O que é ser de esquerda ou de direita?
por Fernando Nogueira da Costa
Pesquisa Datafolha deu “o que falar (ou pensar)”: 34% dos petistas se dizem de direita ou centro-direita, enquanto 14% dos bolsonaristas afirmam ser de esquerda ou de centro-esquerda. Segundo a pesquisa, 47% dos brasileiros se definem como de direita ou centro-direita, e outros 28%, como de esquerda ou centro-esquerda. Ao mesmo tempo, 40% declaram ser petistas e 34%, bolsonaristas.
Para cientistas políticos, o fenômeno pode ser explicado pela falta de clareza sobre os conceitos, pela influência do carisma pessoal de Lula e Jair Bolsonaro (PL) e pela polarização política, entre outros fatores. Desconfio de boa parte de quem caiu nessa contradição pensou: “sou uma pessoa direita…” – e tascou como sendo de direita!
A distinção entre “esquerda” e “direita” não designa apenas posições isoladas sobre políticas públicas, mas formas distintas de interpretar a sociedade, o poder, a economia e a mudança histórica. Trata-se de um mapa ideológico simplificado para orientar conflitos reais – e não de categorias fixas ou exaustivas de todas as possibilidades de auto posicionamento.
Em termos estruturais, posições de esquerda tendem a enxergar desigualdades como produzidas socialmente, e não como resultado natural de mérito individual. Valorizam a ação coletiva e o Estado como instrumentos de correção de assimetrias de classe, renda, poder e acesso a direitos. Defendem direitos sociais universais (saúde, educação, previdência, trabalho).
Além disso, são mais favoráveis à mudança institucional quando a ordem existente reproduz hierarquias injustas. Têm uma visão crítica do mercado como organizador exclusivo da vida social.
Em síntese, a esquerda parte da ideia de a liberdade individual depender de condições sociais mínimas garantidas coletivamente.
Posições de direita, em geral, tendem a tratar desigualdades como naturais ou inevitáveis, associadas a esforço, talento ou tradição. Valorizam o livre-mercado, a propriedade privada e a iniciativa individual como eixos centrais da organização social.
Quando alcançam o poder limitam o papel do Estado, visto como potencialmente ineficiente ou opressor. Defendem a ordem submissa, seja aos militares formados na doutrina da Guerra Fria, seja ao Império americano, estabilidade e continuidade institucional, desconfiando de mudanças rápidas, inclusive as culturais e na pauta de costumes. Atribuem grande peso à responsabilidade individual.
Em síntese, a direita tende a conceber a liberdade como proteção do indivíduo contra interferências externas, sobretudo do Estado.
Porém, o dualismo ideológico não é absoluto. Esse eixo é analítico e histórico, não ontológico, isto é, uma investigação teórica do ser. Simplifica realidades complexas. Muda de conteúdo ao longo do tempo e entre países.
Não esgota outras dimensões relevantes: autoritarismo ou liberalismo político, nacionalismo ou globalismo, conservadorismo cultural etc. Por isso, duas pessoas “de esquerda” podem discordar profundamente entre si — assim como vale duas de direita.
Nesse binarismo ideológico é possível combinar ambas as definições e se caracterizar como de centro? Quanto ao “centro” ou “neutro em cima do muro”, há três sentidos distintos para o designar, muitas vezes confundidos.
O primeiro é o centro como síntese reflexiva. É possível combinar diagnóstico estrutural da desigualdade (típico da esquerda) com prudência institucional, pluralismo e limites à ação estatal (típicos de neoliberais). Esse “centro” não é neutralidade, mas posição deliberada de mediação entre eficiência, justiça social e estabilidade.
O segundo é o centro como pragmatismo contextual. Neste caso, o centro não é um conjunto fixo de valores, mas uma estratégia adaptativa de adotar a liberdade do mercado onde (setorialmente) ele funciona e o Estado onde o livre mercado falha.
As políticas devem ser calibradas conforme contexto histórico e institucional. É comum em social-democracias e em tradições desenvolvimentistas.
O terceiro sentido é o centro como indefinição ou acomodação. Há também o “centro” entendido como posicionamento para evitar conflitos distributivos e conciliar interesses dominantes sem questionar estruturas. Nesse caso, o centro tende a reproduzir a ordem existente, funcionando mais como técnica de gestão do status quo em lugar de ser como posição ideológica autônoma.
Até mesmo combinar esquerda e direita é coerente caso haja um eixo normativo claro. O problema não é combinar instrumentos, mas misturar princípios incompatíveis, por exemplo, defender igualdade de oportunidades sem enfrentar desigualdades estruturais e exaltar o mercado como árbitro neutro ignorando relações de poder. Defender direitos sociais universais sem base fiscal ou institucional realista.
Em outros termos, o “centro” só é intelectualmente consistente quando não é um álibi para evitar escolhas distributivas.
Enfim, esquerda e direita expressam conflitos reais sobre poder, riqueza e mudança social. O centro pode existir como síntese crítica, pragmatismo informado ou acomodação conservadora — e estas são coisas diferentes.
