Terras Raras e Soberania Nacional
por José Manoel Ferreira Gonçalves
Brasil e soberania tecnológica
O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do planeta (raras, mas nossas!), um ativo estratégico que, se bem aproveitado, pode reposicionar o país no tabuleiro da geopolítica industrial global. Apesar de contar com aproximadamente 21 milhões de toneladas de óxidos — cerca de 23% das reservas mundiais —, a produção nacional em 2024 foi de apenas 20 toneladas, um volume simbólico frente às 270 mil da China, que domina 70% da produção mundial.
A discrepância entre potencial geológico e performance econômica não é casual. Ela resulta de décadas de descontinuidade industrial, lacunas tecnológicas e dependência de cadeias estrangeiras de refino. No entanto, novos projetos começam a redesenhar esse cenário.
Terras Raras e Soberania Nacional
A abertura da mina da Serra Verde (Brasil), em Goiás, marca um ponto de inflexão. Iniciada em 2024, essa é a primeira planta comercial de REOs no Brasil, com meta de atingir 5 mil toneladas anuais até 2026. Mais que volume, ela mira os elementos nobres para ímãs permanentes: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.
Outro avanço relevante é a chegada da Aclara Resources (Chile), com foco em terras raras pesadas e técnicas limpas — sem barragens ou reagentes tóxicos. A planta piloto já opera, e a produção comercial começa em 2028. Soma-se ainda o CRITR, centro de reciclagem de ímãs NdFeB em Minas Gerais, liderado pela joint venture Viridion JV formada entre a Ionic Rare Earths (Austrália) e a Viridis (Brasil), com inauguração prevista para 2026.

Essas iniciativas compartilham três características: tecnologia limpa, parcerias com países ocidentais e foco em produtos de alto valor agregado. Elas não apenas diversificam a matriz econômica como reduzem a dependência do modelo extrativista bruto.
Potencial estratégico e gargalos críticos
Mesmo com esses passos, o país enfrenta entraves estruturais. O principal deles é o refino, processo que separa os 17 elementos das terras raras. Atualmente, 87% do refino global acontece na China. O Brasil não possui ainda infraestrutura competitiva nesse segmento — o custo brasileiro por tonelada é até três vezes superior ao chinês.
Outro desafio é a formação de mão de obra e inovação tecnológica. A mineração de elementos críticos exige químicos, engenheiros e especialistas em logística e regulação ambiental. O uso de inteligência artificial na prospecção, como no projeto da Aclara Resources (Chile) em parceria com Stanford University (EUA), ainda é uma exceção.
No entanto, há um esforço governamental e privado para preencher essa lacuna. O BNDES e a Finep destinaram R$ 5 bilhões para acelerar projetos de minerais estratégicos, e o Brasil foi incluído na Minerals Security Partnership, coalizão liderada pelos Estados Unidos, com aporte de US$ 150 milhões no projeto da Serra Verde (Brasil).
Outro destaque é o projeto da Meteoric Resources (Austrália), que negocia o fornecimento de óxidos mistos ao Canadá e Estados Unidos, com início de operação previsto para 2027 em Minas Gerais.
Terras Raras e Soberania Nacional
Além do papel industrial, o domínio sobre as terras raras se tornou questão de soberania. Em tempos de transição energética e corrida por baterias e ímãs potentes, quem controla esses minerais exerce poder real sobre cadeias de valor globais. O Brasil tem reservas, parceiros e demanda interna. Resta acelerar a industrialização e garantir que o valor fique no país.
Projetos como os da Meteoric Resources (Austrália) e o CRITR (Brasil-Austrália), voltados à exportação e à reciclagem, mostram um caminho viável e sustentável. Mas o país precisa ir além da extração e se tornar referência em tecnologia limpa, engenharia de materiais e integração internacional. O tempo, contudo, é curto — e a janela geopolítica está se fechando.
*José Manoel é pós-doutor em Engenharia, jornalista, escritor e advogado, com uma destacada trajetória na defesa de áreas cruciais como transporte, sustentabilidade, habitação, educação, saúde, assistência social, meio ambiente e segurança pública. Ele é o fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva. Em 2018, fundou e passou a coordenar o Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD), criado a partir da convicção de que a engenharia, como base material do desenvolvimento nacional, deve estar a serviço da democracia, da ética e da justiça social.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário