5 de junho de 2026

Um influenciador chamado Felca e a democracia sitiada, por Fábio C. Zuccolotto

Felca faz um vídeo mostrando como funcionam (e sempre funcionaram) os algoritmos das redes sociais e a sociedade brasileira entra em choque
Felca - Instagram

Um influenciador chamado Felca e a democracia sitiada

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por Fábio C. Zuccolotto

Há poucos meses, me vi obrigado a descobrir quem era Leo Picon, para tentar entender o porquê da opinião dele, de alguma forma, ser relevante para o debate público sobre uma PEC que prevê o fim da jornada de trabalho 6×1, num país que tem também, entre tantos, o professor Ricardo Antunes, raramente convidado a falar às massas de audiência do país.

Neste novo mundo do século XXI, no qual banalidades e virtualidades milimetricamente calculadas sob as bases do individualismo, da capitalização (simbólica e financeira) e do narcisismo patológico avançam sobre a realidade dos espaços públicos e das construções sociais, a legitimidade das ideias está quase totalmente atrelada ao número de curtidas em uma postagem ou de seguidores em um perfil constituído pelas premissas mais odiosas do marketing.

Em contraste, nesta sociedade hiperconsumista da ostentação de seres humanos reificados, a precarização avassaladora do universo do trabalho, sintetizada pela terceirização desenfreada e pela uberização da vida, não por acaso, está associada à derrocada dos sentidos coletivos e da importância do reconhecimento de professores, pesquisadores e das autoridades a serem ouvidas sobre temas vitais à coletividade.

De tal forma que não nos equivocaríamos se disséssemos que, para um contingente cada vez maior de usuários da internet brasileira e mundial, uma fala de um moleque-deputado violento e ignorante como Nikolas Ferreira, com seus quase 20 milhões de seguidores, é mais relevante e mais legítima do que a do Papa Leão XIV, com seus 13 milhões. Talvez, o coach Pablo Marçal, com os seus 12,5 milhões de seguidores, tenha mais a dizer e fazer pelo futuro do Brasil e da humanidade do que o neurocientista Miguel Nicolelis, com os seus 200 mil seguidores. Será?

Na última década, uma Floresta Amazônica inteira de conhecimento acumulado pela ciência, pela filosofia e pela experiência humana foi devastada enquanto parte do projeto de sustentação de um império decadente. O negacionismo genocida na pandemia e o risco do retorno da pólio (poliomielite) no Brasil, por exemplo, são somente dois exemplos da ascensão de todo um conjunto obscurantista de discursos que configuram, no ocidente, o sensível momento que vivemos de transformação geopolítica.

Agora, um influenciador chamado Felca faz um vídeo (que bom que o fez), em 2025, mostrando simplesmente como funcionam (e sempre funcionaram) os algoritmos das redes sociais virtuais e a sociedade brasileira entra em choque, porque ele aborda os temas da pedofilia e da adultização de crianças.

CNN Brasil: “Veja ponto a ponto da denúncia de Felca contra “adultização” de crianças”.

G1: “Após vídeo sobre ‘adultização’, Motta diz que Câmara vai pautar projetos sobre crianças em redes sociais”.

Terra: “Quem é Felca, youtuber que denunciou Hytalo Santos?”.

Algo que tantos pesquisam, estudam e falam há anos, contudo sem eco algum nas mídias da cultura de massas: o modelo de negócios das Big Tech e a sua simbiose estrutural com práticas e ideologias criminosas e extremistas. Aquelas que deram vazão, na surface web, aos conteúdos que, vinte anos atrás, eram disseminados somente na deep web, naquele quinhão que posteriormente foi batizado como a dark web.

26 milhões de visualizações depois, no vídeo “revelador”, nem uma linha do influenciador e tampouco na grande imprensa que aborda o tema – com enorme apelo e potencial de gerar cliques – associa esta mesma lógica básica das redes sociais virtuais (insisto, desde sempre) à ascensão do extremismo em todas as suas dimensões nos últimos quinze anos.

Assim, a imprensa convencional, aquela que fabricou a ideia de uma “polarização” no país (entre civilização e barbárie?), utiliza-se da mesma ideologia de disseminação do medo que gera lucro e que orienta os algoritmos das redes sociais virtuais na sociedade de consumo e da ostentação. Aquela que reorganizou em nível global o neofascismo, o neonazismo, o ódio, o estímulo a chacinas em escolas, desafios, jogos mortais, mutilação, etc., para gerar audiência, pânico e capitalizou trilhões de dólares.

Sem abordarem a totalidade do fenômeno, porque se pautam por youtubers e não por pesquisadores sérios e autoridades sobre o tema, o debate morre no sensacionalismo que engaja milhões, mas emburrece, aterroriza e, na prática, pouco ou nada agrega desta comoção a campanhas públicas e massificadas de combate por uma internet regulada, democrática e mais saudável. Luta que, no Brasil, é barrada no Congresso Nacional do Centrão bolsonarista, defensor do lobby das Big Tech, porque eleito exatamente por estas mesmas dinâmicas sóciopolíticas e econômicas.

Porque no fim, para que se fizesse algo no sentido transformador deste ethos, seria preciso denunciar o jogo casado do capital desregulado e violento que organiza a pulsão de morte em corpos políticos e projetos neofascistas mundo afora. Seria preciso denunciar o ultraliberalismo e consequentemente os seus braços financeiros, especulativos, e os outros canalhas que, sob o manto do patriotismo, da moral e dos bons costumes – como temos visto com uma nitidez cristalina nos últimos dias – praticam o exato oposto do que pregam.

Aqueles para quem é natural estar no círculo íntimo do pedófilo Jeffrey Epstein, como Trump, ou que, diante de meninas de 13, 14 anos, diz com uma naturalidade assustadora que “pintou um clima”, como um ex-presidente em prisão domiciliar.

Faltando um ano para as eleições, tudo isso parece não interessar muito à bilionária grande imprensa brasileira, à enorme maioria de influenciadores milionários que formam a opinião de milhões de pessoas, nem às Big Tech, senhoras trilionárias da situação.

——

Fábio C. Zuccolotto é psicanalista clínico, cientista social e escreve no Café com Pepino.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    14 de agosto de 2025 8:17 am

    Eu acreditava que FELCA era o nome de alguma instituição ligada a assuntos relacionados a menores de idade. Então me deparei com uma foto de um sujeito com cara de vampiro desnutrido que ao que parece, FELCA é o nome dele.

  2. Fernando Bonato

    14 de agosto de 2025 10:43 am

    Nunca tinha ouvido falar deste cara. Qdo o vi, faz 4 dias, virei seguidor no youtube, onde vejo agora aguns videos “shorts” dele. O documentario eu vi até a metade. Excelente! Outros videos contras bets, excelente tb. Ele merece uma estatua, heroi nacional !

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