
Setembro Amarelo: sobre saúde mental e políticas de vida
por Daniela Piroli Cabral e Taís Civitarese
Setembro chegou e, com ele, diversas mensagens motivacionais se espalham nas redes sociais: “viver é a melhor solução!”, “sua vida tem jeito!”, “seja forte!”. Muitos “especialistas” e gurus da plenitude surfam nesta onda sensacionalista que vende soluções simplistas para o bem-estar e entoam uma positividade tóxica que chega a desafiar a nossa humanidade. Nosso mundo se fantasia de amarelo para esconder o “mal-estar”, disfarçar o medo, a ansiedade, a angústia, a insegurança, a morte, a vulnerabilidade.
A verdade é que a felicidade tirânica das redes sociais denuncia uma lógica individualizante a que somos compulsoriamente expostos quando tratamos de saúde mental.
Não há valorização da vida, no entanto, sem ação política que reconheça dinâmicas coletivas de violência, opressão, exploração e forneça elementos para sua reparação. Não é à toa que as taxas de suicídio nas populações periféricas e vulnerabilizadas (pretos, população heterodissidente) são até quatro ou cinco vezes maiores que na média da população geral. Na população indígena essa proporção pode ser até 30 vezes maior, pelos efeitos de desterritorialização e aculturação.
Para tratar de prevenção de suicídio é preciso reconhecer as desigualdades sociais e empreender lutas por uma vida digna para todos, com garantias de direitos à saúde, à alimentação, à educação, à condição de trabalho. Pois saúde mental não se efetiva plenamente quando estamos desalojados de nossa condição mínima de existência.
O Brasil vem, a trancos e barrancos (e não sem polêmicas), tentando construir seu próprio campo de suicidologia, com a recente sanção pelo presidente Lula da lei 15.199, de 8 de setembro de 2025, que dispõe sobre parâmetros nacionais para ações na campanha Setembro Amarelo, e também com a já existente Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio (lei 13.819/2019).
A despeito de apropriações de cor, de lacunas e paradoxos legais e de ambiguidades político-partidárias, a abertura para o tema do suicídio na fala pública e nas experiências coletivas, sem dúvida nenhuma é um grande avanço na quebra de tabu, minimização de estigmas e também no desenvolvimento de ações de cuidado contextualizadas às nossas diversidades regionais.
São movimentos novos, em um campo de muito mais dúvidas do que certezas, em um território de dimensão continental. Ainda temos muito a avançar em pesquisa, capacitação profissional e humana, nas articulações entre legislação, fiscalização e assistência em saúde e educação nas esferas federal, estaduais e municipais, mas a possibilidade de quebrar o silêncio e desinvisibilizar o suicídio e a saúde mental, principalmente em um contexto pós-pandemia, são ganhos sociais legítimos e inegáveis.
Além disso, também é necessário refletir sobre as dimensões mais cotidianas da saúde mental. Promovê-la só é possível a partir do reconhecimento da dimensão ética do sofrimento humano, sem estigmatização ou patologização da vida. É preciso reconhecer a invisibilidade das manifestações de sofrimento nos conflitos familiares, nas dificuldades de comunicação, na busca de um lugar no mundo e na defesa do direito de existir.
Porque saúde mental é, de fato, invisível. Não é como um braço quebrado, um ferimento, um nódulo palpável. Sua percepção é da ordem do intangível. O seu reconhecimento passa necessariamente por escuta, empatia, acolhimento, autoconhecimento.
Não há exames que possam identificar um transtorno de forma direta e objetiva. O aparato médico para esta detecção resume-se a sinais biológicos indiretos, como dosagens bioquímicas no sangue, imagens cerebrais e testes de triagem validados cientificamente. Tais recursos podem ajudar a apontar para um diagnóstico sem, no entanto, defini-lo. O dispositivo em saúde mental mais valioso que se tem é alguém disposto a ouvir o outro com generosidade e a identificar os sinais subjetivos que se façam perceber em sua narrativa. É preciso estar atento à entonação da voz, ao autocuidado, à postura, ao comportamento, ao que diz o fundo dos olhos de uma pessoa. Para tanto, o exercício de colocar-se no lugar do outro é imprescindível. Isso somente é possível ao lançar-se à pesquisa e ao interesse genuíno pelo sofrimento humano. Ao compreender suas dimensões não-biológicas e sua contextualização dentro da sociedade e do tempo presente.
