5 de junho de 2026

Sociedade administrada: a produção do medo na formação do Ego, por Michel Aires de Souza Dias

No homem primitivo, o Ego se desenvolveu por causa do medo da morte diante das forças destrutivas da natureza. Já no homem moderno, o Ego se desenvolve por causa do medo das forças aniquiladoras da sociedade.

Sociedade administrada: a produção do medo na formação do Ego

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por Michel Aires de Souza Dias

 O progresso técnico e científico, que foi capaz de apaziguar as forças da natureza, tornando a vida mais confortável para os homens, não foi capaz de criar as condições objetivas para a felicidade humana. A civilização não foi capaz de cultivar sua própria humanidade. Ao contrário, a civilização se tornou uma nova forma de selvageria, tornou-se uma segunda natureza. Hoje, os homens não temem mais os animais selvagens ou as forças míticas da natureza, mas temem as potências aniquiladoras da sociedade.  O medo da fome, da miséria, da violência, do desemprego, da criminalidade e da exclusão social substituiu o medo do selvagem das forças naturais. Para usufruir dos benefícios da sociedade, o homem moderno teve que racionalizar sua ação para sobreviver. Ele foi forçado a regredir seus instintos a estágios antropologicamente mais primitivos. Essa condição regressiva é imanente às sociedades modernas. É fundamental para a manutenção do modo de produção capitalista. 

No homem primitivo, o Ego se desenvolveu por causa do medo da morte diante das forças destrutivas da natureza. Já no homem moderno, o Ego se desenvolve por causa do medo das forças aniquiladoras da sociedade. É pelo mesmo instinto de autoconservação que o Ego se forma. Tal como o selvagem mimetizava as forças míticas da natureza para sobreviver, o homem moderno mimetiza as forças opressoras da realidade. O indivíduo imita as formas de comportamento e padrões de pensamento e conduta socialmente exigidos, identificando com o existente. Como ser agressivo de si mesmo, ele mobiliza todas as suas forças e todo seu pensamento para ganhar a vida. Como avalia Horkheimer (2002, p. 146): “Através da repetição e imitação das circunstâncias que o rodeiam, da adaptação a todos os grupos poderosos a que eventualmente pertença, da transformação de si mesmo de um ser humano em um membro da organização, do sacrifício de suas potencialidades em proveito da capacidade de adaptar-se e conquistar influência em tais organizações, ele consegue sobreviver. A sua sobrevivência se cumpre pelo mais antigo dos meios biológicos de sobrevivência, isto é, o mimetismo.”

A produção do medo como forma de dominação é característica de uma sociedade que se tornou administrada.  Adorno e Horkheimer em seu livro Dialética do Esclarecimento mostraram que essa forma de sociedade surgiu com o avanço da técnica, com o advento do capitalismo monopolista. A sociedade administrada se define como uma forma de dominação social calcadas na racionalidade técnica, econômica e administrativa, onde os indivíduos são transformados em objetos de organização, controle e planejamento em larga escala. A partir desse aparato a sociedade capitalista foi capaz de desenvolver formas de consciência, padrões de comportamento e atitudes que predispõem os indivíduos a aceitar e interiorizar seus mandamentos. Nessa forma de sociedade, a consciência se forma no contexto de uma realidade totalmente reificada. Os indivíduos ao reduzirem sua vida ao trabalho, ao consumo e aos entretenimentos idiotizados da indústria cultural, deixaram que seu pensamento e imaginação fossem modelados pela produção de mercadorias. Como observa Adorno (1995, p. 43), “se a pessoas querem viver em sociedade, nada lhe resta senão se adaptar à situação existente, se conformar; precisam abrir mão daquela subjetividade autônoma a que remete a ideia de democracia.”

Em um aforismo de Mínima Moralia, Devagar e Sempre, Adorno fala sobre a pressa dos indivíduos nas ruas dos grandes centros urbanos. Ele vê nessa pressa traços mnemônico de épocas passadas. Essa correria do dia a dia nas grandes cidades parece o antigo medo do selvagem ao fugir de um predador na selva. Hoje, mesmo que o homem tenha dominado as forças da natureza e desfrute de uma grande segurança na civilização, ele ainda teme a sua aniquilação. Por este motivo, está sempre correndo para cumprir seus compromissos: “Houve tempo em que se corria de perigos que não admitiam descanso, e inadvertidamente ainda o demonstra quem corre atrás do ônibus. A ordenação do tráfego não mais precisa preocupar-se com animais selvagens, mas não chegou a pacificar a corrida […] Torna-se visível a verdade de que não se está seguro da segurança, que estamos condenados a fugir das potências desenfreadas da vida” (ADORNO, 2008a, p. 158).

 O grande objetivo da produção do medo na sociedade administrada foi tornar os indivíduos cada vez mais adaptados e eficientes. O crescimento individual deve se transformar em eficiência padronizada. Em um mundo dominado pelas mercadorias, o indivíduo também se torna uma mercadoria. Ele se esforça para obter conhecimentos, competências e habilidades para se tornar uma mercadoria cada vez melhor. Seu sucesso depende cada vez mais de sua capacidade de adaptação às pressões que a sociedade exerce sobre ele. Segundo Marcuse (1999, p. 78), “essa eficiência se caracteriza pelo fato de que o desempenho individual é motivado, guiado e medido por padrões externos ao indivíduo, padrões que dizem respeito a tarefas e funções predeterminadas. […] O indivíduo eficiente é aquele cujo desempenho consiste numa ação somente enquanto seja a reação adequada às demandas objetivas do aparato.”

O preço que o homem pagou pela sua adaptação às exigências da sociedade foi sua autorenúncia. Ele renunciou à sua individualidade, à sua autonomia e à sua autoconsciência. As suas qualidades ativas e as relações estabelecidas com a sociedade se tornaram passivas, fixas e automáticas. Como observa Goldman (2008, p. 139): “Em tal sociedade, a consciência tende, com efeito, a tornar-se um simples reflexo, a perder toda função ativa, à medida que o processo de reificação – conseqüência inevitável de uma economia mercantil – se estende e penetra no âmago de todos os setores não-econômicos do pensamento e da afetividade.”

Ao tornar o sentimento de medo um instrumento para administrar os sujeitos, o mundo industrial capitalista se confronta diante deles como algo absoluto e esmagador. O resultado disso foi que os indivíduos foram transformados em átomos sociais isolados, não conscientes da totalidade que os oprime. Quando o todo se dissolve no indivíduo, ele desaparece e torna-se mero objeto social. Cada um é transformado em um modelo da gigantesca maquinaria econômica. Como aponta Adorno (2008b, p. 103): “Um traço essencial dessa sociedade é que seus elementos individuais são apresentados, ainda que de modo derivado e a seguir até mesmo anulado, como relativamente iguais, dotados com a mesma razão, como se fossem átomos desprovidos de qualidades, definidos propriamente apenas por meio de sua razão de autoconservação, mas não estruturados em um sentido estamental e natural.”

O que caracteriza a sociedade administrada é que sua organização social continua sendo heterônoma, isto é, nenhuma pessoa pode existir na sociedade capitalista realmente conforme suas próprias determinações. Na medida em que o mundo se nivelou pela forma da mercadoria, o ego ajustado à realidade aprendeu a ordem e a subordinação por meio do aparato econômico que a tudo engloba. Desse modo, “os fenômenos da alienação baseiam-se na estrutura social.” (ADORNO, 1995, p. 148). A adaptação, o conformismo, a ausência de autorreflexão, o comportamento convencional são características dessa sociedade. Em razão disso, para Adorno e Horkheimer (1985, p. 41), “é exatamente o progresso bem-sucedido que é culpado de produzir seu próprio oposto. A maldição do progresso irrefreável é a irrefreável regressão.”

Referências

ADORNO, Theodor. Minima Moralia: reflexões da vida lesada. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008a.

ADORNO, Theodor. Introdução à sociologia. São Paulo: Editora UNESP, 2008b.

ADORNO, Theodor. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

GOLDMANN, Lucien. A reificação das relações sociais. In: FORACCHI, Marialice; MARTINS, José (Orgs.). Sociologia e sociedade. Rio de Janeiro: LTC, 2008, p. 137-146.

HORKHEIMER, Max. Eclipse da Razão. São Paulo: Centauro, 2002

MARCUSE, Herbert. Algumas Implicações Sociais da Tecnologia Moderna. In: Tecnologia, Guerra e Fascismo, São Paulo: Editora Unesp, 1999. p. 71-104.


Michel Aires de Souza Dias – Mestre em Filosofia pela UFSCAR. Doutor em Educação pela USP.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Michel Aires

Graduação em filosofia pela UNESP. Mestre em filosofia pela UFSCAR. Doutor em educação pela USP. Tem experiência nas áreas de Filosofia e Educação, com ênfase na Teoria Crítica, em particular, nos pensamentos de Herbert Marcuse e Theodor Adorno. Possui artigos publicados nas áreas de educação, filosofia e ciências sociais.

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  1. Pederneiras

    2 de novembro de 2021 10:49 am

    Booooooring

    Nada de novo, nenhuma concatenação nova ou interessante, nada a contribuir.

  2. Wilton Cardoso

    2 de novembro de 2021 11:05 am

    Não sei se podemos considerar o homem moderno uma regressão ao primitivo. Regressão sim, na forma de infantilização, de desamparo infantil e também de imaturidade, mas não regressão ao homem primitivo. Este realmente tinha que se defender da natureza e, muitas vezes, de outras sociedades rivais, mas, para isso, se organizava numa cultura socialmente igualitária e muitíssimo rica, uma contra-natureza comunal que acolhia e protegia cada membro seu.

    O homem moderno se vê atomizado e rival de todos os seus concidadãos, e sob ameaça constante da sociedade capitalista que, de fato, é uma segunda natureza amedontradora. Seu refúgio afetivo é, no máximo, o núcleo familiar, pequeno e frágil diante da feroz concorrência total capitalista. O homem primitivo, com todos os seus tabus e misticismos, é muito mais realizado como ser humano do que o homo economicus do capitalismo.

  3. Michel Aires de Souza Dias

    2 de novembro de 2021 6:24 pm

    A originalidade do texto está na inferência que se pode fazer das obras de Adorno e Horkheimer. Primeiramente, eles nunca desenvolveram uma teoria sobre o medo. Nunca afirmaram que o medo é um instrumento de controle na sociedade administrada. Eles também nunca afirmaram que o Ego do homem moderno se desenvolve por causa do medo. Se há alguma passagem que demonstre essas asserções, por favor me mostre.

  4. Michel Aires de Souza Dias

    2 de novembro de 2021 6:41 pm

    A regressão significa que, apesar do avanço do progresso técnico e científico, que poderia acabar com a fome, a miséria e possibilitar o fim da luta pela existência; o homem regride e mobiliza todos os seus esforçoes e instintos para manter a luta pela existência.

  5. jura

    2 de novembro de 2021 7:43 pm

    Ufa, finalmente alguém explicou o que é o choque de gestão!

  6. Mauricio dorini

    3 de novembro de 2021 11:24 pm

    Muito bom o texto,me deu uma explicação pro fato das pessoas andarem tão apressadas a ponto de se atropelarem, é uma situação que sempre observei e nunca entendi

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