10 de junho de 2026

A guerra de Israel ao Irã: o triunfo do militarismo e seus limites, por Paulo G. H. da Rocha Pinto e Gisele F. Chagas

A incapacidade da comunidade internacional em deter as ações genocidas de Israel levou à uma escalada bélica na região.
Morteza Nikoubazl - Nurphoto - Reprodução

A guerra de Israel ao Irã: o triunfo do militarismo e seus limites

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por Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto e Gisele Fonseca Chagas

O Oriente Médio passa atualmente por processos profundos de reconfiguração política marcados pelo crescente militarismo agressivo de Israel contra seus oponentes regionais e a população palestina em Gaza e na Cisjordânia. A guerra israelense contra Gaza, iniciada em outubro de 2023,  se configurou de forma cada vez mais explícita como um genocídio contra a população civil palestina, enquanto que os palestinos da Cisjordânia são alvos de violência sistemática por parte do exército de Israel e dos colonos judeus. A incapacidade da comunidade internacional em deter as ações genocidas de Israel levou à uma escalada bélica na região.

Após diversos ataques contra o Líbano, Israel partiu para uma guerra aberta contra o Hezbollah em setembro de 2024. Os ataques israelenses ao território libanês destruíram boa parte do poderio bélico do Hezbollah e provocaram a morte e o deslocamento interno de milhares de pessoas. Além disso, a cúpula dirigente do Hezbollah foi eliminada em bombardeios e ataques de drones pelo exército israelense, com o próprio líder do movimento, Hassan Nasrallah, sendo morto em setembro de 2024. Esses ataques enfraqueceram a capacidade operacional e organizacional do grupo, privando assim o Irã de um aliado chave na região.

Diante desse quadro, Israel viu-se numa posição de vantagem estratégica em relação ao Irã, que perdeu outro importante aliado regional com a queda do regime ba’athista na Síria em dezembro de 2024. Assim, o governo israelense reativou o discurso alarmista da necessidade de uma intervenção militar diante da suposta iminência do Irã em construir uma bomba nuclear.

 Cabe ressaltar que Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, repetia esse discurso desde 2012 na tentativa de pressionar o governo norte-americano para realizar um ataque às instalações nucleares iranianas. Apesar da pressão israelense, os Estados Unidos viam um ataque direto ao Irã como uma ação de alto risco, com possíveis consequências de desestabilização para a região. Em 2015, o Irã havia entrado em um acordo com os Estados Unidos e países europeus, segundo o qual ele limitaria o enriquecimento de seu urânio sob supervisão internacional em troca do fim das sanções econômicas impostas a ele.

Em 2018, o governo Trump retirou os Estados Unidos do acordo e as sanções nunca foram levantadas. Relatórios recentes da Agência Atômica Internacional afirmaram que o Irã não estava cumprindo as especificações do acordo ou cooperando com os observadores internacionais, embora não estivesse próximo a conseguir construir armas nucleares. Em 2025, já no segundo governo Trump, houve a retomada das negociações entre os Estados Unidos e o Irã com vistas a um novo acordo sobre o programa nuclear iraniano.

Atenção midiática

O ataque israelense ao Irã em junho de 2025 visava impedir a realização deste novo acordo, o qual traria uma solução diplomática para a questão, frustrando os planos militares do governo israelense. Além disso, outros fatores influenciaram a tomada de decisão israelense pelo ataque militar: a crescente consciência e indignação internacional a respeito do genocídio em Gaza, que levou a um relativo isolamento político de Israel e o aumento da mobilização pró-Palestina na opinião pública global. Um ataque contra o Irã, embora em violação às leis internacionais, desviaria a atenção da mídia para longe do genocídio em curso em Gaza.

Efetivamente, os bombardeios às instalações nucleares iranianas ocuparam a atenção da mídia internacional por algum tempo. Da mesma maneira que nas outras operações militares israelenses, os ataques não se limitaram a alvos militares ou diretamente ligados ao Programa Nuclear, incluindo áreas residenciais em grandes centros urbanos, como Teerã, que gerou centenas de vítimas civis. O apoio internacional às ações israelenses, apesar destas estarem em contradição com a legislação internacional e com os próprios esforços diplomáticos norte-americanos e europeus, levou o governo israelense a declarar ambições maximalistas para a operação militar, tais como uma “mudança de regime” no Irã.

Essa ampliação dos objetivos da guerra levou a um maior bombardeio de áreas civis visando eliminar elementos do establishment político e militar iraniano. Mesmo símbolos do caráter repressivo da República Islâmica, como a prisão de Evin, foram bombardeados e o governo israelense conclamou a nação iraniana a se sublevar contra a ordem política. A população iraniana, inclusive os opositores à ordem política, viram com horror esses ataques, deixando claro que querem mudanças por vias políticas próprias, rejeitando a ideia de uma “salvação” militar por parte de potências estrangeiras, no modelo da invasão americana do Iraque.

Sociedade dividida

A República Islâmica do Irã é um sistema de governo bastante complexo que emergiu das lutas e embates entre as diferentes forças políticas que compuseram a Revolução Iraniana de 1979. O Estado iraniano é organizado de modo a impedir a concentração de poder em uma única instância política, expressando assim a rejeição à monarquia derrubada pela Revolução. A República é liderada pelo presidente e pelo parlamento, que são eleitos por voto universal e que governam o país, assim como pelo Líder Supremo, que é o chefe de Estado e das Forças Armadas, que é eleito pela Assembleia dos Peritos, cujos membros também são eleitos por voto universal. Além disso, existe o Conselho dos Guardiães, que supervisiona o caráter constitucional e islâmico das leis aprovadas pelo parlamento, cujos membros são eleitos ou indicados pelo parlamento e pelo Líder Supremo.

O fato das estruturas de governo e parte das estruturas do Estado serem escolhidas através do voto universal fez com que houvesse um grande investimento da sociedade iraniana no processo eleitoral, onde dois campos políticos (reformistas e conservadores) disputavam votos. No entanto, a incapacidade dos reformistas em darem respostas duradouras às demandas econômicas, políticas e culturais da sua base eleitoral levou à desilusão de grandes setores da sociedade em relação à capacidade da República Islâmica se reformar. Isso ficou cada vez mais visível nos protestos massivos que mobilizaram a sociedade iraniana contra seu Estado, tais como o movimento da “Onda Verde” em 2019 e os protestos desencadeados pela  morte de Mahsa Amini, jovem curda assassinada pela polícia moral pelo seu uso “incorreto” do hijab, em 2022.

 Embora a República Islâmica enfrente descontentamento de boa parte da população, ela também possui sua base política entre comerciantes tradicionais e grupos economicamente desfavorecidos em áreas rurais e urbanas. Assim, o Irã possui uma sociedade dividida, com diferentes forças disputando o poder em cada um dos campos políticos, dentro de um quadro institucional funcional, o que faz com que a ideia de mudança de regime através da decapitação do Estado capitaneada por Israel seja uma ilusão militarista voltada a justificar a sua agressão militar.

Saldo ambíguo

Rapidamente, a solução militar israelense mostrou seus limites. Incapaz de destruir as principais instalações nucleares, assim como de desencadear processos políticos no Irã e alvo de ataques iranianos a seu território que, embora limitados, produziram destruição e mortes de civis, Israel aumenta sua pressão sobre o governo americano para uma intervenção deste a seu favor. O presidente Trump cede às pressões, sob o risco de alienar parte de sua base eleitoral comprometida com o isolacionismo norte-americano, e realiza um ataque às instalações nucleares iranianas, e logo pressionou as partes para um cessar-fogo.

 O saldo da guerra foi ambíguo o suficiente para todas as partes reivindicarem vitória, embora claramente o Irã tenha saído diminuído na geopolítica do Oriente Médio. Os Estados Unidos, embora militarmente vitoriosos, saem com seu status geopolítico também diminuído diante de sua vulnerabilidade às pressões israelenses. Israel, apesar de sair fortalecido na geopolítica regional, teve sua dependência em relação ao poderio bélico norte-americano exposta de forma dramática. Para além disso, a política belicista israelense em relação aos seus oponentes regionais ganhou força tanto no governo quanto na sociedade israelense, pois a vitória militar imediata oculta, ao invés de solucionar, os problemas políticos gerados pela ocupação colonial dos territórios palestinos e os sistema de apartheid vigente em Israel que estão na raiz dos conflitos.

Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto é antropólogo e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). É coordenador do Núcleo de Estudos do Oriente Médio vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA-UFF) e pesquisador associado ao Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INCT-InEAC).

Gisele Fonseca Chagas é antropóloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF). É vice-coordenadora do Núcleo de Estudos do Oriente Médio vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA-UFF).

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INCT - InEAC Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos

Há mais de 15 anos, o Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC-UFF) vem trabalhando com pesquisas sobre a diversidade das formas institucionais de administração de conflitos nos diferentes âmbitos dos sistemas de Segurança Pública e de Justiça Criminal. Os trabalhos são produzidos através de uma rede nacional e internacional de programas de Pós-Graduação, grupos de pesquisa e de pesquisadores espalhados por sete estados do Brasil e nove países. Esta coluna se relaciona com os esforços dessa rede em refletir sobre temas da pauta política e social brasileira, visando a contribuir com o debate público e difundir ciência para fora dos muros da universidade.

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