Óvulos de Páscoa no Natal, por Ana Laura Prates

As razões alegadas para criticar a gravidez de uma mulher depois dos 50 são muito curiosas.

Óvulos de Páscoa no Natal

por Ana Laura Prates

“Ressuscita-me, ainda que mais não seja, porque sou poeta e ansiava o futuro” (Maiakowiski, O Amor)

Batizei 2022 de “o ano Páscoa”, ano da passagem, da ressurreição, da renovação. Ano em que muitos de nós, com amor e esperança lutamos para renascer das trevas!

Em consonância com esse espírito primaveril, em algum momento deste ano, em circunstâncias que não vêm ao caso, considerei a possibilidade de ser mãe novamente e, mais do que isso, de engravidar. Por quê? As razões são várias, dentre elas, as que me são conscientes e publicáveis são: amar é dar o que não se tem (como ensina Lacan), eu gostei de ficar grávida e gosto de ser mãe, eu aposto nas novas gerações. Mas talvez a verdadeira resposta seja simplesmente o desejo, ou em outras palavras, porque sim!

 Sou livre, responsável, pago meus próprios boletos e não devo nada a ninguém. Ainda assim, sei bem que se tivesse decidido levar adiante tal desejo e, mais ainda, se ele viesse a se realizar, eu teria sido mais apedrejada do que Maria Madalena ou do que uma adúltera no Irã. Afinal, não tenho nem de longe a fama e o dinheiro da Claudia Raia para me proteger minimamente. Na época em que sua gravidez veio a público eu estava ainda bastante envolvida com minha própria experiência e decidi me calar. Era um momento delicado: estávamos em plena campanha eleitoral e considerei que não seria o caso de irritar minha bolha com assuntos, digamos, menos importantes.

Não tenho afinidade estética com a Claudia, acompanho pouco seu trabalho e sua longa e respeitável carreira, e não tenho nada a ver com sua vida pessoal, mas confesso que fiquei surpresa com os comentários que ouvi e li nas minhas redes. Mais do que surpresa, fiquei assustada. É impressionante como pessoas que se julgam progressistas para algumas pautas podem ser caretas, moralistas e machistas – não necessariamente nessa mesma ordem – para outras. A resposta mais interessante, por incrível que pareça, veio do próprio companheiro da Claudia, Jarbas Homem de Mello. Ele declarou achar curioso que ninguém tivesse dito nada a respeito dele se tornar pai com mais de 50 anos: “Vivemos em uma sociedade machista e que policia o corpo das mulheres”.

O dito policiamento, no caso, curiosamente vinha do Vale Encantado. Vale Encantado é como um jovem analisante chama um lugar imaginário que vai da escola Oswald de Andrade até a FFLCH, passando por escolas construtivistas e descontruídas onde nossos filhos estudam ou estudaram, pela PUC e fazendo pit stop nos bares de samba da Vila Madalena – deliciosos, por sinal. Adorei e adotei! O Vale Encantado é o responsável pelas “coincidências” de tantos conhecidos em comum que nos fazem pensar que o mundo é pequeno. Não! O mundo é grande, mas a renda é mal distribuída. Falo de São Paulo, mas cada região do Brasil deve ter o seu próprio Vale Encantado.

As razões alegadas para criticar a gravidez de uma mulher depois dos 50 são muito curiosas. Um argumento que ouvi com espanto é que homens podem ser pais depois dos 50, mas mulheres não, por razões biológicas. Essa confusão primária entre maternidade ou paternidade – que fundamentalmente são funções – e progenitores seria esperada da ex ministra Damaris, mas saiu da boca de quem defende as vacinas e as cirurgias de redesignação genital. Se tomamos antibióticos e nascemos através de cesarianas; se usamos próteses e fazemos transplantes, por que nossos filhos não poderiam ser concebidos através de óvulos doados?

