O mundo mudou, a posição do Brasil nele também
por Fábio de Oliveira Ribeiro*
Quatro notícias sacudiram o mundo nos últimos dias.
A primeira provocou um verdadeiro terremoto na arena diplomática. Refiro-me obviamente a normalização e eventual pacificação das relações entre a Arábia Saudita e o Irã, fato que abre caminho para uma pacificação duradoura no Oriente Médio. Essa foi uma grande vitória da diplomacia chinesa.
A segunda notícia sacudiu o mundo dos negócios. A moeda chinesa já é mais utilizada do que o dólar nas transações internacionais. O acentuado declínio da hegemonia norte-americana afetará de maneira negativa os especuladores que ganham dinheiro com as variações cambiais do dólar, reduzindo ainda mais a importância da moeda dos EUA.
A terceira notícia causou um estrecimento na União Europeia. Atento ao que está ocorrendo no mundo, Emmanuel Macron defendeu uma maior autonomia da Europa em relação aos EUA. O discurso dele colocou em cheque a estratégia de Berlim de se aproximar mais e mais de Washington após os norte-americanos terem explodido os gasodutos russos no Mar do Norte. A disputa pela hegemonia mundial entre EUA e China se reproduz na Europa. É evidente o abismo que existe entre a forma como o governo francês e o governo alemão encaram o futuro da UE.
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Na periferia do mundo, o Brasil tenta preservar o equilíbrio instável numa arena internacional cada vez mais volátil. Lula se recusou a vender armas para a Ucrânia, algo que foi encarado como uma traição ao ocidente pela imprensa paga para fazer propaganda favorável EUA e contrária aos interesses da China. Em Pequim, o presidente brasileiro celebrou vários acordos que aumentam a presença chinesa e reduzem a importância da presença norte-americana no Brasil. Mas isso não o impediu de aproximar nosso país da Europa, onde afirmou que a Rússia errou ao invadir a Ucrânia.
Tudo isso tem como pano de fundo a guerra da Ucrânia. Tudo indica que, apesar da ajuda fornecida pelos EUA e pela OTAN, o colapso econômico, político e militar do regime comandado por Volodymyr Zelensky parece ter se tornado inevitável. A imprensa oscila entre exigir o envio de tropas da OTAN e dos EUA para combater a Rússia (algo que poderia resultar em guerra nuclear) e defender o fim da guerra mediante a celebração de um acordo de paz possível.
A guerra na Ucrânia, entretanto, é apenas a irrupção de um conflito muito maior. De certa maneira, a verdadeira guerra acabou. A moeda chinesa já é mais utilizada em transações internacionais do que o dólar. A Ucrânia provavelmente aceitará um acordo com Pequim para interromper as hostilidades, já que em breve precisará comprar quase tudo em renminbi. Tchau, tchau EUA… nenhum líder desonesto pode permanecer fiel à impotência mundial derrotada. Isso explica tanto a mudança na política externa da Arábia Saudita quanto a aproximação entre o Reino das Dunas e o Irã.
Agora só resta uma dúvida. A Inglaterra levou duas décadas para perceber que não era mais a potência mundial dominante depois de vencer a Segunda Guerra Mundial e perder o império. Quantas décadas os EUA precisam para perceber que foram relegados a uma potência de segunda categoria com uma moeda fraca? Suponho que levará um século ou dois para que os americanos percebam que são um povo comum, porque, ao contrário dos britânicos (que são orgulhosos pragmatistas), os americanos vivem em uma cultura dominada pela exaltação mitológica da superioridade insuperável da América.
O Brasil emergiu desse conflito maior, mais confiante e muito mais importante do que foi durante os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Lula é cauteloso e pragmático. Ao se esforçar para construir uma terceira via baseada no predomínio dos “negócios como de costume” o presidente brasileiro rejeita a ideologia do conflito de civilizações que preconiza uma guerra aberta entre o Ocidente e o Oriente. Lulinha paz e amor 2.0 usa a inteligência emocional para suavizar o conflito entre russos e europeus e entre norte-americanos e chineses. O que é bom para o Brasil pode ser bom para o resto do mundo.
*Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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Antonio Uchoa Neto
29 de abril de 2023 11:12 amImpério Romano, 27 AC – 476 DC. Hegemonia britânica no mundo, meados do século XVII até 1948 (ironicamente, como disse Carlos Eduardo Novais, Hitler perdeu a guerra mas mandou o Império Britânico pro espaço…). 3º Reich, 12 anos…não deu nem pra saída. EUA: 1946 – 2023? 2024? E aí vem a China. Tem alguns bons exemplos do que NÃO deve ser feito. O problema é ter certeza em relação ao que DEVE ser feito. Cooperação ou Competição? Convívio Pacífico ou Hegemonia (que leva em linha reta ao conflito e à guerra)? A China ainda é um enigma, ou uma incógnita? Lula III é só um adventício, ou terá como lançar as bases duradouras de uma política de Estado? Uma nação sem autoctonia pode vingar como liderança construtiva, ou somente como predadora? O desejo de hegemonia é um vício de origem ou o resultado inevitável de circunstâncias internas e externas favoráveis? Destino Manifesto, Nova Fronteira, essas coisas farão algum sentido num futuro próximo? O mundo está mudando, e a posição do Brasil – um pequeno mas fértil planeta em órbita dessa mudança – também está mudando. Vamos buscar nossa História e nosso Destino, ou meramente nos colocar em outra órbita? À Era da Incerteza do Hobsbawn somemos mais alguns fatores de entropia. Acho que já não existe mais o Mundo, somente essa confusão quântica de entrechoques e desvios de rota. E de influência. Quando Albert Camus morreu, seu desafeto involuntário, Jean-Paul Sartre, em um sentido obituário, confessou que, durante muito tempo após o rompimento, com as guerras coloniais e tantas outras coisas em mente, costumava se perguntar, pela manhã: ‘O que estará achando Camus de tudo isso?” E desde que o dólar começou a viver seu declínio, eu me pergunto, todas as manhãs: ‘O que estarão achando os Bancos e as Grandes Corporações disso tudo?’