5 de junho de 2026

Trump, discurso que a imprensa não viu e o convite, por Frederico Firmo

O discurso foi patético, autocentrado, egótico, narcisista e profundamente anticivilizatório, cheio de autoelogios e ataques rasteiros
Foto de Celal Gunes - Anadolu

Trump, discurso que a imprensa não viu e o convite.

por Frederico Firmo

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Quanto ao discurso de Trump, o mínimo que se pode dizer é que já nada nos espanta. Estamos agora tão habituados às suas hipérboles e fanfarronices, à presunção e má-educação, aos insultos e ofensas, que ficamos imunizados. É preciso fazer um esforço de desnaturalização  para conseguir ganhar distância e perceber o quão louco é ouvir um discurso de um presidente dos EUA assim.
Rui Tavares, coluna folha 23/09/2025

Abrindo os editoriais de nossos jornalões, eu não vi nenhuma análise do discurso de Trump. Os editoriais se dedicaram à descontrução do discurso de Lula.

O discurso de Trump foi patético, autocentrado, egótico, narcisista, e profundamente anticivilizatório. Iniciou com autoelogios e ataques rasteiros a seu antecessor. Se autodeclarou o presidente que fez a América Great Again. Neste tom, se vangloriou sobre sua guerra contra os imigrantes, e exortou todos os países da Europa a fazerem o mesmo. Sem nenhum pudor expôs seus julgamentos xenófobos e racistas sobre imigrantes e países. Desumanizou os imigrantes, criando a imagem de um país cercado e invadido por criminosos, brutais. Se referiu a eles, explicitamente como animais. Contou em glória, a expulsão de 300 coreanos que trabalhavam na planta da Hyundai. Segundo Trump, eram 300 criminosos coreanos expulsos. Utilizando dados falsos, afirmou que ao longo do mundo o percentual de imigrantes nas cadeias era sempre superior aos locais. Conclamou a Europa a expulsá-los, e/ou eliminá-los para não se tornar um caos. Não nos surpreendamos se ataques a comunidades de imigrantes aumentarem nos Estados Unidos e Europa. O discurso é quase uma tentativa de reeditar a era dos pogroms.

Atacou os resultados científicos tanto sobre mudanças climáticas, como na área de Saúde. Na contramão dos conhecimentos propôs o fim de todas ações de preservação. Afirmou que seu governo se opõe a qualquer acordo sobre o clima. Chamou de fraude e ironizou a substituição do conceito aquecimento global por mudanças climáticas. Atacou as formas alternativas de geração de energia, propôs maior utilização do carvão e combustíveis fósseis. Drill baby, drill! Justificou, o genocídio em Gaza, e se colocou contra a criação de um Estado Palestino. Criticou Putin e assinou um verdadeiro compromisso de continuidade da guerra na Ucrânia, ao afirmar que a paz só será possível com a devolução dos territórios ocupados. Sua justificativa, não é que se deva respeitar as fronteiras originais, mas sim que, segundo suas palavras, a Rússia estaria arruinada economicamente e frágil. Uma afirmação típica de predador; vamos escolher a presa que estiver doente. Paradoxalmente disse que conseguiu a paz em vários conflitos ao redor do mundo, e disse que querem indicá-lo para o Nobel da paz.

 Defendeu os ataques contra Catar e Irã. Quando criticou a ONU, relembrou que sua empresa não ganhou a licitação sobre o prédio da ONU e derramou uma quantidade grande de acusações de corrupção. Praticamente confessou que suas atitudes com relação a ONU são respostas àquela licitação perdida.

Na parte final do discurso se referiu brevemente ao Brasil e enunciou a célebre frase sobre o presidente Lula, transformando a relação entre países em uma relação pessoal. Ele só faz negócios com quem gosta. Apesar do convite firmou posição quando disse: o Brasil, vai mal e só irá bem se estiver com os Estados Unidos.

Este discurso, cheio de absurdos criminosos, foi naturalizado. Editoriais de grandes jornais preferiram ignorar a barbárie embutida e se dedicaram a desconstruir o discurso de Lula.

O Estadão no editorial de 24/09/25, com um texto quase pueril, ignora Trump e mergulha no mundo dos velhos clichês, começando pelo título. ” O show ideológico de Lula”. O editor parece não saber o que é ideologia, mas usa o termo como refrão. Mais uma vez vai deturpar a posição de Lula com relação ao Hamas e vai repetir o mantra Zelensky. Na sequência o editorial mergulha nos chavões de novo: acusa Lula de ignorar a Ucrânia. Provavelmente, o editor bateu palmas para Trump, quando este se posicionou exigindo que a Rússia devolva os territórios separatistas ocupados. No atual contexto, a exigência nunca vai ser atendida e todos sabemos disto. O editor deveria perguntar ao povo de Donnetsk e Lughansk, se querem voltar para a Ucrânia. Mas o jornalismo se contenta em ficar em Kiev e o editor chama isto de preocupação legítima.

