
Um golaço político e diplomático
por Celso Pansera
Agora que o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, organizam o primeiro encontro de trabalho após a retomada das negociações entre o Brasil e os Estados Unidos, vale a pena destacar o golaço político e diplomático do governo Lula na crise desencadeada pelo tarifaço de Donald Trump sobre as exportações brasileiras.
O contato entre os presidentes dos dois países na ONU, seguido da conversa telefônica entre eles, por iniciativa de Trump, mostram que sabedoria e inteligência estratégica fazem toda a diferença para um governo.
Lula, seus ministros mais próximos e o Itamaraty, com altivez e sem abrir mão em nenhum momento da soberania brasileira e da autonomia e independência de nossas instituições, deram uma sobeja demonstração de que é possível superar os obstáculos mais complexos, mesmo aqueles que são vistos por alguns como intransponíveis.
Ciente do peso e da relevância do país na cena internacional, a nossa diplomacia encontrou o ponto de equilíbrio adequado para atravessar a tormenta.
Desde que o presidente Donald Trump impôs tarifas de 50% aos produtos brasileiros e sanções a várias autoridades do Brasil, inclusive a seus parentes, além de opinar indevidamente sobre questões que dizem respeito exclusivamente ao nosso poder Judiciário, o Brasil não deixou ataque sem pronta resposta, mas sem aceitar provocações rasteiras que não levariam a lugar algum.
Contudo, a linha divisória traçada pelo Ministério da Relações Exteriores sempre foi clara: questões políticas, como o processo e a condenação do ex-presidente Bolsonaro jamais entrariam na pauta de discussões, que devia se limitar aos temas econômicos e comerciais.
Ao fim e ao cabo, acabou prevalecendo o pragmatismo dos norte-americanos, afinal inúmeros empresários brasileiros investem e exportam para os EUA, enquanto diversos capitalistas americanos têm negócios com o Brasil, em intercâmbio comercial que remonta há 200 anos.
O tarifaço levou ao encarecimento de produtos consumidos pelo mercado dos EUA em larga escala, como café e carne. A política predadora de tarifar produtos de dezenas de países vem aumentando a inflação nos EUA e impactando negativamente nos índices de crescimento da economia.
Trump ainda convive com protestos em vários estados causados por sua política de deportação em massa. No campo econômico e tecnológico, a China avança de forma extraordinária prestes a ocupar o lugar dos EUA como maior potência do planeta.
Ou seja, a ficha deve ter caído. Trump e os Estados Unidos têm problemas demais para seguir dando ouvidos aos interesses nefastos da família Bolsonaro. A reaproximação entre Brasil e EUA joga por terra a estratégia lesa-pátria de Eduardo Bolsonaro de envenenar as relações entre Brasília e Washington.
Depois de ver desmoralizada a sua ideia de jerico de monopolizar o acesso à Casa Branca, logo só restará a Eduardo Bolsonaro responder por seus crimes contra o Brasil.
E chega ser risível a crença bolsonarista de que o secretário de Estado, Marco Rubio, ativo militante da extrema direita designado por Trump para negociar com o Brasil, acabará inviabilizando o entendimento. Se tivessem alguns neurônios a mais, saberiam que Rubio faz o que Trump manda.
Celso Pansera é ex-ministro da Ciência e Tecnologia, ex-deputado federal e presidiu a Finep. Atualmente é presidente da Codemar, a empresa de desenvolvimento da prefeitura de Maricá.
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