Vacinar nossas crianças é uma urgência sanitária e ética!, por Ana Laura Prates

Ocorre que estamos vivendo uma crise do discurso que prevaleceu durante séculos e que sustentou a ciência e a educação como dois de seus pilares principais. 

Agência Brasil

Vacinar nossas crianças é uma urgência sanitária e ética!

por Ana Laura Prates

A infância, tal como a concebemos, é uma invenção relativamente recente na história do mundo ocidental.  Sendo seres de linguagem, nossa realidade é sempre moldada por um discurso. Foram as significativas transformações econômicas, políticas e das relações entre saber e poder ocorridas na Modernidade que deram origem a certo tipo de família à qual corresponde também uma certa concepção de criança. Esse discurso que se tornou dominante – e que também é tributário da ciência moderna – criou uma espécie de “reserva” de seres humanos que deveriam ser protegidos a partir de alguns critérios como a idade e, depois, de parâmetros biomédicos, biológicos, psicológicos e pedagógicos. Esse “tempo para se educar” ofereceu um salvo conduto, inclusive da exploração do capitalismo – que é contemporâneo a essas mudanças. A infância tornou-se, assim, esse período da vida em que não é necessário produzir, ficando a cuidados de terceiros. A instituição escolar foi se consolidando como o lugar privilegiado dessa “reserva” temporal para a formação de adultos no espaço público, assim como a família no espaço privado. Lugares paradoxais, muitas vezes de opressão, mas também de proteção.

Em seu livro A polícia das famílias, entretanto, Donzelot nos mostra que essa proteção não se dá do mesmo modo na família burguesa e nas classes populares. No primeiro caso, há uma “liberação protegida”, uma espécie de “cordão sanitário” que cerca o desenvolvimento das crianças. No segundo caso ocorre, antes, uma “liberdade vigiada” produzindo técnicas de limitação e segregação. Encontramos em ambos os casos a ideia de Rousseau expressa em sua famosa obra Emílio de que a infância seria o sono da razão. Ora, é exatamente essa noção que será questionada pela Psicanálise: Freud interroga a posição da criança como objeto, seja de “correção” ou de “corrupção” partindo da premissa de que a criança é um sujeito. Assim, podemos pensar que se a criança moderna, dividida entre o sono da razão e o despertar do desejo, é uma espécie de sintoma daquele discurso, a Psicanálise o interpretou, dando, com seu discurso próprio, voz e escuta ao infantil que nos habita.

Ora, ocorre que estamos vivendo uma crise do discurso que prevaleceu durante séculos e que sustentou a ciência e a educação como dois de seus pilares principais.  Em um texto publicado nessa coluna quando da morte do menino Marcos Vinícius na Favela da Maré eu já comentava o quanto tinha me chamado a atenção a frase trágica que ele proferiu antes de morrer: “Ele não viu que eu estava com a roupa da escola?” A perplexidade de Marcos Vinícius também é a nossa: A escola já não proteje mais nossas crianças? E a família? E o Estado? Esse fato é radicalmente sintomático, como revelam alguns casos ocorridos mais recentemente, durante a Pandemia:

1)            Miguel, o filho da empregada doméstica que caiu do prédio da patroa da mãe;

2)            A menina de 10 anos cujo aborto legal de uma gestação fruto de estupro foi judicializado e espetacularizado;

3)            Os meninos de Belfort Roxo desaparecidos – e como agora se sabe assassinados por traficantes, bem como todas as crianças assassinadas pela polícia ou pelas chamadas “balas perdidas”;

4)            Henri, torturado e assassinado pelo namorado da mãe

Em relação a esse último, Bety Fux escreveu um belo texto lembrando que o menino não foi escutado, sua palavra não foi levada em conta, e que o assassinato de uma criança representa o assassinato do futuro da humanidade.

A resistência e recusa por parte do Estado brasileiro em vacinar nossas crianças deve ser inserida nessa série, e precisa ser pensada não somente como um problema sanitário da maior importância, mas fundamentalmente como um problema ético com graves consequências para nosso futuro enquanto nação. Essa questão já havia sido antecipada nos debates relativos ao fechamento ou não das escolas durante os primeiros anos da Pandemia. Ali já me chamava a atenção o binarismo não dialético das respostas quando me parecia que a grande questão deveria ser: “o que é uma escola aberta?” – questão que poderia nos provocar sobre a vocação e, aliás, o papel estratégico da escola inclusive no âmbito da saúde pública, incluindo as escolas particulares que são, como sabemos, conceção do Estado. Durante o debate sobre a abertura ou não das escolas já havíamos escutado o argumento de que a COVID-19 atingiria e mataria “poucas” crianças. O que deveríamos considerar “pouco” ou “muito” no que diz respeito à morte de crianças, sobretudo em um país que apenas em um passado recente durante as últimas décadas de governos progressistas conseguiu derrubar os índices obscenos de mortalidade infantil? Os números dizem que a COVID-19 tem sido a principal causa de morte por doenças de crianças e adolescentes no Brasil, desde 2020.  O Brasil é o segundo país no mundo em mortes de crianças por COVID-19, mesmo levando em conta a subnotificação. Em números absolutos, a COVID-19 já matou mais de 1400 crianças de 0 a 11 anos no Brasil, além de ter deixado muitas outras com sequelas. Não estamos incluindo os adolescentes nessa conta porque esses já foram incluídos na população vacinável. Além desses riscos altíssimos, é preciso levar em conta outros aspectos relativos à saúde mental das crianças, enquanto sujeitos: o medo da contaminação, do adoecimento e da morte e a culpa por ser um agente de contágio em potencial.

Esses números mostram o grau de irresponsabilidade, negligência e negacionismo que sustenta as decisões relativas à saúde pública nesse (des)governo e seus representante, como o Ministro da Saúde que afirmou que “os óbitos de crianças estão dentro de um patamar que não implica em decisões emergenciais”. Mas sabemos que não se trata apenas de ignorância ou fundamentalismo e sim de uma necropolítica deliberada, que escolhe quais são os corpos matáveis e passíveis de morte. Sabemos: crianças racializadas e vulnerabilizadas pela classe social à qual pertencem. Aliás, essas raramente experimentam o papel protetor das instituições; ao contrário, com frequência são destituídas de sua condição de criança e são criminalizadas, a exemplo  das recorrentes investidas em favor do rebaixamento das maioridade penal. Mas agora, a radicaliade do atual governo, mais uma vez, como tem acontecido desde o início da Pandemia, está a serviço do genocídio. O que escapa do cálculo do tirano, entretanto, é que o Pandemia tem sua própria lógica, a qual ele não domina, e que ao negar a condição de sujeitos de direito e desejo às nossas crianças, ele está comprometendo simbolicamente nosso futuro coletivo, atacando um dos marcos civilizatórios conquistados pela Modernidade. A “reserva” da infância está ameaçada. A casa, a escola e o Estado – a Pandemia evidenciou esse fato – já não representam mais a proteção – ainda que ilusória e por muitas vezes paradoxal. Não é mais a liberdade que está sendo ameaçada, mas a própria vida e, portanto, nosso futuro! Reafirmo: Vacinar nossas crianças não é apenas uma urgente necessidade sanitária, mas é, fundamentalmente, uma questão ética! Nós, psicanalistas, que tomamos as crianças como sujeitos, precisamos seguir com a firme decisão de interpretar esse sintoma, e seguirmos escutando as crianças em nossos consultórios, nos abrigos, nos hospitais, nas escolas, na rua. Para isso, entretanto, é preciso que elas estejam vivas!

Ana Laura Prates – Possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1989), mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (1996), doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (2006) e Pós-doutorado em Psicanálise pela UERJ (2012).

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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