por Izaías Almada
…peço licença ao amigo leitor para reproduzir um artigo que escrevi HÁ DEZ ANOS e que, como muitíssimos outros poderiam ser escritos nos dias que estamos vivendo no Brasil e no mundo.
O texto comprova por um lado a desfaçatez de um país que se julga polícia do mundo, os Estados Unidos da América, e por outro a ingenuidade ou a cretinice daqueles que não querem enxergar o que se passa à sua volta, sobretudo agora que foi aberto entre nós o manicômios institucional, possibilitando a fuga de vários internos, muitos deles reunidos no ministério formado pelo governo eleito em outubro passado.
Mas vamos ao artigo escrito, repito, em 2008:
Se alguma dúvida existia, para muitos de nós, do papel da mídia no jogo internacional do poder, na estratégia adotada pelo capitalismo neoliberal em manter suas conquistas a qualquer preço e subjugar aqueles que não leem na sua cartilha, essa dúvida deixa de existir quando se analisa friamente os últimos acontecimentos desta semana na fronteira entre o Equador e a Colômbia.
Um país conturbado há sessenta anos por uma luta político-militar interna, onde mais de 20 mil insurgentes em armas, FARC e ELN, disputam o poder com os sucessivos governos eleitos pela oligarquia. A Colômbia viu, em poucas horas, cair por terra a máscara de país democrático e legalista. E como sua política é determinada fora de suas fronteiras ou, provavelmente, em algumas embaixadas de Bogotá, uma delas em especial, deixou a nu a estratégia adotada por todos aqueles que não querem a paz interna no país. Ou, pior ainda, que precisam conflagrar a região, ampliar o conflito, com propósitos diversionistas, desviando a atenção para encobrir aquilo que interessa ao Departamento de Estado norte-americano.
Senão vejamos trecho de um relatório feito ao presidente Bush em 30 de julho de 2001 pelo National Energy Police Report e publicado pelo jornal The Nation: “os EUA necessitam garantir para os próximos anos o fornecimento seguro, estável e barato do petróleo”. O relatório avalia que três regiões no mundo têm que ser consideradas nessa perspectiva: o Golfo Pérsico, a Ásia Central e o Arco Amazônico andino, leiam-se Venezuela, Colômbia e Equador. Há, contudo, um significativo parágrafo na recomendação a Bush: “Caso não se consiga o petróleo por meios diplomáticos, devemos introduzir na matéria o nosso aparato militar”.
Golfo Pérsico, Irã e Iraque; Ásia Central, Afeganistão. Aqui, como se sabe, falharam os “meios diplomáticos”. O Arco Amazônico andino, contudo, está localizado no “quintal”, o que não deveria causar maiores embaraços, mas surgiram aqui dois empecilhos: o primeiro, Hugo Chávez, e mais recentemente Rafael Correa. O tradicional golpe de estado foi tentado contra Chávez em 2002, mas também não deu certo.
Ideias de soberania, independência, mercados comuns e construção de alternativas energéticas vão ganhando força entre países como Argentina, Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua, Cuba. Cria-se a Telesur, a ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas) em oposição à falecida ALCA, o Banco do Sul, a Petrocaribe, onde países pobres caribenhos podem comprar petróleo da Venezuela a preço mais barato. Um pouco de solidariedade invade os números frios do comércio feito de trocas que só beneficia um dos lados, o mais rico.
Preocupado com os conflitos militares no Iraque e no Afeganistão, com as ameaças ao Irã, com a manutenção de Israel como Estado polícia no Oriente Médio, os Estados Unidos da América perceberam que, a rigor, contam apenas com um governo totalmente submisso na América do Sul: a Colômbia. E talvez já não contem aqui no seu antigo quintal só com os “meios diplomáticos” para conseguir o seu petróleo seguro e barato.
Como explicar para o mundo que a invasão do território do Equador pelas Forças Armadas da Colômbia, a que se pretendeu dar um caráter de surpresa, era uma ação preventiva de defesa do território colombiano? E apresentar rapidamente como prova alguns documentos “recuperados” do laptop de um líder guerrilheiro, onde se inferia que 300 milhões de dólares foram dados por Hugo Chávez às FARC, que os guerrilheiros iriam comprar 50 quilos de urânio, que Rafael Correa e Chávez tinham acordos secretos com as FARC, um vídeo onde um soldado, em plano muito fechado, conta dólares supostamente encontrados no acampamento guerrilheiro. Afinal, tudo isso justificaria a ação em território equatoriano. E era preciso que o mundo repercutisse toda a montagem da farsa rapidamente. Rádio, televisão, jornais, internet deveriam espalhar o mais rapidamente possível para as principais capitais europeias e para os países da América Latina em particular, que a Colômbia agiu contra terroristas que até urânio já queriam comprar… (Alguém aí se lembra das armas de destruição em massa de Sadam Hussein?). A mídia foi acionada como arma de guerra, como tem sido usual nos últimos tempos. E com tal violência e precisão que confunde a cabeça de muitos de nós… E chegamos a duvidar das nossas próprias convicções.
Mas em dúvida, sempre podemos nos perguntar: de onde partiram os aviões e helicópteros que participaram da invasão do território equatoriano e que, pela posição dos disparos, vieram do próprio território do Equador? Seriam da base norte-americana de Manta, cujo contrato não será renovado por Rafael Correa no final de 2008?
Quem dispõe de sofisticada tecnologia de satélites para identificar eventuais telefonemas dados pelo líder guerrilheiro Raul Reyes?
O que foi fazer em Bogotá, dois dias antes do bombardeio ao acampamento guerrilheiro, o contra-almirante Joseph Nimmich, comandante da Força Tarefa do Sul dos EUA?
Onde estaria localizado o laboratório das FARC para enriquecimento de urânio nas selvas colombianas?
Os 300 milhões de dólares que Chávez entregou às FARC teriam sido em cheque ou escondidos em caixas de uísque?
Por que a imprensa não deu o devido destaque à declaração de um dos últimos reféns soltos pelas FARC, em fevereiro, de que Ingrid Bettancourt, uma vez libertada, se candidataria à presidência da Colômbia?
Teriam Uribe e o Departamento de Estado norte-americano interesse na libertação de Ingrid Bettancourt?
É preciso ter paciência diante de tanta mentira e farsa. Recomenda-se a leitura do livro O Senhor das Sombras, de Joseph Contreras, sobre Álvaro Uribe, presidente colombiano.
————————————————————————————-
Então, caro leitor, encontrou no que acabou de ler alguma semelhança com o que se passa na Venezuela neste momento? Nem é preciso desenhar, não é verdade?
E pensar que alguns esquerdistas não ideológicos, mas racionais, defendem a política de Donald Trump…
Izaías Almada é autor, entre outros, do livro “Venezuela Povo e Forças Armadas”, Editora Caros Amigos.
vinícius
27 de fevereiro de 2019 10:13 amSeria bom que o autor fizesse uma breve “lembrança” sobre os o que aconteceu na Colômbia há 10 anos atrás. Nem todos leitores se lembram ou acompanham este tipo de assunto com profundidade. Provavelmente ele se refere a alguns fatos que envolveram a Ingrid Betancourt, mantida presa por alguns anos, e a morte de Raúl Reyes.
Pelo menos algumas referências para o leitor se situar.
Izaías Almada
27 de fevereiro de 2019 4:06 pmIngrid Bittencourt, senadora colombiana sequestrada pelas FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em 2002 e resgatada em 2008.
Raul Reyes, um dos líderes das FARC, morto pelo Exército Colombiano em território do Equador, o que provocou uma crise entre este país, a Venezuela e a Colômbia.
WG
27 de fevereiro de 2019 10:15 amSomente os estúpidos, ingênuos ou mal intencionados acreditam na “democracia” dos EUA. A máquina de guerra dos irmãos??? do norte será acionada contra os irmãos do sul, sempre foi assim e as dificuldades do império tornarão as intervenções cada vez mais brutais.
emerson57
27 de fevereiro de 2019 10:25 amO Brasil era assim.
Respire fundo para ver como ele está agora.
Rui Ribeiro
27 de fevereiro de 2019 10:36 amA história se repete como farsa.
Victor Suarez
27 de fevereiro de 2019 10:43 amO Império sempre esteve bem ativo, com Bush, com Clinton, com Obama ou com Trump.
O problema do Brasil é que suas elites não tem sentimento de brasilidade. São aves de rapina, capitães do mato, canalhas grotescos, …
Maria Luisa
27 de fevereiro de 2019 11:15 amE quando se vê o excelente filme “Vice”, entende-se perfeitamente que a historia passando por Nixon, Reagan, Bush pai, o governo do Bush filho tendo Dick Cheney e Donald Rumsfeld como protagonistas e chegando a Trump não tem coincidências, ela é propositadamente repetida e medos sociais reutilizados.