Obrigado por quê?
por João Marcos Buch
O rapaz entrou na sala, seguido da escolta. Não devia ter mais de 25 anos. Trajava o uniforme amarelo de preso e chinelos de dedo.
— Boa tarde! Sente-se — disse o juiz, apontando a cadeira em frente.
O rapaz sentou-se.
— Pode tirar as algemas dele — determinou o juiz, olhando para o guarda.
Tratava-se de mais uma audiência que o juiz fazia presencialmente. Logo as demais partes entraram via online na sala.
O juiz explicou ao rapaz o motivo do ato, uma indisciplina que precisava ser julgada, se seria ou não considerada falta grave, com as consequências respectivas e logo passou a palavra ao Ministério Público e depois à Defensoria Pública, para as perguntas.
A audiência foi rápida, não durando 15 minutos. Encerrada, o juiz se despediu de todos e fechou o vídeo. Entretanto, o rapaz não se levantou, permanecendo sentado, esfregando uma mão na outra sobre os joelhos.
O juiz perguntou se ele desejava dizer algo mais.
— Sim, doutor, eu preciso contar para o senhor tudo que aconteceu comigo.
— Pois pode falar, esse é o momento.
O rapaz, com a voz embargada, começou.
— Doutor, o senhor precisa saber quem sou, eu nunca fiz o que dizem que fiz, eu nunca trafiquei, nunca roubei, eu tenho mulher, filha, eu trabalho direito. E agora estou aí, preso! Ficarei mais de 10 anos na cadeia, mas não é justo, eu não sou culpado. Foi tudo um erro, eu queria me defender, mas não me ouviram — e seguiu, contando detalhe por detalhe de sua vida e sua prisão, alternando períodos mais exaltados com outros mais calmos.
Terminado o relato, o juiz olhou firme para o rapaz.
— Olha só, entendo que você queira me contar sobre isso tudo, mas, preciso ser sincero com você, eu não tenho o que fazer, posso apenas executar a pena. Você foi julgado por outro juiz e a condenação veio para mim.
— Mas, doutor, o senhor tem que me ajudar, eu não sei mais o que será de mim, de minha família… — o rapaz começou a chorar.
— Acalme-se. Estou lhe ouvindo e entendo seu sofrimento, sua angústia. Você deve olhar-me e pensar: “ele é juiz, ele poderá fazer algo”, mas não posso, lamento.
O rapaz estava inconsolado. O juiz continuou.
— Você pode buscar o auxílio da Defensoria Pública. Lá eles vão lhe ajudar.
O rapaz levantou a cabeça.
— Mas eles poderão mesmo fazer algo?
— Sim, podem ao menos tentar. Peça para um familiar seu ir lá, o endereço é fácil de achar pela internet. A Defensoria Pública é o local onde você será assistido, em tudo.
— Farei isso, então.
— Sim, faça. Agora, acalme-se — o juiz acenou para o guarda. — Preciso seguir com as audiências, está bem?
— Está, doutor — o rapaz se levantou e estendeu as mãos para as algemas serem recolocadas.
Já na porta, antes de sair, ele parou e se voltou para o juiz.
— Doutor, obrigado por tudo que o senhor faz por nós!
No caminho de volta ao Fórum, o juiz pensava no jovem, com mais de uma década de cadeia pela frente, vivendo em uma cela superlotada, sem oferta de trabalho, sem estudo, tendo uma família que dele necessitava; um jovem que pediu sua ajuda e nada obteve e que, mesmo assim, na saída, voltou-se e agradeceu por tudo que ele, o juiz da execução penal, fazia pelos presos!
Mas que tudo? Num mar de miséria, o que poderia ensejar um agradecimento? E logo ao juiz da execução penal, que legitimava toda aquela desgraça? Em que mundo tão cruel vivia aquele moço, a ponto de agradecer por não sei o quê?
Sem respostas, o juiz seguiu, com sua própria dor, rumo àquele local chamado Justiça.
João Marcos Buch – Juiz de Direito da Vara de Execução Penal de Joinville/SC e membro da AJD
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN
Angelita Ullrisch
19 de fevereiro de 2022 10:46 amO que esse Juiz talvez não saiba é que no mar de tanta dor , tanta invisibilidade , tantos pre julgamentos. Um ouvir, uma verdade, mesmo que não seja a esperada é muito. Sim a gratidão é por este juiz tratar pessoas como pessoas, com humanidade, apesar do que tenham feito, independente do dizem.
Yane cirlene Correia de Lima
19 de fevereiro de 2022 1:11 pmNem comento apenas exalto pelo ser humano ímpar que vossa excelência é
Lawynia
20 de fevereiro de 2022 12:49 amGratidão, Dr. João Marcos 😢
Sandro de Castro
20 de fevereiro de 2022 11:55 amE claro que esse juiz só poderia ter sido o Dr João… Praticamente o único em sua classe profissional com tamanha humano para ouviu um preso.