Venezuela, hoje, Cuba, ontem, e o comportamento das esquerdas no Brasil, por Roberto Bitencourt da Silva

A demonização cotidiana da experiência política bolivariana é moeda corrente nos meios massivos de comunicação

Venezuela, hoje, Cuba, ontem, e o comportamento das esquerdas no Brasil

por Roberto Bitencourt da Silva

O chavismo, no curso dos últimos 20 anos, venceu contínua e sistematicamente todos os pleitos presidenciais, envolvendo aí entre 51% e 65% dos votos. Essas eleições e outras tantas mais, como as parlamentares ou plebiscitos e referendos. Com efeito, a legitimidade do presidente Nicolás Maduro e, portanto, do governo constitucional e soberanamente constituído da Venezuela, em nenhuma hipótese, pode(ria) ser questionada.

O golpismo, levado a cabo por burguesias e oligarquias domésticas, e patrocinado pelos EUA, assombra o país coirmão há 20 anos. A demonização cotidiana da experiência política bolivariana é moeda corrente nos meios massivos de comunicação. O real objetivo de tal demonização e do golpismo subjacente é o afã imperialista dos Estados Unidos em se adonar, criminosamente, do ouro negro que é o petróleo venezuelano (1). Todas essas rudimentares informações deveriam ser de notório conhecimento na sociedade brasileira. Mas, não é. 

A respeito, o que mais chama a atenção no Brasil, não é o posicionamento político apresentado pelas classes dominantes, internas e multinacionais, pelos veículos corporativos de comunicação e por alguns empedernidos reacionários entreguistas. Não. Nessas hostes, o ódio é declarado ao chavismo, aos seus esforços de exercício da soberania nacional, de controle nacional sobre a renda dos recursos do petróleo, de distribuição de renda e alargamento da participação política popular. Um ódio que não surpreende.

O que definitivamente salta aos olhos é a enorme hesitação política das forças ditas populares e de esquerda. Um misto de incompreensão, de desinformação, de estigmas transplantados em mentes docilmente colonizadas, promovem um terreno desfavorável à realização, até hoje, de efetivas e amplas campanhas de esclarecimento político, de solidariedade à Venezuela. Entre dilatados segmentos sociais, partidos e personagens reconhecidos como afinados com o universo progressista brasileiro, mesmo hostilidades em face da experiência chavista são comuns. No momento em que uma potencial e criminosa guerra está às nossas portas, essa lacuna, indiferença e hostilidade política chama a atenção. Cobrará um alto preço.

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Nos setores progressistas, nas esquerdas, entre os movimentos populares, não se vê, nessas duas décadas de governo chavobolivariano – com todas as vicissitudes, pressões e agressões internacionais por este sofrido – a promoção de qualquer organismo coletivo, mobilização ou posicionamento expressivo a favor da soberania do país vizinho. Qualquer gesto dotado de relevo em solidariedade ao governo e aos movimentos de inspiração chavista. Isso não é gratuito. Muito menos a incompreensão absoluta do nosso povo a respeito do tema. Importante frisar: de relevo, efetivo e expressivo. Não me refiro a iniciativas individuais e coletivas isoladas ou a cargo de abnegados/as, numericamente pequeninos/as.

Há mais de 50 anos, demonstrando fenômeno político diametralmente oposto, a Revolução Cubana era recepcionada e ardorosamente defendida no Brasil (2), pelas esquerdas (trabalhistas, socialistas, comunistas, católicas), pelo amplo leque de nacionalistas civis e militares e pelos movimentos populares, sindicais e estudantis. Campanhas sistemáticas de esclarecimento popular eram desenvolvidas, de modo a repercutir na agenda pública a importância da questão cubana para os rumos e destinos brasileiros. Na política institucional, nas ruas, nos jornais estudantis, sindicais, partidários, esquerdistas, nacionalistas etc.

À época, as esquerdas brasileiras e os revolucionários cubanos apresentavam traços de profunda identificação política, perceptível igualmente no vocabulário. Ambos comungavam, ao menos, duas significativas práticas e visões: de um lado, a concepção antiamericana, um nítido ingrediente antagônico, que identificava nos EUA fonte de guerras e exploração internacional dos países periféricos, subdesenvolvidos e do “Terceiro Mundo”. De outro, a defesa de uma unidade de destino latino-americano, sob a base do reclamo pelo respeito ao direito internacional, ao princípio da autodeterminação dos povos, às soberanias de todos os nossos povos e o estreitamento de laços de solidariedade política e integração econômica.

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Nada, absolutamente nada, que se assemelhe à combinação de semi-indiferença, hostilidade e estranhamento, predominante ainda hoje em relação à Venezuela. Oportuno recordar uma frase recorrente, cerca de 60 anos atrás: “Primeiro, os EUA invadem Cuba, depois o Brasil será o alvo”… Observação que merece ser adaptada aos nossos dias e motivo de reflexão.

Nesse sentido, visando gerar um grau de sensibilidade mais encorpado em torno das terríveis dificuldades sofridas e a serem incrementadas contra a Venezuela, faz-se necessário lembrar a grossa parte das nossas esquerdas – em boa medida, marcadas por um marxismo abstrato, descarnado, não submetido a devidas adaptações à realidade do mundo extraeuropeu – que o capitalismo hierarquiza e estabelece relações de domínio e espoliação não somente entre:

  1. a)       Trabalho e capital.
  1. b)      Devedores e credores.