Quanto a Gaza, o problema é o termo genocídio, e o Estadão acha que a resposta ao massacre do Hamas, ainda não foi suficiente. Quantas pessoas mais, devem morrer para que o Estadão mude de posição?

Lula declarou sua admiração pelos judeus e judias que querem a paz e se opõe ao governo Netanyahu. Mas isto, sequer chegou aos ouvidos do editor que prefere alimentar a ideia de antissemitismo. Para fechar seu editorial, e rimar com o show ideológico, vai dizer que tudo no discurso de Lula revela um padrão contra as democracias ocidentais, afinal diz ele, Lula não fez críticas à Venezuela, Irã, Hamas e Putin. Isto é, o editor critica a ausência de palavras e acusa Lula de indignação seletiva. Isto é curioso, pois me parece que os editores não se indignam com a morte de mulheres e crianças palestinas. Seus editoriais continuam escrevendo, que a guerra é contra o Hamas, embora a cada dia, fica mais  patente que a guerra visa a anexação de Gaza e a expulsão de todos os palestinos. Avisem ao editor que o próprio governo israelense já perdeu o pudor e fala disto abertamente. Este editorial é um show ideológico.

No editorial é notável a ausência de qualquer análise sobre o discurso anticivilizatório de Trump. O jornal deve ter considerado o discurso tão natural que não merecia nenhuma linha. Todas as barbaridades ditas, não foram objeto de interesse do editor. Esta normalização dos absurdos trumpistas é a mãe de todo o fascismo.

O editorial da Folha tem o título, “Trump reagiu a Lula mas não deu o tom ácido que dispensou a Irã e Venezuela”- obviamente este título é mais uma repetição do mantra: Lula e seus amigos antidemocráticos.

O discursos similares de Trump, Bolsonaro, Milei e cia, saíram das profundezas e foram sendo normalizados ou naturalizados. Aparentemente o discurso de Trump é tão natural que sequer foi motivo de análise. Aparentemente ninguém se choca com os absurdos do discurso da extrema-direita e como dizem é apenas liberdade de expressão.

Se perguntarem a Trump, porque fez aquele discurso, ele responderá: eu fiz porque eu posso. Aliás tudo o que faz contra o mundo e contra a civilização, ele faz porque pode. Me choca como uma multidão, de todas as classes e níveis, defendem e normalizam as idiossincrasias de um egocêntrico narcisista. Ele discursou apenas sobre si mesmo. Até para tratar assuntos entre países o discurso é sobre ele mesmo. Ele diz que gosta de Lula e só faz negócios com quem gosta.

Porém devemos ficar atentos pois este convite pode indicar uma mudança, na estratégia de Trump. A dupla Eduardo e Paulo Figueiredo prometeram que, bastava chacoalhar para colher os frutos. Segundo os planos, criariam um caos na economia e no sistema financeiro, e os aliados do congresso proporiam a anistia e o impeachment de Lula e Xandão. Este era o sonho da derrubada de regime, tão desejada por Washington. Americanos sabem que, Lula na presidência fortalece o BRICS. O problema da dupla  da traição é que esqueceram de combinar com os russos.  Covardes e subservientes não contavam com a reação brasileira.

 Trump obviamente já sabia do julgamento de Bolsonaro e das reações ao projeto de anistia e viu, pela TV, a força e a assertividade do duro discurso de Lula. Provavelmente este combo gerou a química dos 39 segundos e o convite.
 Trump mediu e pesou antes de fazer o convite. Deve ter decidido mudar de estratégia e agora vai para a mesa de negociações. Veremos na próxima semana.

 Afora a resposta firme das instituições,  Lula, em suas viagens para o exterior, já havia aberto mercados, o que se intensificou com o tarifaço.
 O sinal de alerta deve ter soado em Washington, pois se o Brasil se voltar para outros mercados, a médio prazo, pode ser muito ruim para a economia americana e para os objetivos geopolíticos. Sem a opção de mudança de regime, os Estados Unidos tentarão jogar suas correntes econômicas para atrelar fortemente nossa economia. Se isto estiver correto, em breve proporão o fim do tarifaço e abertura de discussões para um acordo econômico. Qual o acordo? Esta é a pergunta dos bilhões.

Se isto se confirmar, Paulo Figueiredo e Eduardo se tornarão, totalmente dispensáveis e Trump, com seu jeito de Vegas de ser, poderá puni-los por não cumprirem o trato.

Frederico Firmo – Possui graduação em Bacharelado em Física pela Universidade de São Paulo (1976), mestrado em Pós-Graduação em Física pela Universidade de São Paulo (1979) e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (1987). Atualmente é professor Titular  aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina.

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