
Extrema direita, direita e o império querem detonar o país. O que fará o governo?
por Gilberto Maringoni
Neste 6 de agosto – 80 anos da bomba em Hiroshima – entra em vigor a explosiva tarifa de 50% para centenas de produtos brasileiros nos EUA. O cenário no Brasil é de falta de rumos. Apesar do pronunciamento altivo do presidente Lula em 17 de julho, o Planalto não constituiu um grupo de crise, não há tática, não há estratégia, senso de urgência ou nada. Não há direção política clara para resistir, a não ser um discurso nacionalista que parece desinflar.
Há um mês, em 9 de julho, o presidente dos EUA anunciou o tarifaço. Seria tempo de sobra para se organizarem medidas concretas. Diante de um governo voltado para a pequena política – vejam o discurso despolitizado e varejista de Lula no Encontro Nacional do PT, no domingo – o judiciário se destaca. Ou melhor, o ministro Alexandre de Moraes, que atualmente enfrenta processo de isolamento covarde por parte de seus pares.
No vácuo político, o bolsonarismo dado como morto, galvaniza a direita tradicional e busca retomar a ofensiva. Vitaminado por pesquisas que mostram o governo patinando em popularidade e por atos públicos de dimensões medianas realizados em algumas capitais, o extremismo de direita chutou o balde. Nesta terça, promoveu cenas de balbúrdia num Congresso acéfalo, com a notável ausência da maioria dos parlamentares progressistas.
Se há dez dias, o Estadão em editorial conclamava a direita a se afastar do clã Bolsonaro, a Folha de S. Paulo desta quarta exibe o infame artigo intitulado “Bolsonaro tem direito à livre expressão”, como se o ex-presidente não tivesse desobedecido dispositivos legais. Foi a senha para que a direita e a extrema-direita voltassem a se unir.
Há pelo menos quatro ações visíveis nessa direção: A. Gilberto Kassab saiu do muro que o caracteriza e empenhou-se na solidariedade ao ex-capitão; B. Arthur Lira, elevado à condição de parça do petismo, declarou que “As medidas aplicadas a Jair Bolsonaro são exageradas”, C. Para não dizer que não falei de fardas, o general Alberto Mendes Cardoso, ex-chefe do GSI no governo FHC, sacudiu a naftalina do pijama e escreveu nas redes sociais, em letra maiúscula: “EXÉRCITO DE TODOS OS BRASILEIROS, A HORA É ESTA! O POVO ESTÁ A PONTO DE FAZER O QUE AS SUAS FORÇAS ARMADAS DEVEM LEVAR AVANTE! LIDEREM O QUE ESTÁ POR VIR INEXORAVELMENTE!” e D. O Departamento de Estado decidiu botar as manguinhas de fora e exarar nota grosseira contra o judiciário brasileiro e em favor de Bolsonaro.
Não adianta denunciar a direita ou “dar tempo ao tempo”, como se crises se resolvessem sozinhas. Como se repete há décadas, quem não faz gol leva. Onde não há ofensiva política o inimigo se cria. Ou a presidência da República assume o comando frente a dois ataques – o do Império e o das direitas brasileiras – que no fundo são um só, ou o recuo será inevitável.
Há solução. O governo agir como fizeram administrações mais ousadas – Franco Montoro, Tancredo Neves e José Sarney, nos anos 1980 – e chamar o povo para a rua. Os dois primeiros financiaram, planejaram, incentivaram e comandaram gigantescas manifestações pelas Diretas, em 1984, e o terceiro incentivou a população a se organizar para vigiar abusos de preços, sob o mantra “fiscais do Sarney”, dois anos depois. Não há outro caminho.
No entanto, os tempos são outros e os sinais não são bons. O ministro da Fazenda dá entrevista admitindo negociar terras raras com os EUA, o Banco Central mantém a taxa de juros num patamar capaz de inviabilizar o crescimento e a administração federal parece esperar a bomba cair para ver como fica. Evidentemente não se compara ao genocídio estadunidense no Japão de 1945, mas vale atentar para um detalhe: quem patrocina o ataque é o mesmo inimigo.
Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.
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