O predileto e o desgaste da Coroa
por Maria Luiza Falcão Silva
O caso Andrew e a crise de legitimidade das elites globais
Monarquia sob pressão silenciosa
A estabilidade das monarquias constitucionais repousa menos na tradição do que na percepção pública de integridade. O trono britânico atravessou guerras, transformações sociais e declínio imperial. Mas poucas situações recentes expuseram de forma tão clara sua vulnerabilidade simbólica quanto o envolvimento do Príncipe Andrew com Jeffrey Epstein.
Não se trata apenas de um episódio pessoal. Trata-se de um teste institucional.
Pesquisas recentes indicam que o apoio à monarquia no Reino Unido permanece majoritário, mas menos sólido do que no passado. Levantamento da Savanta, divulgado em fevereiro de 2026, mostra que cerca de 45% dos britânicos defendem explicitamente a manutenção da monarquia, enquanto um terço prefere um chefe de Estado eleito. Entre os jovens, o apoio cai ainda mais. Outros trackers, como os da YouGov ao longo de 2025, ainda apontam maioria favorável à instituição, mas com crescimento consistente das avaliações críticas.
Não há ruptura iminente. Há desgaste.
E desgaste, para uma instituição cuja autoridade depende quase exclusivamente de legitimidade simbólica, é um sinal relevante.
O dano simbólico e a reação da Coroa
Durante décadas, Andrew foi visto como um dos filhos mais próximos de Rainha Elizabeth II. Sua trajetória na Marinha Real e sua atuação como representante comercial do Reino Unido consolidaram sua presença pública. Essa proximidade, porém, tornou-se vulnerabilidade quando vieram à tona suas ligações com Epstein — figura que passou a simbolizar, globalmente, os excessos e as zonas opacas das elites transnacionais.
A resposta institucional foi pragmática: afastamento progressivo, perda de títulos honoríficos e retirada de funções públicas. A mensagem era inequívoca — a instituição precede o indivíduo.
Elizabeth II compreendia que monarquias contemporâneas sobrevivem por cálculo político refinado. Elas não são sustentadas por direito divino, mas por aceitação social. E essa aceitação depende de uma fronteira clara entre autoridade simbólica e comportamento pessoal.
Convém lembrar que, quando a rainha faleceu, em setembro de 2022, o desgaste já estava consolidado. O caso Epstein havia dominado o noticiário internacional desde 2019, a entrevista desastrosa de Andrew à BBC precipitou seu afastamento das funções públicas, e, ao longo de 2020 e 2021, a pressão jurídica e midiática apenas se intensificou. Em janeiro de 2022, ele perdeu títulos militares honorários e o uso público do tratamento de Alteza Real. Ou seja, a crise não emergiu com a transição de reinado — ela já havia sido administrada, com contenção calculada, pela própria Elizabeth.
O episódio deixou marcas. Não porque alterou a estrutura constitucional do Reino Unido, mas porque expôs a fragilidade do capital reputacional da Coroa em uma era de escrutínio permanente.
Elites sob desconfiança
O caso Andrew não pode ser isolado do contexto mais amplo. Ele se insere em um momento histórico de crescente desconfiança em relação às elites globais — políticas, financeiras e sociais. A globalização produziu redes densas de poder informal, onde prestígio, riqueza e influência circulam com fluidez. Durante décadas, essas redes operaram com baixa transparência e alta deferência pública.
Hoje, não mais.
Epstein tornou-se um símbolo dessa opacidade estrutural. O desconforto social não decorre apenas dos fatos jurídicos, mas da percepção de que existe um circuito fechado de privilégios que parece protegido de constrangimentos públicos. Quando um membro da família real aparece nesse circuito, o impacto é inevitavelmente amplificado.
Sob o reinado de Rei Charles III, a monarquia enfrenta uma sociedade menos indulgente do que aquela administrada por sua mãe durante sete décadas. O apoio popular continua significativo, mas tornou-se condicional.
E legitimidade condicional exige vigilância constante.
A autoridade no século XXI
O episódio envolvendo Andrew não anuncia o fim da monarquia britânica. Mas funciona como advertência.
Instituições baseadas em tradição sobrevivem quando conseguem traduzir continuidade em responsabilidade visível. No século XXI, autoridade simbólica não é herança garantida — é concessão social renovável.
A monarquia britânica já demonstrou extraordinária capacidade de adaptação ao longo dos séculos. O desafio atual não é sobreviver a um escândalo. É preservar confiança em um mundo onde a tolerância à opacidade das elites se tornou dramaticamente menor.
E talvez seja essa a verdadeira transformação em curso: o poder já não é apenas respeitado por sua história. Ele é examinado por sua conduta.
Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).
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