Mais importante em lugar do rótulo é responder: quem ganha, quem perde, quem decide e quem paga em cada proposta. É quando a posição ideológica se revela, independentemente do nome dado a ela.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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Gaspar Alencar
29 de dezembro de 2025 4:45 pmDesde Arena e MDB, a nação vivia uma polarização. Naquele tempo era outra coisa. Depois de um período ditatorial se construir uma democracia sem sangue, suor e lágrimas me refiro a uma guerra armada. A nossa formação política ficou opaco. Exemplos, meu pai me levava para os comícios em Floriano, mas minha era a socialista da casa. Todos os meus irmãos são de direita ou de extrema direita. Só sobrou eu da família mais socialista. Não sou petista, muito menos lulista. Deixo o meu sufrágio no Lula, por ser menos pior dq o centrao e extremo direita. Ouvindo Pedro Stebile no BF, não foi feito de real pelo povo sem direito a terra. O que percebo um baixo nível político em todos os segmentos sociais e modificou. Ao meu ver salva a imprensa. Com excelentes abordagens e com elevado nível intelectual. Entretanto, na prática a teoria é outra. A questão do poder e da autoridade é muito questionável existem inúmeros benesses que nós até desconhecemos. São outros quinhentos com diz Outras Palavras!
Didico
30 de dezembro de 2025 12:07 amPosso dar um pitaco? Aí vai.
Na política, o núcleo (core) é o dinheiro, resultado da arrecadação dos impostos, basicamente. Em seguida, para onde ele vai preferencialmente, se vai para as elites ou para o povão.
O fato de um determinado governo, partido ou políticos serem de direita ou de esquerda é resultado das forças de poder, se horizontais ou verticais.
Vamos analisar, primeiramente, as forças de poder verticais. Estas representam uma hierarquia vertical, óbvio, mas o que isto significa? Cada objeto de poder é estruturado verticalmente, ou seja, existem poucos membros no mesmo nível. Quando um nível qualquer precisa de um novo integrante, ele vai buscar no nível logo abaixo, que tem poucos integrantes. O que acontece, então? Esses poucos integrantes do nível logo abaixo digladiam-se entre si para ascenderem ao nível logo acima. O mais fdp vai ser indicado para subir. Os demais, 2 ou 3 perdedores, vão pensar, “não fui tão fdp quanto o que ganhou, deveria eu ter sido”. E assim, dissemina-se a estratégia do cada um por si e foda-se o resto. O tal do individualismo exacerbado. Podemos verificar quanto isso é verdade vendo como se comportam os partidos, os políticos e as pessoas de direita. Não existe sentimento de fraternidade e de coletividade entre eles, a não ser quando estão em disputa contra a um inimigo, a esquerda, por exemplo.
Agora vamos descrever as relações de poder horizontais. Antes, é preciso esclarecer, nenhuma das 2 é totalmente vertical ou totalmente horizontal, estamos falando assim por uma questão de didática para ser compreendida. Nas relações de poder horizontais, os níveis hierárquicos são menos numerosos e possuem maior quantidade de integrantes. Então, para ascender a um patamar acima, os candidatos não podem exercer a tática dos fdp porque estes serão denunciados pelos demais. A probabilidade de ser escolhido alguém mais favorável aos interesses da maioria é francamente mais elevada do que nas relações verticais. Pode existir eleição, não que esse processo seja uma garantia democrática, mas certamente acarretará um maior debate entre os possíveis candidatos. Esse esquema vigorava mais frequentemente na esquerda, em especial no PT, nos primórdios do processo de abertura política da década de 80, quando existiam várias tendências dentro do partido e as decisões eram tomadas a partir de assembleias supostamente democráticas.
Essa é uma concepção estrutural da diferença entre esquerda e direita. Aprendi, não lembro onde, que um governo de direita é um governo das elites, da oligarquia, aristocracia, de uma casta pequena em relação ao tamanho da sociedade. Ou seja, é um governo de poucos que governam para poucos segundo seus próprios interesses. Mas falam o contrário.
Por outro lado, um governo de esquerda é um governo das classes laboriosas, dos que trabalham, que não tem capital suficiente para viver de renda deste pequeno capital e para tanto necessitam vender seu tempo, energia e inteligência/conhecimento para receberem (salário) o necessário para viver. Um governo de esquerda é mantido pelas forças majoritárias da sociedade supostamente em benefício dos interesses da maioria da população que é logicamente assalariada ou de pequenos comerciantes e autônomos.
Nesse contexto, um desvio de dinheiro público para fins pessoais (corrupção) nas relações horizontais, pode ser detectada pelos demais integrantes do mesmo nível, já que ele é mais numeroso, e que não se beneficiam do desvio, acrescentando que seria muito dispendioso corromper todos os demais. Já nas relações verticais, o esquema de desvio já está estabelecido e integrado à estrutura de poder por ser muito mais enxuta e distante dos níveis hierárquicos inferiores.
Convém relembrar que não existem relações de poder exclusivamente horizontais ou verticais. Existem relações mais horizontais e menos verticais (esquerda) ou mais verticais e menos horizontais (direita).
Zezeca Brasil
30 de dezembro de 2025 10:15 amO que se chama de “centro” é só uma linha imaginária, uma referência, similar a linha do equador. Ou se está no hemisfério norte ou no hemisfério sul. Ninguém vive em cima dessa linha divisória. Tem momentos críticos na história, em que a polarização que realmente importa – civilização ou barbárie – exige posicionamentos claros. A chamada direita”, por exemplo, em sua grande maioria se alinha ao fascismo quando se vê ameaçada. Mises dizia que o fascismo, mesmo sendo indesejado, salvou a europa do socialismo. Depois tentou se remendar, já que não havia como justificar o holocausto. Mas se calou sobre o trabalho escravo que enriqueceu os industriais alemães.
Esse centro abstrato (“como síntese crítica, pragmatismo informado ou acomodação conservadora”) só é possível de existir concretamente em determinados contextos históricos. As forças da barbárie nunca descansam.