6 de junho de 2026

A rendição que não ousou dizer seu nome, por Luís Nassif

Como a social-democracia europeia e o PT brasileiro abriram mão do desenvolvimento e pavimentaram o caminho para a própria derrota
Lula e Pedro Sánchez - foto de Ricardo Stuckert / PR

Lula criticou a social-democracia europeia por aceitar austeridade e perder conexão com a base trabalhadora.
Nos anos 1990, social-democratas europeus adotaram o neoliberalismo, reduzindo controle estatal e políticas industriais.
No Brasil, Lula seguiu política fiscal rígida; Dilma tentou heterodoxia, mas faltou base política para sustentar mudanças.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Foi relevante o discurso de Lula no encontro da social-democracia espanhola.

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Lula apontou, nas entrelinhas, para o percurso de boa parte da social-democracia europeia nas últimas décadas:

  • Aceitação da austeridade fiscal como dogma
  • Redução do papel do Estado na indução do crescimento
  • Perda de conexão com a base trabalhadora
  • Tolerância à desindustrialização

Sem dizer explicitamente, a crítica era clara: a social-democracia, ao tentar parecer “responsável demais”, acabou ficando irrelevante para quem mais precisava dela.

Há uma ironia cruel no colapso da social-democracia nas últimas três décadas. Os partidos que deveriam ser a muralha contra o avanço do capital financeiro sobre o trabalho e o Estado tornaram-se, em boa medida, os arquitetos institucionais desse avanço. Não por traição consciente — embora esta também tenha ocorrido — mas por uma capitulação gradual, tática a tática, concessão a concessão, até que o projeto original se tornasse irreconhecível.

O resultado está à vista: enfraquecimento das políticas públicas, erosão da base eleitoral trabalhista, ascensão de populismos de direita que ocuparam o espaço deixado vazio pela esquerda moderada. A social-democracia ajudou a construir as condições de sua própria irrelevância.

O momento da virada: os anos 1990

A capitulação tem uma data relativamente precisa: a década de 1990, quando a social-democracia europeia internalizou o diagnóstico neoliberal sobre o papel do Estado. Tony Blair no Reino Unido e Gerhard Schröder na Alemanha foram seus símbolos mais acabados — mas o fenômeno foi continental.

O argumento era de modernização: a globalização havia mudado as regras do jogo, os mercados financeiros tinham poder de veto sobre as políticas nacionais, e a esquerda precisava adaptar-se à nova realidade ou tornar-se irrelevante. A Terceira Via blairiana foi a formulação mais sofisticada dessa rendição: mantinha a retórica da justiça social enquanto abandonava os instrumentos que historicamente a produziram.

O que foi abandonado, concretamente? O controle sobre os fluxos de capital. A capacidade de política industrial ativa. A progressividade tributária real. A propriedade pública de setores estratégicos. A regulação do mercado de trabalho como proteção estrutural — não como favor. Em suma: tudo aquilo que havia transformado o capitalismo do pós-guerra num sistema capaz de redistribuir riqueza de forma sustentada.

O que permaneceu? A retórica da inclusão, agora financiada não por redistribuição de renda, mas por crédito — democratização do endividamento apresentada como democratização do consumo. As classes populares ganharam acesso ao crédito barato no lugar do emprego estável e do serviço público de qualidade. Quando a crise de 2008 chegou, a armadilha se fechou.

O caso brasileiro: a herança da “Carta ao Povo Brasileiro”

No Brasil, o episódio fundador da capitulação tem nome e data: a “Carta ao Povo Brasileiro”, de junho de 2002, pela qual Lula comprometeu-se, antes mesmo de ser eleito, a respeitar os contratos, manter o superávit primário e honrar os compromissos com o FMI. Era um sinal ao mercado financeiro de que o novo governo não perturbaria a arquitetura construída no período Fernando Henrique Cardoso.

A carta era politicamente compreensível — o terrorismo econômico da oposição e da mídia havia criado uma crise cambial real no segundo semestre de 2002, com o dólar superando os 3,50 reais. A sinalização de moderação era necessária para evitar uma crise antes mesmo da posse.

O problema não foi a carta. Foi que a postura nela contida tornou-se permanente, quando deveria ter sido transitória. Lula não apenas respeitou os compromissos — foi, como ele próprio definiria a partir de 2003, “mais responsável que a direita”. A taxa Selic permaneceu em níveis absurdamente elevados por anos. A política de superávit primário foi mantida com rigor que constrangeria qualquer governo europeu de centro-direita. A abertura financeira herdada de FHC não foi tocada.

O argumento era pragmático: era preciso primeiro estabilizar para depois distribuir. E de fato houve distribuição significativa — Bolsa Família, aumento real do salário mínimo, expansão do crédito, políticas de inclusão que retiraram dezenas de milhões da pobreza. O primeiro e o segundo mandatos de Lula produziram resultados sociais inegáveis.

Mas o núcleo duro do modelo financeiro permaneceu intacto. Os juros reais mais altos do mundo continuaram transferindo renda do setor produtivo para o financeiro, do trabalho para o capital, do orçamento público para os detentores de títulos. A desindustrialização avançou silenciosamente, acelerada pela combinação de câmbio apreciado e abertura comercial. A base produtiva que sustentaria um desenvolvimento mais robusto foi sendo corroída justamente nos anos em que o crescimento das commodities criava a ilusão de prosperidade.

Dilma e o custo da tentativa heterodoxa sem base política

O governo Dilma Rousseff tentou romper com partes desse arranjo — e a experiência é instrutiva precisamente porque fracassou.

A redução forçada da Selic no início do primeiro mandato, a desoneração de setores industriais, a política de campeões nacionais, a contenção tarifária de energia: eram tentativas reais de política industrial e de subordinação do capital financeiro ao projeto produtivo. Algumas foram tecnicamente mal executadas. Todas encontraram resistência violenta do setor financeiro, da mídia e, eventualmente, de parcelas do próprio empresariado industrial que havia sido beneficiado.

O que faltou a Dilma não foi apenas habilidade técnica — faltou base política para sustentar a heterodoxia sob pressão. A social-democracia brasileira havia passado tantos anos cultivando a confiança dos mercados que não havia construído a alternativa: um bloco de forças sociais e políticas capaz de sustentá-la quando o capital financeiro reagisse.

É o paradoxo clássico das concessões graduais ao adversário: ao tentar neutralizar a oposição do mercado financeiro demonstrando responsabilidade, o PT foi gradualmente abandonando os instrumentos e as alianças que lhe dariam capacidade de agir quando necessário. Quando chegou o momento de agir, não tinha nem os instrumentos nem as alianças.

A consequência política: o espaço que a esquerda deixou vazio

A social-democracia europeia aprendeu da pior forma o que acontece quando a esquerda abandona as classes trabalhadoras como projeto — não como retórica, mas como política concreta. Marine Le Pen na França, a AfD na Alemanha, Meloni na Itália, Orbán na Hungria: todos eles se alimentaram do abandono das regiões desindustrializadas, dos trabalhadores precarizados, das comunidades que perderam serviços públicos e emprego estável e receberam em troca um discurso sobre diversidade e inclusão sem nada que mudasse suas condições materiais.

O Brexit britânico é o símbolo mais preciso desse processo. As regiões que votaram por sair da União Europeia não eram majoritariamente racistas ou xenófobas — eram regiões que a globalização havia destruído e que a social-democracia blairiana havia abandonado. O voto pelo Brexit foi, em boa medida, um voto de protesto de pessoas que não tinham mais nada a perder na ordem existente.

No Brasil, a dinâmica tem especificidades, mas a estrutura é semelhante. O bolsonarismo não surgiu do nada — surgiu de um espaço político deixado vazio pela incapacidade do PT de traduzir seus avanços sociais inegáveis em um projeto de soberania econômica que protegesse duradouramente as classes que havia incluído. Quando a crise de 2015-2016 chegou e o ajuste fiscal recaiu — inevitavelmente — sobre os mais pobres, a desilusão estava posta.

O que ficou de pé — e o que foi perdido

A social-democracia, em suas versões europeia e brasileira, conseguiu preservar muito. O Estado de bem-estar europeu, ainda que enfraquecido, continua sendo a principal proteção das classes trabalhadoras contra a brutalidade do mercado. No Brasil, o Bolsa Família, o SUS e os direitos trabalhistas — mesmo atacados — permanecem como conquistas que o neoliberalismo puro nunca teria produzido.

Mas o que foi perdido é estrutural: a capacidade de controlar o capital, de orientar o investimento, de proteger a indústria, de subordinar a política monetária ao desenvolvimento. Sem esses instrumentos, as políticas sociais ficam permanentemente reféns do humor dos mercados financeiros — generosas nos momentos de bonança das commodities, sacrificadas nos momentos de crise cambial.

A questão fundamental é que não existe redistribuição duradoura sem soberania econômica. E não existe soberania econômica sem o controle sobre os fluxos de capital que determinam o câmbio, os juros e, em última análise, o espaço fiscal para qualquer política pública.

A social-democracia que abriu mão desses instrumentos em nome da credibilidade junto aos mercados descobriu, com atraso, que havia trocado a capacidade de governar pela permissão de administrar. São coisas muito diferentes — e a diferença tem nome: é a diferença entre política e gestão, entre projeto e sobrevivência, entre democracia substantiva e democracia de procedimento.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. Cidadão sem cidadania

    26 de abril de 2026 3:04 pm

    O legado de lula , não foi de dar o bolsa família, o bolsa família será transformado em crédito em um futuro próximo isto está claro , com o dinheiro digital já a todo vapor ( Pix ) ,lula não quis reendustrializar a nação porque fica claro que ele não queria e não quer , só a esquerda acredita ainda em lula , o legado lula será de mais repressão brutal, já tinhamos a PM que é um terror, e lula deixou o STF deixar guarda patrulhar e hoje é um horror porque são pessoas que queriam ser policial e não conseguiram , são de uma violência brutal , o legado de lula será a um estado polícia de vigilância total , lula fez o projeto córtex, o projeto de i.a em foz de Iguaçu do exército que controla tudo , fez a população se inscrever num site do governo se quiser viajar e se hospedar em hotéis ou seja vigilância total , fez a população fazer reconhecimento facial, colocou câmeras de reconhecimento até em hospital e caps , tudo conectado as i.a , fez o projeto sisbin que vai controlar tudo que passar de informação, e não tem como negar os fatos , começou quando ele fez o plebiscito sobre armas e o plebiscito ganhou, a população queria ter arma para se proteger, o que fez lula mudou o plebiscito, ali ficou claro que lula não era um homem de grandeza que nao iria reendustrializar a nação, mas iria só dar umas esmolas para o povo não se rebelar, lula continua a entrega do pré sal, continua a entrega dos minérios , não equipou as forças armadas , com drones aéreo e Marinhos , fez escolhas no mínimo estranhas, o legado de lula será de desindustrialização do país , e do estado policial que hoje chegou a classe média e alta , lula vai perder a eleição, não porque fez algo bom , ao contrário vai perder porque fez do brasil um estado policial e quase falido , eu ainda acho que ele não vai concorrer, porque sabe que vai perder , lula só pensa em lula , em 2018 lula sabia que não ia concorrer por causa da lei ficha limpa que ele assinou, como não é grande, jogou a eleição na mão de Bolsonaro, poderia ter apoiado o Ciro , mas lula só pensa em lula , assim como prestes apoiou Getúlio em um ato de grandeza, lula nunca pensou no país , lula pensa em ser aceito pela classe dominante, só isso , os governantes estrangeiros amam lula porque lula continuou a entrega de tudo , lula fala um coisa pro povo e faz outra na surdina, hoje o povo acordou, lula ainda poderia apoiar um chapa ciro-aldo , mas nunca fará prefere de novo entregar o país , porque lula sabe que vai perder.

    1. Diego

      26 de abril de 2026 6:52 pm

      Lula não refundou o Brasil porque não quis né?

      Olha o nível de desonestidade intelectual e derrotismo que este tipo de texto anti correlação de forças do Nassif conseguiu atrair.

      Ainda bem que nem todo mundo escolheu culpar Lula por tudo e não quer mergulhar na adolescência do antipetismo performático.

      Existe uma extrema direita pra ser derrotada nas urnas e desidratada em uma longa batalha.

      1. fabricio coyote

        27 de abril de 2026 1:42 pm

        Teve o congresso a seu favor a partir de 2003, inclusive com as presidências do senado, logo do congresso, e da cámara. Mas optou por refundar o art. 192 da Constituição. Nós da base já somos acostumados com a extrema direito pois lidamos com milicos o tempo inteiro. Os pequenos burgueses que assumam a resiliência.

      2. Cidadão sem cidadania

        27 de abril de 2026 2:25 pm

        Esse papo não cola mais, nunca desde 2003 é o mesmo papo não. Pode criticar, sim lula está entregando tudo , não reendustrializou o país porque não quis , até hoje não salvou a avibras e nem vai , e está montando um estado policial, mas claro vamos fica preocupado com a extrema direita que não está no poder . Lula só pensa nele ,2018 tá ai pra provar , ele vai perder sem dúvida, mas acho que ele não vá concorrer, poderia apoiar uma chape Ciro -aldo mas é muito pequeno.

  2. Evandro Condé

    26 de abril de 2026 6:03 pm

    Vou aproveitar que colocou a xenofobia no artigo e perguntar: como a Europa irá enfrentar? Sobram vídeos mostrando uma visão do que a liberalidade (se assim podemos dizer) trouxe. Acredito que o grosso dos europeus não está gostando. A sensação que o comportamento é tal qual país de origem. E o europeu que engula.

  3. Luiz Fernando Juncal Gomes

    26 de abril de 2026 6:13 pm

    “A taxa Selic permaneceu em níveis absurdamente elevados por anos.”
    .
    Exemplo: Lula assumiu em janeiro/2003 com a Selic em espetaculares 25% a.a. Em fevereiro, a Selic foi para 26,5% a.a. Quase o dobro da atual.

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