13 de junho de 2026

Obrigado por quê?, por João Marcos Buch

Num mar de miséria, o que poderia ensejar um agradecimento? E logo ao juiz da execução penal, que legitimava toda aquela desgraça?

Obrigado por quê?

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por João Marcos Buch

O rapaz entrou na sala, seguido da escolta. Não devia ter mais de 25 anos. Trajava o uniforme amarelo de preso e chinelos de dedo.

— Boa tarde! Sente-se — disse o juiz, apontando a cadeira em frente.

O rapaz sentou-se.

— Pode tirar as algemas dele — determinou o juiz, olhando para o guarda.

Tratava-se de mais uma audiência que o juiz fazia presencialmente. Logo as demais partes entraram via online na sala.

O juiz explicou ao rapaz o motivo do ato, uma indisciplina que precisava ser julgada, se seria ou não considerada falta grave, com as consequências respectivas e logo passou a palavra ao Ministério Público e depois à Defensoria Pública, para as perguntas.

A audiência foi rápida, não durando 15 minutos. Encerrada, o juiz se despediu de todos e fechou o vídeo. Entretanto, o rapaz não se levantou, permanecendo sentado, esfregando uma mão na outra sobre os joelhos.

O juiz perguntou se ele desejava dizer algo mais.

— Sim, doutor, eu preciso contar para o senhor tudo que aconteceu comigo.

— Pois pode falar, esse é o momento.

O rapaz, com a voz embargada, começou.

— Doutor, o senhor precisa saber quem sou, eu nunca fiz o que dizem que fiz, eu nunca trafiquei, nunca roubei, eu tenho mulher, filha, eu trabalho direito. E agora estou aí, preso! Ficarei mais de 10 anos na cadeia, mas não é justo, eu não sou culpado. Foi tudo um erro, eu queria me defender, mas não me ouviram — e seguiu, contando detalhe por detalhe de sua vida e sua prisão, alternando períodos mais exaltados com outros mais calmos.

Terminado o relato, o juiz olhou firme para o rapaz.

— Olha só, entendo que você queira me contar sobre isso tudo, mas, preciso ser sincero com você, eu não tenho o que fazer, posso apenas executar a pena. Você foi julgado por outro juiz e a condenação veio para mim.

— Mas, doutor, o senhor tem que me ajudar, eu não sei mais o que será de mim, de minha família… — o rapaz começou a chorar.

— Acalme-se. Estou lhe ouvindo e entendo seu sofrimento, sua angústia. Você deve olhar-me e pensar: “ele é juiz, ele poderá fazer algo”, mas não posso, lamento.

O rapaz estava inconsolado. O juiz continuou.

— Você pode buscar o auxílio da Defensoria Pública. Lá eles vão lhe ajudar.

O rapaz levantou a cabeça.

— Mas eles poderão mesmo fazer algo?

— Sim, podem ao menos tentar. Peça para um familiar seu ir lá, o endereço é fácil de achar pela internet. A Defensoria Pública é o local onde você será assistido, em tudo.

— Farei isso, então.

— Sim, faça. Agora, acalme-se — o juiz acenou para o guarda. — Preciso seguir com as audiências, está bem?

— Está, doutor — o rapaz se levantou e estendeu as mãos para as algemas serem recolocadas.

Já na porta, antes de sair, ele parou e se voltou para o juiz.

— Doutor, obrigado por tudo que o senhor faz por nós!

No caminho de volta ao Fórum, o juiz pensava no jovem, com mais de uma década de cadeia pela frente, vivendo em uma cela superlotada, sem oferta de trabalho, sem estudo, tendo uma família que dele necessitava; um jovem que pediu sua ajuda e nada obteve e que, mesmo assim, na saída, voltou-se e agradeceu por tudo que ele, o juiz da execução penal, fazia pelos presos!

Mas que tudo? Num mar de miséria, o que poderia ensejar um agradecimento? E logo ao juiz da execução penal, que legitimava toda aquela desgraça? Em que mundo tão cruel vivia aquele moço, a ponto de agradecer por não sei o quê?

Sem respostas, o juiz seguiu, com sua própria dor, rumo àquele local chamado Justiça.

João Marcos BuchJuiz de Direito da Vara de Execução Penal de Joinville/SC e membro da AJD

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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4 Comentários
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  1. Angelita Ullrisch

    19 de fevereiro de 2022 10:46 am

    O que esse Juiz talvez não saiba é que no mar de tanta dor , tanta invisibilidade , tantos pre julgamentos. Um ouvir, uma verdade, mesmo que não seja a esperada é muito. Sim a gratidão é por este juiz tratar pessoas como pessoas, com humanidade, apesar do que tenham feito, independente do dizem.

  2. Yane cirlene Correia de Lima

    19 de fevereiro de 2022 1:11 pm

    Nem comento apenas exalto pelo ser humano ímpar que vossa excelência é

  3. Lawynia

    20 de fevereiro de 2022 12:49 am

    Gratidão, Dr. João Marcos 😢

  4. Sandro de Castro

    20 de fevereiro de 2022 11:55 am

    E claro que esse juiz só poderia ter sido o Dr João… Praticamente o único em sua classe profissional com tamanha humano para ouviu um preso.

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