libertará”. O senhor a tem, não é, ex-capitão?.
Para especialistas, a horda nazifascista, ainda que sem saber que o são, encontram sensação de pertencimento social, saem da angústia inerte estimulados à ação e à idolatria, no Brasil personificada no ex-capitão. Suas mensagens dúbias e enigmáticas simulam parábolas cristãs, têm o álibi com o qual enfrentaria tribunais no futuro, sob a insólita alegação: não foi bem isso que eu disse, entenderam mal.
No documentário, o pai de Senko tem final feliz. Vítima de uma crise renal, é internado e perde o contato com a rede do ódio. Passa a receber informação diferenciada e volta a ser a figura dócil de antes. Críticos tratam o trabalho como ingênuo e simplista, mas parece evidente que sem o corte do nocivo fluxo informativo e mais fiscalização nas redes sociais não há saída. Fica a dica.
Se fosse negro e miserável, o adolescente de Monte Mor teria por certo outro destino. Eis o detalhe que facilita o florescer do nazifascismo no Brasil e dificulta a reversão da lavagem cerebral de famílias país afora.
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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emerson57
27 de fevereiro de 2023 9:53 amli e gostei.
MAURA BEZERRA VILAR
27 de fevereiro de 2023 10:46 amQue legal Armando.
Vc como sempre se dedica a assuntos com conhecimento de causa, contextualiza e revela para seus leitores o quanto pesquisa e que o conhecimento liberta deixando-o muito a vontade para falar de qualquer assunto que envolve política etc
Gostei e sempre com o gostinho de “quero mais”. Beijos 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 💋 13
Antonio Fernando Castanheira
28 de fevereiro de 2023 6:51 amPerfeito.