Mas, também, em conformidade com a moldura da divisão internacional do trabalho,

  1. c)       Povos de países periféricos, subalternos, de economia marginal e complementar, os “proletariados externos”, e países centrais – as potências detentoras de poder, mando na ordem internacional, que perseguem o monopólio tecnológico e o controle mundial dos recursos naturais.

Essa terceira modalidade hierarquizante descrita é operacionalizada e mantida pelo imperialismo. Algo alheio às categorias de percepção de muitos. O que, hoje, corresponde a uma obtusidade intelectual, portadora de graves consequências políticas.

Notadamente em contexto caracterizado por aquele que é o governo mais subserviente já visto aos EUA, mais nocivo à nossa Pátria, cuja mentalidade lacaia de colonizado do presidente Jair Bolsonaro e da sua tosca, reacionária e entreguista equipe, só tende a nos levar para o precipício de uma guerra insana, almejando, irresponsavelmente, favorecer os EUA às custas do Povo Brasileiro e dos nossos incontornáveis laços remotos e de destino sul-americano.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

Consultar matéria traduzida e disponibilizada pela webpágina no Facebook Televisão do Mundo:https://www.facebook.com/watch/?v=352101015409753

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Ver: http://e-revista.unioeste.br/index.php/temposhistoricos/article/view/15633

 

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8 comentários

  1. Assino embaixo. Penso que as esquerdas até têm ciência dos fatos, mas fingem que não sabem. Preferem o conforto propiciado pelas instituições, a acomodação do “republicanismo”. Mas chegamos a um ponto da história em que não será mais possível empurrar com a barriga. Ou escolhem um dos lados ou desaparecem.

  2. “Um misto de incompreensão, de desinformação, de estigmas transplantados em mentes docilmente colonizadas, promovem um terreno desfavorável à realização, até hoje, de efetivas e amplas campanhas de esclarecimento político, de solidariedade à Venezuela. Entre dilatados segmentos sociais, partidos e personagens reconhecidos como afinados com o universo progressista brasileiro, mesmo hostilidades em face da experiência chavista são comuns. No momento em que uma potencial e criminosa guerra está às nossas portas, essa lacuna, indiferença e hostilidade política chama a atenção. Cobrará um alto preço.”

    Obrigado por este parágrafo. Sério!

    O alto preço é uma passagem só de ida à lata de lixo da História. Todos esses falsos democratas que, por anos e anos a fio, vilipendiaram o chavismo (cujo “crime” imperdoável foi o mesmo do lulismo: incluir o pobre na equação) terão as mãos sujas de sangue.

  3. Artigo muito bom.

    E incompreensão, desinformação e estigmas transplantados em mentes docilmente colonizadas não se restringem à questão da Venezuela. A incapacidade da esquerda, no geral, de se posicionar frente ao neoliberalismo e imperialismo na economia e na geopolítica é assustadora.

    Da carta aos brasileiros, da entrega da área econômica ao mercado, da ausência de uma reação à espionagem da NSA, do “golpe é uma palavra um pouco dura”, do “bom trabalho de Sérgio Moro na Lava Jato”, da recusa de construir a resistência popular, da renúncia de centrar as campanhas eleitorais nos temas econômicos e socais, às ilusões do “pacto civilizatório” com o próprio golpismo (!), a esquerda mostrou-se totalmente incapaz de enfrentar a ofensiva neoliberal/imperialista. Restou a defesa das políticas identitárias, que, evidentemente, pouco motivaram o povo.

    Fomos massacrados por gente mais preparada e decidida. Simples assim.

    Embora esse quadro melancólico esteja mudando, pois os poucos uma resistência mais informada está a ser construída, a restauração da democracia e da soberania dificilmente resultará da ação da esquerda. O que realmente pode mudar o quadro, são as crises econômicas (interna e externa) e geopolítica (China e Rússia vs EUA). Mais uma vez, dependeremos muito mais do curso dos acontecimentos internacionais e das contradições do modelo neoliberal do que das nossas capacidades.

  4. Tanto agora quanto há cinquenta anos as nossas esquerdas, após um breve despertar e demonstração de latência, como acaba de acontecer, estão paralisadas pelo sempre terror imposto pelas armas do imperialismo.
    No breve tempo dos anos 60 até o final do decênio, as esquerdas estiveram com Cuba mesmo sob a constante demonização do “comunismo”, da “ameaça russa”, do pavor das elites com a “socialização” forçada de suas propriedades, até que a mão de ferro dos governos militares no continente calaram as bocas apoiadoras de Cuba e as colocaram na clandestinidade.
    O terror voltou com a excelência de sempre.
    E sabemos, quando não faz correr, o terror paralisa.
    Não creio, portanto, que devamos cobrar das esquerdas mais do que sua capacidade de articulação, sob pena de sua total extinção, como sói acontecer nos regimes totalitários.
    O império não descansa.

  5. Caro Roberto Bitencourt da Silva,

    Há tempos já que acompanho seus artigos, sempre lúcidos, no GGN. Este seu artigo sobre a Venezuela e as esquerdas no Brasil é MUITO BOM!Obrigado pelo excelente texto.

  6. Na questão da “ajuda humanitária” é chocante que partidos ditos de esquerda, à exceção do PSOL, não emitiram uma nota sequer em apoio ao povo venezuelano e contra o imperialismo, com destaque para o PT, por ser o maior. A visão eleitoreira desses partidos parece acreditar que não devam apoiar causas que possam afetar sua imagem

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