O risco Lula, por Érico Andrade

Sugestão de Antonio Nelson

O risco Lula

por Érico Andrade

Desafiar o poder da elite com uma aliança com a própria elite foi ao mesmo tempo a grande virtude do governo Lula, que adotou, de forma quase incondicionada, a chamada Realpolitik, mas também foi o seu grande calcanhar de Aquiles. O preço dessa manobra política, bem sucedida quanto aos frutos que trouxe para as camadas menos privilegiadas, não foi pago diretamente por Lula; pelo menos num primeiro momento. A conta foi cobrada no governo Dilma. Não sem motivos.

A tentativa de Dilma de negligenciar o congresso em nome de um discurso técnico, que soava, por um lado, como sinfonia para os ouvidos da grande mídia (inicialmente mais adepta a Dilma do que a Lula) e, por outro, como falta de tato político para os congressistas, não foi a melhor estratégia de se opor à Realpolitik do seu antecessor e garantir seu lugar próprio no céu de Brasília. Notadamente, sem qualquer possibilidade de alicerçar um governo numa plataforma técnica, estritamente técnica, o governo Dilma continuou a política da troca de benefícios, mas sem se assumir como tal. Ao cabo e ao fim, o governo Dilma não era nem técnico, nem político. Não tinha clareza. A própria fala de Dilma, aliás, simetrizava essa falta de rumo. Golpe à vista.

A tentativa desesperada de Dilma de convocar Lula para o seu governo, para ser Chefe da Casa Civil, certamente tinha como intuito imunizar Lula diante dos avanços da Lava Jato, mas não pode de modo nenhum obliterar o fato de que fora a última cartada para salvar o seu próprio governo moribundo; acenando menos para o PAC e mais para a política intestinal e fisiológica que move Brasília e que Lula conhece como ninguém. Oferecer mundos e fundos aos congressistas nos últimos suspiros do governo foi visto pelo congresso como uma tentativa de um náufrago que se apoia sobre uma precária madeira, mas que está a milhas e milhas de distância de um lugar seguro. Dilma, sabemos, naufragou.

Esse foi o golpe mais duro para a onipresença de Lula. Sim, quem naufragou foi o governo Dilma, mas com ele a imagem do PT se deteriorava. Como a imagem do PT se confunde com a de Lula, Lula também se deteriorava. Com isso fica claro, que os movimentos para tirar Dilma eram, desde seu início, para não permitir Lula se eleger. Conseguiram tirar Dilma, mas apesar da mídia, grande mídia, insistir que o PT construiu o maior esquema de corrupção da história e reputar ao PT todos os problemas do Brasil, Lula não perdeu a sua força política. As críticas estampadas nos noticiários foram o seu combustível. Ele ainda é uma ameaça à direita.

Nessa perspectiva, o discurso de que as pessoas batiam panela por falta de consciência ou informação – endossado recentemente pela própria Dilma – é completamente míope. Os paneleiros e paneleiras faziam política. Política rasteira. A política que é leniente com a grave corrupção não apenas do governo Temer, mas do próprio Temer, para lançar luz sobre a corrupção do PT, a corrupção, ainda hoje pautada em “convicções” e não em provas, do seu grande adversário: Lula. A corrupção desenfreada do governo Temer em termos políticos significa pouca coisa em face do uso político da corrupção para atacar o PT.

A política foi cooptada pelo discurso moralista. Essa foi estratégia adotada no Brasil em outros momentos. A moralidade na política, historicamente, tem nome: nacionalismo. Como no início do século XX o Brasil viu novamente o discurso da pátria, naquela ocasião eram os camisas verdes, integralistas, assumir o protagonismo na política com a camisa da seleção brasileira. Mesmo debelando a pobreza extrema e alterando drasticamente o mapa da fome no Brasil, com programas reconhecidos mundialmente, o PT foi associado à imagem mais depurada da corrupção não apenas financeira, o que por si só é uma visão unilateral, mas também da corrupção dos valores. Novamente moral e política se cruzavam e na voz estridente dos paneleiros e paneleiras faziam eco para a varrer a única possiblidade do PT voltar ao poder: Lula.

Desde o governo Dilma, o alvo era eliminar a candidatura de Lula. A direita tinha consciência da força política de Lula. Desqualificar preconceituosamente seus mais fiéis eleitores, beneficiados indiscutivelmente pelo governo do PT, os nordestinos e, por outro lado, detonar intelectuais (as universidades federais são testemunho também da importância do governo Lula) foram e ainda são algumas das tantas estratégias adotadas para enfraquecer a candidatura de Lula. Contudo, nem mesmo com a Lava jato a tira colo, Lula perde a sua força; pelo menos por completo. Por essas razões ele é o candidato, único no campo das esquerdas, com forte chance de ganhar a eleição. Embora forte, a candidatura de Lula traz um risco.

A divisão no seio da direita, o racha no PSDB, não traz votos para Lula. No terreno da direita fragilizada, incapaz de enfrentar Lula nas urnas, se encontra o vácuo político para que o discurso moralista, nacionalista e não menos político consiga o seu abrigo. É nessa perspectiva, que as manifestações a favor do golpe quando também incidiam contra a figura de Lula de contrabando acenavam para a eleição de Bolsonaro, visto que ele assume a bandeira dos costumes e do nacionalismo. As manifestações não foram apenas anti-PT, mas criavam também o candidado anti-PT e, claro, anti-Lula.

É com essa força que a candidatura de Bolsonaro pode chegar ao segundo turno. Um nacionalista amolecido pela agenda econômica liberal, para a alegria do mercado financeiro, e fortalecido pela rejeição ao PT. É assim que se projeta Bolsonaro na forma mais aguda do que poderíamos chamar, talvez, neofascismo ou da volta do discurso integralista à arena política. Amparado numa rejeição tão grande a Lula, Bolsonaro tem chance de capitalizar, no segundo turno, praticamente todos os votos daqueles que para tirar o PT assumiram sem constrangimento o discurso hipócrita da anticorrupção e são placidamente capazes de votar num candidato, seja quem for, suficientemente forte para tirar Lula do poder. Se a esquerda poderia ser capaz de votar, a contragosto, num candidato de centro-direita para evitar a eleição de Bolsonaro, a direita, mesmo a direita esclarecida, cada vez mais rara, já provou ser capaz de coisa pior quando assumiu o discurso seletivo da anticorruopção. Por isso, o risco de Lula ir ao segundo turno com Bolsonaro e perder a eleição não é desprezível. Na política, lembremos, nenhum risco deve ser sonegado, sobretudo quando se trata do ovo da serpente.

Érico Andrade – [email protected] – Filósofo e professor de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco / Sócio do Círculo Psicanalítico de Pernambuco / Crítico de cinema

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