10 de junho de 2026

Para as chaminés abandonadas de Birmingham, por Felipe Bueno

Admitamos, o rock sempre falou inglês. Foi assimilado e imitado em português, espanhol, italiano, alemão, japonês e outros tantos idiomas
Darren Quinton - Touchstone Visuals - Reprodução

Para as chaminés abandonadas de Birmingham

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por Felipe Bueno

Se levarmos a sério que houve de fato a despedida “final” do Black Sabbath – e o estado geral de Ozzy Osbourne nos faz admitir isso, o encontro do início do mês na Inglaterra, ao contrário do que os mais otimistas possam pensar, foi outro dos capítulos de encerramento da existência do rock como atividade cultural e produção de valores para além das fronteiras nacionais, indicando o iminente fechamento de uma das maiores usinas de soft power do mundo contemporâneo.

Admitamos, o rock sempre falou inglês. Foi assimilado e imitado em português, espanhol, italiano, alemão, japonês e outros tantos idiomas, muitas vezes bem, outras nem tanto, mas sempre levou aos seus destinatários e destinatárias não só a língua, mas o visual, a atitude e o estilo de vida de boa parte das nações de quem estava ao microfone: Estados Unidos e Inglaterra. Citemos modestamente como exemplos Elvis Presley, um combo de valores americanos, e o visual mod da fase inicial dos Beatles. De certa maneira, aliás, tudo o que veio depois foi de alguma forma derivado deles.

Por mais de meio século, o rock fabricou demandas econômicas e comportamentais, e invadiu fronteiras que exércitos não ousariam ultrapassar. Ilustremos mais uma vez nosso texto com um exemplo: o grande tráfico de fitas cassete de músicos da Inglaterra e dos Estados Unidos dentro dos limites da Cortina de Ferro. Em mais de uma ocasião, após a queda do muro, quando os álbuns oficiais e os artistas chegavam, já haviam sido antecedidos por gravações piratas, possibilitando ao público local cantar com seus ídolos usando um idioma que não aprenderam na escola.

Mas, para além da venda de camisetas, bandanas, pôsteres e discos, o rock congregou jovens de todo o mundo em torno de ideais: a liberdade – o bem supremo – sobre as rodas de uma Harley-Davidson, de uma Lambretta ou a pé; o questionamento ao poder que oprime, seja dos pais, seja dos governos; e uma aguda visão social de alguns de seus mais esclarecidos representantes de Bob Dylan e Joan Baez ao System of A Down.

Resumindo, sonhadores e sonhadoras.

Que essa estética tenha sido com o tempo em parte raptada por fãs e grupos com valores diametralmente opostos é outra história, obviamente a lamentar.

De volta ao Black Sabbath e sua despedida no início deste mês de julho, vale destacar que se realizou na cidade de Birmingham, terra natal da banda – e de outros artistas. O concerto, beneficente, foi denominado Back to the Beginning por razões óbvias. E aqui fica mais uma demonstração inevitável de que a “volta ao começo” é um fim: seus jovens, nos anos 1960, cantaram suas indústrias, seus trabalhadores, sua poluição, suas crenças, suas esperanças, seus feridos e seus mortos. Buscavam uma vida diferente, um mundo melhor sem se esquecer de suas raízes. Hoje, eles e a cidade em que nasceram, cresceram e viveram – da maneira como eram e foram mundialmente conhecidos, preparam-se para um eterno e merecido descanso.

Seus seguidores continuaremos ouvindo suas músicas e suas mensagens, assim como Bach, Beethoven e Chopin são imortais. Mas em outro plano. Neste aqui, vai chegando a hora do adeus.

Independentemente do gosto de cada qual, isso não é bom nem ruim. Do ponto de vista histórico, apenas é.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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