Alguns disseram, ainda, que se tratava de um privilégio de classe social, pois os procedimentos para uma gravidez nessa idade são inacessíveis para quem não tem poder econômico. Verdade. Aliás, também é verdade para aborto e vários outros procedimentos. Ora, lutemos então pelo SUS e para que sejam acessíveis. Deixemos de criminalizar a pobreza e passemos a construir condições para que todas as mulheres que assim o desejarem possam realmente ser mães, sem o peso de serem as únicas responsáveis pela criação de seus filhos.

Outro argumento curioso desloca o campo da biologia para o da moral: Você acha justo colocar um filho no mundo sabendo que vai morrer quando ele ainda for jovem? Acho! Filhos não precisam de mães para sempre! Em primeiro lugar, a gente nunca sabe quando vai morrer. E, novamente, dois pesos e duas medidas: Convivo com vários amigos que tiveram filhos depois dos 50 ou até 60 e 70 e nunca ouvi um pio sequer a respeito.

Em resumo, o que essas críticas revelam é o quanto a maternidade ainda é um tabu em nossa sociedade, mesmo no tal chamado campo progressista. E indicam também o quanto nós somos policiadas em quaisquer circunstâncias que envolvam a maternidade. Somos policiadas quando desejamos ser mães e quando não desejamos. Somos policiadas quando interrompemos uma gravidez não desejada ou quando lutamos por ela quando a desejamos. Somos policiadas se decidimos ter um parto natural ou uma cesariana. Somos policiadas se decidimos amamentar, ou não. Somos policiadas se decidimos fazer reposição hormonal na menopausa ou não. Somos policiadas se decidimos congelar óvulos ou não. Se adotamos ou se entregamos para adoção. Se trabalhamos ou se deixamos de trabalhar. Se viajamos ou deixamos de viajar.

O fato é que precisamos construir uma sociedade em que as crianças cada vez mais sejam criadas pela “aldeia”, como transmitiu o fabuloso filme de Almodóvar “Madres paralelas” sobre o qual escrevi nessa coluna. E que a maternidade possa ser exercida por quem quer que a deseje, independente do gênero, raça, classe ou idade.

Meu corpo, minhas regras, também vale para mulheres 50+ e também vale para mães. Que nosso ventre e nosso desejo sejam livres! E que quem não tem ventre também possa ser mãe!

Em tempo, as surpresas envolvendo esse episódio não foram apenas lamentáveis. Algumas amigas com quem comentei sobre a possibilidade de tentar engravidar, me ofereceram doar seus óvulos, algumas delas com óvulos congelados. Pela legislação brasileira isso não seria possível, mas me comoveu profundamente. Em outra situação eu já havia dito que ofereceria meu útero para uma mulher que amo muito gestar seu bebê. Não foi necessário. Viva a ciência e via a amizade entre mulheres! Quanto a alguns da tribo do Vale Encantado, agora que entramos no novo tempo, o tempo do Natal neste ano Páscoa: Abortem seus preconceitos, engravidem de generosidade. Renovem-se!

PS: Eu já tinha acabado de escrever este texto quando assisti o documentário sobre Paulo Gustavo. Em uma das cenas, o que se revela é que, além de tudo, ele era uma mãe para seus filhos.

Ana Laura Prates é dona de casa, psicanalista, escritora, editora e ativista. Membro do Campo Lacaniano e Pesquisadora da UNICAMP.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Ana Laura Prates

Ana Laura Prates é graduada em Psicologia pela USP (1989), mestre em Psicologia Clínica pela USP (1996), doutora em Psicologia Clínica pela USP (2006) e possui pós-doutorado em Psicanálise pela UERJ (2012).

1 Comentário

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  1. Mire-se no exemplo de Anita, mulher ariana que faz o que quer antes que alguém lhe diga se pode. Não há qualquer apreço à virtude da mulher por parte dos homens ou da sociedade, se não por parte delas mesmas como motivo para atacarem umas às outras. No mais, as mulheres mais pobres são as que têm mais filhos e em idade mais avançada continuam parindo. Sobre Cláudia Raia, o que dizer? Meus parabéns! Celulari não vai ficar achando que se reinventou na paternidade.

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