Steve Bannon, um dos principais estrategistas da extrema-direita nos Estados Unidos, tornou-se associado a um repertório para enfrentar denúncias e notícias adversas. A estratégia combina saturação do debate, velocidade e controle da pauta:
- Saturar, em vez de responder ponto a ponto. Em lugar de rebater cada denúncia, multiplicam-se fatos, acusações e controvérsias. O excesso disputa a atenção da imprensa, encurta a vida útil dos escândalos e dificulta que uma crítica se consolide como história. [1]
- Privilegiar velocidade e volume. Bannon usa a expressão “muzzle velocity” para se referir ao ritmo e ao volume dos “disparos”. Segundo estudiosos do autoritarismo, a lógica é criar acontecimentos em série, antes que a oposição consiga se organizar e a imprensa apure cada episódio. [2]
- Transformar a imprensa em adversária política. Ao apresentá-la como um “partido de oposição”, desloca-se o debate: em vez de discutir se a denúncia procede, questiona-se a intenção de quem a publicou. A acusação passa a ser tratada como ataque político, o que facilita ignorá-la.
- Controlar a pauta com um centro de gravidade. Em 2025, Bannon afirmou ao Frontline que Elon Musk e o DOGE foram eficazes do ponto de vista narrativo: concentraram a atenção enquanto diversas outras iniciativas avançavam. Um personagem ou episódio ruidoso pode, assim, funcionar como cortina de fumaça. [3]
- Evitar admitir erro ou derrota. Um colunista do Kansas Reflector descreve essa postura como a recusa sistemática em reconhecer erros ou aceitar uma derrota. É uma interpretação crítica do conselho associado a Bannon, não uma doutrina que ele tenha formulado exatamente nesses termos. [4]
Há, porém, uma diferença importante na comparação com os Estados Unidos. Por aqui, a grande imprensa não apenas cobre essas estratégias: parte dela também contribui para legitimá-las. O Globo, Estadão e Folha, em particular, ajudaram a normalizar acusações e suspeitas graves envolvendo Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo que amplificavam denúncias contra seus adversários.
O debate de ontem, transmitido pela Band, mostrou como Flávio Bolsonaro incorporou esses expedientes. Do lado de Lula faltaram respostas capazes de desmontar, com rapidez e clareza, o festival de blefes e acusações. O episódio também expôs uma fragilidade do formato: sem checagem em tempo real, afirmações falsas ou não comprovadas podem permanecer no ar sem contestação imediata.
A atuação de Lula sugere que faltou preparação específica para esse tipo de confronto. Media training — treinamento para entrevistas e situações imprevisíveis — não substitui conteúdo nem experiência; ajuda a antecipar ataques e a formular respostas curtas e compreensíveis. Em debates assim, o domínio do assunto não basta. As regras existem, mas há espaço para manobras e provocações.
Se Pablo Marçal atuava como conselheiro de Flávio, a equipe de Lula deveria ter antecipado uma postura provocadora no palco — inclusive o uso da diferença de estatura física entre os dois. A cena pode ter surpreendido os adversários, mas o risco era previsível. Também era possível preparar respostas para expedientes recorrentes usados por Flávio ao enfrentar acusações mais graves.
Dois exemplos mostram o que poderia ter sido feito:
- A alegação sobre dinheiro de Daniel Vorcaro. Para responder às acusações de que teria recebido recursos de Vorcaro, Flávio invocou uma suposta gravação em que o banqueiro teria dito que financiou, às escondidas, um filme sobre Lula por meio do Instituto Lula. Uma resposta preparada poderia ter contraposto a essa alegação as declarações de Oliver Stone — que assinou o filme com Rob Wilson — e cobrado provas do suposto financiamento. Sem checagem e sem uma resposta imediata de Lula, a acusação ficou pairando no ar.
- As declarações da lobista Roberta Luchsinger. Segundo levantamento do Jornal GGN, a cronologia da licitação para uma empreiteira portuguesa junto ao DNIT contradiz a versão de que Fábio Luís Lula da Silva teria obtido esses contratos: o processo ocorreu durante o governo Tarcísio de Freitas. Apesar da proximidade planejada entre a entrevista da lobista e o debate, a assessoria de Lula não parece ter preparado uma resposta objetiva. Tampouco houve uma checagem da emissora que interrompesse a repetição da acusação.
- A estratégia para enfrentar um falsário em debate é tornar seus expedientes explícitos ao público: quando ele responde a uma pergunta com outra, apontar esse desvio na tréplica para dificultar que repita o recurso.
- O mesmo método se aplica a acusações usadas para desviar o foco: comparar didaticamente uma gravação apresentada como autêntica e admitida pelo próprio acusado com uma alegação baseada em outra gravação sem comprovação independente, mostrando como ela serve de cortina de fumaça.
- Em suma, explicar os truques em tempo real cria cumplicidade com o espectador e reduz a eficácia de sua repetição pelo oponente.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
19 de outubro de 2026 9:33 amEu não assisti o debate. Hoje vi os recortes dele feitos pela campanha do Lula que estão circulando.
Lula desafiou Flávio Bolsonaro a abrir mão do sigilo bancário dele, o adversário ficou calado.
Lula disse que não protegeu e não protegerá o filho como seu Jair protegeu o filho, Flávio Bolsonaro fez cara de estátua.
Lula disse que não queria ficar perto de um miliano, essa acusação não foi contestada.
O desempenho de Lula evidencia duas coisas:
I) a tática dos Bolsonaro de partir para o ataque pessoal se tornou lugar comum na esquerda;
II) o líder da extrema direita manteve o autocontrole e preferiu ficar calado, porque num debate rebater acusações (sejam elas verdadeiras ou falsas) é sempre uma maneira de dar munição ao adversário.
O resulado do debate parece ter sido ambíguo. Ele apenas demonstrou que Flávio Bolsonaro é tão ardiloso quanto uma raposa tentando entrar no galinheiro e que Lula defende seu ninho dando rabadas dolorosas como um lagarto. Só uma jaguatirica faminta conseguiria amedrontar ambos, mas o condutor do debate parecia mais um coelho assustado.
Feitas essas considerações, devo dizer que a escolha que eu fiz de não ver o debate foi acertada. Ele não significou nada. Mas em politica existem diferentes tipos de “nada”. Os recortes do debate podem fazer alguma diferença na reta final e será preciso esperar para ver quem terá mais habilidade ao utilizar aquilo que o vídeo do debate pode oferecer.
Renato Lazzari
19 de outubro de 2026 9:53 amÉ lamentável a miséria que os capitalistas conseguiram induzir no debate público, a profunda pobreza de qualquer noção de civilidade aliada a contas milionárias de pablos-marçais, bolsonaros e vorcaros da vida. Sem falar da molecagem, evidenciada às largas pelo advento dos “golden boys do INSS”, como diz o Paulo Pimenta.
Definitivamente a direita tem que ser interditada no debate público porque não há mais nem o leve indício de que consiga recuperar pelo menos a aparência de civilizada que teve no século passado. Bem… melhor assim, com a barbárie capitalista exposta. Mas que esses são momentos lamentáveis, não há dúvida.
Luiz
19 de outubro de 2026 11:02 amDebater com um mentiroso é cruel. E se o dito desvio, psicopatolológico, pior ainda. Desde criança esse tipo mente com endosso pelo DNA paterno. Lula acertou: o pai mentiu 11 vezes ao dia; o herdeiro, 33. Nesse caso, o relho da deputada escrovocrata e branca sobre o lombo dele quem sabe…
Veritas
19 de outubro de 2026 12:08 pmSe Flávio não aceitar o desafio de Lula e não quebrar o sigilo bancário de suas contas, está provando que não é um candidato honesto e sim um recebedor de dinheiro sujo.
brunobgl
19 de outubro de 2026 12:30 pmOu seja, a essa altura do campeonato, Lula continua mal assessorado da porra! É sempre isso: quem ganha bem na estrutura de campanha faz um péssimo serviço e a gente que luta no nosso dia-a-dia pra fechar o mês que pare o nosso trabalho pra salvar a eleição.
Rui Ribeiro
19 de outubro de 2026 12:58 pmPorque o Flávio foge da abertura dos sigilos telefônico e bancário como o diabo foge da cruz?
Ora, porque ele não tem nada a esconder. Se ele tivesse algo a esconder, ele não abriria seus sigilos.