Os desejos do desejo autoritário
por Eliseu Raphael Venturi
O desejo autoritário não é apenas o desejo de mando — é, sobretudo, um desejo em cadeia, uma constelação de fantasias que se articulam na tentativa de evitar a angústia constitutiva da existência.
O desejo autoritário não é simples, nem brutal por natureza; é sofisticado, encoberto, enovelado, envernizado de valores nobres, de boas intenções, de promessas civilizatórias, até mesmo de boa-fé. Sua força está precisamente em parecer solução para um mal-estar que ele mesmo perpetua.
Para que haja desejo autoritário, é preciso que o sujeito deseje ser governado — e que deseje isso a partir de si, não por imposição externa. Esse é o ponto mais inquietante: não somos vítimas passivas do autoritarismo; muitas vezes, somos seus cúmplices desejantes.

Esse desejo de ser governado assume múltiplas formas. A primeira, talvez a mais estruturante, é o desejo de submissão. Não se trata apenas de obedecer, mas de desejar que o Outro deseje por nós. Que diga o que fazer, que decida o certo e o errado, que sustente a ficção de que há alguém em condições de assumir a responsabilidade pela vida. Esse desejo, frequentemente recoberto com palavras como “respeito”, “tradição” ou “disciplina”, é uma forma de delegar o próprio desejo — um alívio tão confortável quanto ético e politicamente devastador.
A outra face desse desejo autoritário é justamente o desejo de governar o outro — e ele também não é simples. Enquanto o desejo de ser governado revela o conforto na heteronomia, o desejo de governar expõe o gozo na captura do outro como objeto. Ambos se alimentam mutuamente: o desejo de comandar exige um outro que deseje ser comandado, e vice-versa. No fundo, trata-se de uma estrutura de relação onde o poder não é apenas instrumento, mas forma de laço.
Desejar governar o outro é, muitas vezes, desejar ordenar o mundo, suprimir a alteridade, estabilizar a angústia do imprevisível que o outro encarna. Nesse sentido, o autoritário não busca apenas impor uma ordem, mas se proteger da inquietação que o outro representa — o outro que deseja, que escapa, que resiste.
Assim, o desejo de governar o outro é uma tentativa de capturar o desejo do outro, de fazê-lo coincidir com o próprio — o que Lacan talvez visse como a impossibilidade da relação sexual: não há completude entre os desejos, e toda tentativa de sutura tende ao sintoma, à violência ou ao delírio da dominação.

A pergunta inquietante, então, talvez seja: quando desejo governar alguém, o que em mim está sendo evitado? Que desamparo estou tentando calar?
Dessa posição fundamental de governamentalidade nasce o desejo de pureza: vontade de eliminar o ambíguo, o impuro, o desorganizador. É o desejo de um mundo sem restos, sem ruídos, sem exceções. A pureza é sempre uma violência travestida de ordem — moralismo, higienismo, normatização dos corpos, das falas, das expressões. O desejo autoritário quer um mundo previsível, sem sombra, onde tudo se encaixe. E quando algo escapa, ele não escuta: elimina.
Para manter esse universo homogêneo, o desejo autoritário sustenta também o desejo de identidade fixa: uma ânsia por saber quem se é e quem é o outro, sem ambivalências, sem misturas, sem desvios. Trata-se de um desejo que fantasia a existência de essências — culturais, sexuais, nacionais — como forma de conter o abismo do indeterminado. O autoritarismo, aqui, é ontológico: pretende nomear o ser com estabilidade, reprimir o devir, interditar a transformação.
Quando a diferença aparece, o que surge é o desejo de silenciamento. Não é necessário gritar, censurar ou prender. Basta a retórica sutil de quem pede “menos lacração”, “menos complexidade”, “menos ruído”. O desejo de que o outro não incomode, que a diferença se contenha, que a alteridade se torne discreta, domesticável. Esse desejo é, antes de tudo, uma recusa da escuta.
Mas o autoritarismo não é só silêncio: ele também grita. E grita tudo. O desejo de visibilidade total transforma a transparência em fetiche. Tudo deve ser dito, mostrado, revelado — não para emancipar, mas para controlar. É o gozo da vigilância disfarçado de accountability, o prazer de expor simulado de ética. A compulsão por registro e exposição é uma forma perversa de regular a vida.
Por trás de tudo isso, opera o desejo de coerência absoluta — um pavor da divisão subjetiva, uma negação da contradição. O sujeito autoritário não suporta não ser um, não ser inteiro, não ser coerente. E projeta esse ideal sobre os outros, cancelando os que falham, perseguindo os que não sustentam uma linha única. Esse desejo sustenta tanto os algozes quanto os que se autoflagelam em nome da autoaperfeiçoamento sem fim.

Em paralelo, atua o desejo de espetáculo moral. Não basta ser bom: é preciso parecer bom, e ser reconhecido por isso. Aqui, mesmo o progressismo pode virar performance autoritária. Quando a virtude se transforma em espetáculo, o gesto perde sua dimensão ética e se torna cena. O sujeito não age porque é necessário, mas porque quer ser visto — como justo, como correto, como moralmente valioso.
E se o outro falha, entra em cena o desejo de punição. O desejo autoritário não apenas quer justiça — ele quer gozar com a punição. Quer ver o outro humilhado, exposto, excluído. A justiça, nesse caso, torna-se instrumento de gozo, e a ética se perde no prazer de destruir o outro em nome do bem.
Esse circuito se fecha com dois desejos estruturais: o desejo de antecipação total e o desejo de imunidade. O primeiro busca eliminar o acaso, prever tudo, impedir o imprevisto. Ele se alimenta de algoritmos, de métricas, de meritocracias: tudo precisa ser gerido, planificado, controlado. O segundo deseja isolar-se — proteger-se da diferença, do risco, da contaminação simbólica. Fecha-se em bolhas, zonas seguras, discursos purificados.
O desejo autoritário, portanto, não é apenas uma escolha ideológica. É uma forma de estruturação do desejo diante do mal-estar. E, como tal, exige muito mais do que denúncia ou pedagogia. Exige escuta. Exige travessias. Exige que cada sujeito se pergunte em que medida deseja governar e ser governado — e por quê.
Desautorizar o desejo autoritário não é gritar mais alto, nem propor um desejo melhor. É desfazer a cena em que ele se apresenta como única resposta possível ao caos. É suportar a falta, o conflito, o imprevisto — e, a partir daí, produzir uma outra ética, uma outra política, uma outra linguagem.
Talvez não exista saída definitiva. Mas pode haver outra posição. Uma posição que não goza com a certeza, nem com o castigo, nem com a identidade. Uma posição que não deseja eliminar o desejo, mas aprender a saber-fazer com ele — mesmo quando o desejo for de controle, de pureza, de silêncio. Afinal, também o desejo autoritário é desejo. E é precisamente por isso que ele pode ser atravessado.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.
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