
Trilhos Roubados da Nação
por José Manoel Ferreira Gonçalves
Gestão temerária e abandono deliberado
A atuação da Rumo Malha Oeste é, sem meias palavras, um escárnio contra o patrimônio público. Concessionária de uma das mais importantes ligações ferroviárias do país, entre o interior paulista e o Mato Grosso do Sul, a empresa foi flagrada cometendo um ato de total desprezo pela infraestrutura nacional: removeu, com as próprias mãos, quatro quilômetros de trilhos de um trecho sob sua responsabilidade para reutilizá-los em outro ponto da malha.
O caso, devidamente apurado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), culminou em uma multa de R$ 2,111 milhões. No entanto, o valor parece irrisório diante do que ele representa: a confirmação de que uma concessionária de serviço público agiu como depredadora do bem que deveria preservar. Pior ainda, tentou justificar o crime sob o eufemismo de “remanejamento de trilhos”.
Tecnologia Avançada Inovação
Mais que um mero descuido administrativo, o episódio escancara o padrão de conduta de uma empresa que, há anos, deixa um rastro de abandono, deterioração e omissão. A malha ferroviária que deveria conectar Corumbá ao porto de Ladário encontra-se abandonada, invadida e aos pedaços. É resultado direto da negligência sistemática da Rumo, que se utiliza de trechos ociosos como almoxarifado improvisado de ferro velho — um canibalismo estrutural condenado pela própria ANTT.
A alegação da concessionária de que não houve “abandono por falta de zelo” não resiste à realidade documentada pela fiscalização. A verdade é que o que se observa é uma completa falta de compromisso com a função pública. A empresa atua como se a concessão fosse uma escritura de posse irrestrita, quando na verdade trata-se de um contrato com deveres claros: zelar, conservar, operar e prestar serviço.
A desconstrução da malha e a passividade estatal
É inaceitável que, mesmo diante de sucessivos episódios de abandono, desmobilização de segurança patrimonial e colapso estrutural, a Rumo continue ocupando um papel estratégico na logística nacional. A ANTT, embora correta na aplicação da multa, demorou a reagir. O próprio TCU já havia descartado a prorrogação do contrato, considerando que seria necessário um novo processo licitatório para salvar a Malha Oeste da total ruína.
Além disso, é preocupante que a empresa não enfrente uma responsabilização criminal mais severa por arruinar patrimônio da União. A justificativa protocolar de que “o departamento jurídico está avaliando” é mais uma tentativa de empurrar o problema com a barriga, enquanto os trilhos apodrecem e as comunidades próximas seguem esquecidas.
Tecnologia Avançada Inovação
O mais revoltante é que a destruição deliberada dessa malha ocorre em um momento em que o Brasil tenta revigorar seu sistema ferroviário com investimentos vultosos. O plano de construção do Ferroanel e a reestruturação da Malha Oeste visam tirar os trens de carga da malha urbana e liberar espaço para transporte de passageiros. No entanto, tais esforços são sabotados por concessionárias que tratam a malha como propriedade privada, desmontando ativos para tapar buracos operacionais.
O contrato da Rumo vence em 2026. É imperativo que o governo federal não apenas não renove a concessão, como impeça que a mesma empresa sequer participe da nova licitação. Trata-se de uma oportunidade única de encerrar um ciclo de omissão, má gestão e desrespeito à função pública.
Restaurar a malha é dever histórico
Recuperar a Malha Oeste significa muito mais do que reparar trilhos arrancados. É uma obrigação moral, econômica e social. O Brasil não pode mais tolerar concessionárias que depredam em vez de preservar. O Estado precisa fazer valer sua autoridade, garantindo que cada centímetro da infraestrutura ferroviária seja tratado como o bem público que é.
A Rumo Malha Oeste mostrou-se incapaz de cumprir esse compromisso. E, por isso, precisa sair dos trilhos da história ferroviária nacional.
José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.
“As informações contidas neste artigo foram obtidas a partir de reportagens da Folha de S.Paulo, documentos oficiais da ANTT e relatórios do TCU.”
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário