
Trump autoriza CIA a iniciar o fim do mundo, por Gilberto Maringoni
1- EMBORA IMPACTANTE, o anúncio de que Donald Trump autorizou a CIA a derrubar Nicolás Maduro não pode ser comprado pelo valor de face. Até aqui, o presidente venezuelano aumentou sua legitimidade interna, via iniciativas de defesa da soberania e da Pátria ultrajada, o que pode dificultar qualquer ação desestabilizadora. Mesmo que se planeje eliminar o comandante de Miraflores, como os EUA juntariam em seguida os cacos do poder? Com que setores internos poderiam contar para essa empreitada?
2- EM 2002, DURANTE A GUERRA AO TERROR, apesar de forte subversão nas Forças Armadas, na Igreja, no empresariado, nos meios de comunicação e na classe média, o golpe contra Hugo Chávez naufragou. Maria Corina Machado teria agora condições de organizar a base social para um levante sincronizado com investidas armadas e sabotagens a partir do mar do Caribe? As big techs prosseguirão na diuturna campanha de desgaste e convencimento?
3- QUAL O ARGUMENTO POLÍTICO capaz de sensibilizar multidões a apoiarem a ruptura institucional? Os países vizinhos – incluindo o Brasil, marcado pela covardia oficial – suportarão a transformação de suas fronteiras em praças de guerra? O que farão frente ao êxodo em massa de venezuelanos desesperados? Como se comportarão China – dona de parte do sistema elétrico do país e de milhões de barris de petróleo já pagos e ainda no subsolo – e Rússia – principal fornecedora de equipamento militar ao país?
4- SE ANALOGIAS HISTÓRICAS servem para alguma coisa, vale lembrar que nem John Kennedy (em 1962, na baía dos Porcos) e nem George W. Bush (em 2002, na Venezuela) autorizaram participação oficial de seu país nas aventuras imperiais, apesar de tê-las secretamente financiado. Uma aberta investida militar sem razão clara pode gerar desgaste internacional pesado para Washington, como nos casos citados.
5- NÃO BASTA À POTÊNCIA dominante ter armada, tropas terrestres e força aérea. Ela precisa exibir razões morais – como defesa da liberdade, da democracia, de Deus, da família etc. – para sustentar uma campanha desse tipo. Alegarão ao mundo que pretendem roubar petróleo e tudo bem? Vai colar?
6- TRUMP NOVAMENTE SEQUESTRA a agenda global. Nesta semana humilhou Javier Milei, ao dizer que dinheiro novo só cruzará o rio da Prata se o fascista pop exibir vitória eleitoral, e atrai Lula para negociações ainda incertas. Está nas capas de todos os sites e canais, como queria
7- A GUERRA VIRÁ, MAS NÃO JÁ, deixa subentendido. Mais parece um balão de ensaio capaz de lhe dar segurança sobre o próximo passo. Se decidir atacar, terá de ser gesto fulminante, sangrento e exemplar, capaz de gerar cenas espetaculares nas redes. Não sairá barato. Pode entrar num atoleiro, como no Afeganistão ou no Vietnã.
8- SOBREVIVERÁ POLITICAMENTE AO CAOS regional e ao desastre humanitário que se seguirá? Um armagedom caribenho pode atingir até mesmo os Estados Unidos, país marcado por abismos classistas e duvidosa coesão interna. Lembremos: o Império invadiu vezes sem conta os países da América Central. Esta seria a primeira vez que realizaria algo dessa magnitude na América do Sul. A imagem de um tiro saindo literalmente pela culatra só acontece em gibi. Mas no sentido desfigurado, pode ocorrer em situações para as quais não se meçam direito as consequências.
Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.
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Rui Ribeiro
16 de outubro de 2025 12:34 pmKd o Xi Jinping, o Putin, o Lula e o Narendra, entre outros?
“…Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir….”
Eduardo Alves da Costa, no Caminho com Maiakovski