Israel e a instrumentalização da noção de “Povo Eleito”: comentário de Antonio Uchoa Neto

O povo eleito de Deus não pode ser atacado nem criticado, sejam lá quais forem as causas e razões. Só isso pode explicar a irracionalidade das manifestações de Israel

Primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu. | Imagem: Captura de tela/Reprodução de vídeo/X

Comentário ao post Lula compara Guerra em Gaza a atuação de Hitler; Israel pede explicações

por Antonio Uchoa Neto

Não é apenas a instrumentalização do antissemitismo que faz do atual governo israelense e sua política de “segurança” uma entidade odiosa. É a instrumentalização de algo profundamente entranhado na alma de seus extratos mais fundamentalistas e conservadores, a noção de “Povo Eleito”.

O povo eleito de Deus não pode ser atacado nem criticado, sejam lá quais forem as causas e razões dos ataques ou críticas. Só isso pode explicar a irracionalidade explícita das manifestações do governo de Israel, que ignora por completo a realidade de um genocídio que perdura há mais de setenta anos, variando apenas no grau de intensidade e explicitude de seus propósitos, ou seja, varrer da face da terra seus inimigos.

Se os palestinos recorrem ao terror, não fazem mais que emular todos os povos da história do mundo que foram submetidos a ocupação ou ataques, como os próprios judeus o fizeram, desde o tempo dos zelotes, até aqueles que explodiram o Hotel King David em 1946. A rigor, não era isso – eliminar os judeus da face da terra – que pretendia Hitler, como o próprio Netanyahu parece ter declarado, às vésperas de uma visita a Alemanha em 2015.

Os nazistas estavam de olho nos bens e propriedades dos judeus, para fins de expropriação e financiamento de sua máquina de guerra, mas essa é uma outra história. E quem se deu mal nessa foram os judeus pobres, o famoso dono ‘do lojinha’, e não os ricaços de nomes opulentos e bens mais opulentos ainda, que tinham como safar a própria pele. É esse outro judeu, o pobre, o despossuído, morador de guetos, que sofreu séculos de perseguição e humilhações, pogroms e massacres.

O judeu que apoia o genocídio é descendente daqueles judeus que se alinharam ao nazismo, e que Hannah Arendt expôs em seu livro sobre Eichmann, sofrendo, naquela ocasião, a mesma sorte de acusações que hoje se fazem a qualquer um, de Roger Waters a Lula, que ouse criticar Israel.

Se isso for verdade: Territórios palestinos têm gás e petróleo que podem gerar centenas de bilhões de dólares, talvez explique alguma coisa, e torne inteligível o genocídio. Se não for, então só nos resta dar a César o que é de César: o que impulsiona o governo de Israel é o ódio, por mais que eu tenha, particularmente, dificuldades em acreditar que a mobilização de tamanhos recursos, em armas e dinheiro, seja creditável a algo tão banal quanto o ódio gratuito.

Prefiro acreditar que os americanos e o atual governo de Israel estão de olho é nos lucros futuros que o extermínio dos palestinos poderão gerar.

Viva os palestinos, viva os judeus pacifistas. Guerra dá lucro!!

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