As negociações entre os Estados Unidos e o Irã para encerrar o conflito no Oriente Médio avançaram neste fim de semana, com sinais de progresso na elaboração de um memorando de entendimento. Apesar dos avanços em temas centrais, o governo iraniano afirmou nesta segunda-feira (25) que a assinatura de um acordo final ainda não é iminente, expondo divergências profundas sobre o cronograma de concessões mútuas.
Em Teerã, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, confirmou que houve avanços em diferentes frentes das tratativas, mas relativizou o otimismo demonstrado por Washington — que chegou a afirmar que um acordo poderia ser fechado ainda nesta segunda. “Não há nenhuma garantia de que os Estados Unidos cumprirão seus compromissos”, declarou Baghaei durante coletiva de imprensa.
A instabilidade na retórica da Casa Branca tem sido apontada pelo governo iraniano como um dos principais entraves nas negociações. Segundo Baghaei, Teerã tem acompanhado mudanças frequentes nas posições adotadas pelo governo de Donald Trump. “Em poucas horas, você se depara com posições completamente diferentes e, em muitos casos, contraditórias”, afirmou o porta-voz, acrescentando que esse comportamento “cria problemas para qualquer processo de negociação”.
Cronograma nuclear em xeque
O principal ponto de embate reside na inclusão do programa atômico nesta fase das conversas. Enquanto Washington exige o encerramento definitivo do projeto nuclear de Teerã como condição para o cessar-fogo, os diplomatas iranianos rebatem a exigência. O entendimento de Teerã é que o foco atual deve se restringir ao fim das hostilidades em todas as frentes, incluindo o Líbano, onde Israel enfrenta o Hezbollah, e ao levantamento do bloqueio naval norte-americano.
O diplomata Hossein Noushabadi, diretor do Ministério das Relações Exteriores do Irã, classificou como “pura fabricação” os rumores de que o país aceitaria uma suspensão de 20 anos no enriquecimento de urânio. Segundo ele, as reservas de urânio altamente enriquecido só serão debatidas em um segundo momento, estipulado em até 60 dias, sob exigências estritas: suspensão total de sanções, liberação de dezenas de bilhões de dólares em ativos iranianos congelados no exterior e retirada das tropas dos EUA da região.
Por outro lado, fontes do governo norte-americano relatam que o líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, teria dado aval a um esboço geral que prevê a entrega do estoque de urânio enriquecido em troca do fim do bloqueio econômico.
O fator Trump e a retórica de Washington
A posição dos EUA oscilou ao longo do fim de semana. No sábado (23), o presidente Donald Trump afirmou que os países haviam “negociado em grande parte” um acordo de paz. Horas depois, adotou um tom belicoso, ameaçando os iranianos caso o consenso não fosse atingido até o domingo (24).
Já em nova publicação na rede social Truth Social, Trump mudou a postura e afirmou ter orientado seus representantes a não se precipitarem, argumentando que as negociações progridem de forma ordenada e que o tempo joga a favor de Washington. Na postagem, ele atacou a oposição e relembrou o pacto assinado em 2015:
“Se eu fizer um acordo com o Irã, será um bom e adequado, diferente daquele feito por Obama, que deu ao Irã grandes quantias de DINHEIRO e um caminho claro e aberto para uma arma nuclear. Nosso acordo é exatamente o oposto, mas ninguém o viu ou sabe o que é. Ele nem mesmo está totalmente negociado ainda. Então não dê ouvidos aos perdedores, que criticam algo sobre o qual não sabem nada. Diferentemente daqueles que vieram antes de mim e que deveriam ter resolvido esse problema muitos anos atrás, eu não faço maus acordos!”
A reação em Teerã foi imediata. O porta-voz do Parlamento iraniano, Ebrahim Rezaei, rebateu a manifestação na rede social X. “Não acreditem no blefe do presidente derrotado, o tempo corre contra os americanos“, afirmou Rezaei, acrescentando que “se eles [os EUA] querem um acordo, que negociem; se querem gasolina a 6 dólares, que fiquem parados e blefando até que nasça grama sob seus pés.“
Logística no Estreito de Ormuz
A reabertura do Estreito de Ormuz, bloqueado desde abril após a escalada das hostilidades iniciadas em fevereiro, surge como a contrapartida imediata para o alívio das sanções econômicas. O canal é o principal corredor marítimo para o escoamento de energia do planeta, respondendo por cerca de 20% das remessas globais de petróleo e gás natural liquefeito antes do início do conflito.
Embora o Irã descarte a cobrança de um “pedágio” formal para restabelecer a livre navegação na passagem que divide com Omã, o governo sinaliza que haverá custos operacionais envolvidos. “Qualquer país responsável acolheria com satisfação a criação de um mecanismo confiável e previsível para gerenciar o trânsito e a navegação pelo Estreito de Ormuz“, afirmou Baghaei, pontuando que é “normal que os serviços prestados tenham um preço“, referindo-se a atividades de proteção ambiental e segurança marítima.
Em Nova Déli, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, manteve o tom de otimismo sobre o desfecho das tratativas que, segundo ele, poderão ser destravadas nesta segunda, mas ainda assim evitou dar o processo por encerrado. “Temos o que eu acho que é algo bastante sólido na mesa em termos de capacidade de abrir os estreitos“, disse Rubio, ressaltando que a diplomacia terá prioridade antes que Washington explore “alternativas“.
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