O terrorismo repugna, mas a ofensiva contra a ocupação israelense é legítima, por Luis Felipe Miguel

A história é de anexação de territórios e muita violência. A Faixa de Gaza é um grande campo de concentração

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O terrorismo repugna, mas a ofensiva contra a ocupação israelense é legítima

por Luis Felipe Miguel

É difícil simpatizar com o Hamas – um movimento de caráter fundamentalista, que afirma que “o Corão é a nossa constituição”.

E o terrorismo, fazendo vítimas civis indiscriminadamente, é sempre repugnante. O sofrimento que causa não pode ser ignorado.

Mas não é possível não tomar lado a favor dos palestinos, vítimas há décadas da agressão israelense.

Israel é um Estado terrorista. O que pratica contra o povo palestino tem nome: genocídio.

A fundação do Estado de Israel, em 1948, passou pela expulsão de 750 mil palestinos de suas terras – nas palavras do historiador Ilan Pappé, um israelense crítico de seu país, um processo de “limpeza étnica”, para retirar os indesejados de seus territórios.

Desde então, a história é de anexação de territórios e muita violência. A Faixa de Gaza é um grande campo de concentração – Israel mantém um severo bloqueio contra o território, impedindo o trânsito de pessoas e de produtos. Faltam suprimentos, falta energia elétrica, falta água. Ataques “preventivos” ou “retaliativos” contra civis são frequentes.

É fácil condenar a violência do Hamas. As imagens são mesmo chocantes.

Mas a causa é a violência do opressor – isto é, de Israel. Os palestinos lutam desesperadamente para romper a pasmaceira da comunidade internacional e chamar a atenção sobre sua situação.

(E talvez não custe lembrar que o Hamas era um grupo irrelevante até que Israel decidiu financiá-lo, com o objetivo de enfraquecer a esquerda laica e criar discórdia entre os palestinos.)

Quando a indignação é seletiva, como na imprensa que recrimina o terrorismo do Hamas mas não é capaz de definir o Estado de Israel com os adjetivos certos (terrorista, racista, genocida), parece que aos palestinos não cabe outra alternativa que aceitar passivamente tudo o que sofrem.

Na primeira metade do século passado, a condenação ao nazismo e a solidariedade com suas vítimas formavam um imperativo moral absoluto, com o qual não era possível tergiversar.

Hoje, o repúdio ao expansionismo de Israel e a defesa da liberdade, da dignidade e da autonomia da Palestina traçam uma linha divisória que separa quem de fato defende os direitos humanos de quem transaciona com eles.

Que a ofensiva palestina iniciada anteontem sacuda a consciência do mundo e contribua para frear a truculência israelense – único caminho possível para a construção da paz.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Luis Felipe Miguel

2 Comentários

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  1. Assisti há poucos minutos, uma reportagem de um tele jornal sobre a situação calamitosa vivenciada pelos palestino que sobrivivem a duras penas na faixa de Gaza. Pena que os palestinos de Gaza não sejam israelenses, para que a imprensa ocidental tenha pena deles.

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