No livro “O que os Psiquiatras não te contam”, de Juliana Belo Diniz, a autora afirma: “Sintomas emocionais muitas vezes são uma resposta ao contexto no qual estamos imersos, uma resposta de cérebros totalmente sadios do ponto de vista celular, molecular ou funcional”. Portanto, mais do que alterações químicas ou deficiências de substâncias, a saúde mental está atrelada de forma dinâmica às interações particulares com o meio, mesmo que estruturalmente o corpo esteja são em um primeiro momento. Somente a partir desse entendimento é que será definido um quadro clínico e poderá ser proposto um tratamento, o qual pode abranger medicações, mudanças de hábitos e psicoterapia.
Estar saudável mentalmente requer uma empreitada diária, um esforço consciente e voluntário de autopreservação em um mundo que, frequentemente, evolui por rumos adoecedores.
Do mesmo modo, saúde mental também não pode ser entendida meramente como a ausência de algum transtorno mental ou comportamental. Ou seja, o fato de uma pessoa não ter o diagnóstico de depressão, de ansiedade generalizada ou de transtorno afetivo bipolar, por exemplo, não assegura que esta pessoa tenha saúde mental.
O “Capítulo V” da lista de Classificação Internacional de Doenças (CID), que trata dos transtornos mentais e comportamentais, é extenso. No entanto, o fato de não estarmos classificados em um dos seus inúmeros “CID F” não significa que estejamos em pleno gozo da saúde mental. A Saúde Mental vai além da ausência de transtornos e passa por um estado de bem-estar, em que o sujeito é capaz de reconhecer suas capacidades e limitações, de perceber o seu papel social e tornar-se agente de sua própria história.
Nessa perspectiva, o inverso também é verdadeiro. Não é o fato de a pessoa ser diagnosticada com um transtorno psíquico que inviabiliza a sua saúde mental. Há pessoas diagnosticadas que estão mentalmente saudáveis. E esse é um estado que passa pela satisfação no trabalho, por relações familiares e sociais igualitárias, sem abusos ou violência; passa pelo exercício cotidiano da cidadania, pelo direito de professar a fé ou praticar a sexualidade sem preconceitos ou julgamentos, entre outros. (OMS, 2013). Portanto, a saúde mental abrange aspectos biopsicossociais que interagem e se multideterminam.
O reconhecimento de sinais e sintomas e a busca por ajuda psiquiátrica ou psicológica é fundamental, mas é relevante compreender também as dimensões não biologizantes que impactam nosso estado psíquico e trabalhar para a redução do tabu e do estigma sobre o tema. “Deveríamos conseguir falar com naturalidade sobre saúde mental como conseguimos falar sobre a dengue e o sarampo.”
Há muitos dias difíceis, dolorosos e desafiantes em nossa vida. Porém, eles não devem ser parâmetro para definirem-se todos os outros dias. Vivemos momentos enfadonhos, monótonos e com desafios intermináveis para os quais torna-se necessário inventar fugas, naturalizar o fracasso e flexibilizar a urgência do sucesso. Podemos ressignificar os erros e entender que são apenas a materialização do que se desconhece.
Há dias em que nos falta a clareza sobre quem somos, em que até as palavras faltam e é preciso aprender a escutar os ruídos que vêm dos silêncios. Há dias em que quase não se sobrevive. Mas é importante saber que há momentos que valem uma existência inteira. Uma música, um encontro, uma memória. Instantes em que o tempo perde sua linearidade e nos projeta para o futuro, para além da nossa morte, ou nos remete ao passado, reverberando imortalidade e ancestralidade.
Pode ser difícil sustentar a densidade do viver, mas a morte pode ser sempre adiada por um desejo, por um prazer volátil. O mundo não precisa ser compreendido por nós, nem ordenado. O mundo está aí para ser experimentado através do corpo, esta matéria sensível, perecível. O tempo mudará todas as coisas, a despeito de nossa vontade. E sim, existem coisas que ficarão para se aproveitar mais tarde.
Ah, e claro, os dias felizes são sempre mais fáceis.
Daniela Piroli Cabral – Psicóloga clínica e do trabalho, doutoranda em psicologia e mediadora do grupo Sobre Vivências, de apoio ao luto por suicídio (@daniela.piroli.psi) e colaboradora da Rede BrCidades.
Taís Civitarese – Pediatra e preceptora do Ambulatório Geral de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital das Clínicas da UFMG (@taiscivitarese)
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