Aldo Fornazieri
Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.
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As correlações estratégicas de Lula e Bolsonaro, por Aldo Fornazieri

A estratégia não é só técnica e não só meio. Ela tem uma dimensão moral vinculada às capacidades e virtudes de quem comanda.

Ricardo Stuckert

As correlações estratégicas de Lula e Bolsonaro

por Aldo Fornazieri

Toda estratégia pode ser decomposta em seus elementos constitutivos, que variam de acordo com as circunstâncias e as conjunturas inerentes aos contextos em que ela é implementada. Nos tempos atuais se assimila muito, de forma reducionista, a estratégia apenas à técnica para alcançar um objetivo. Maquiavel, Clausewitz e Beaufre, cada um a seu modo, definiram as relações que existem entre os aspectos políticos e militares nas estratégias.

A estratégia não é só técnica e não só meio. Ela tem uma dimensão moral vinculada às capacidades e virtudes de quem comanda. Portanto, é também arte, criação, inovação. Tem dimensões psicológicas ligadas às vontades, aos desejos e aos fins que intervêm nos conflitos, sejam eles militares, políticos, sociais ou econômicos. A estratégia diz respeito aos sujeitos ativos, qualificados segundo o poder, a força e as qualidades e virtudes que possuem.

Tentar-se-á decompor aqui a estratégia eleitoral em alguns de seus elementos constitutivos, não todos, para tentar perceber as vantagens relativas de Lula ou de Bolsonaro, visando contribuir para que a campanha de Lula encontre soluções para garantir a vitória.

1 – Elemento da votação e intenção de voto: é o elemento em que Lula tem a maior vantagem estratégica por liderar a disputa desde o início da campanha e por ter vencido no primeiro turno. Esta vantagem, contudo, sofreu certa relativização por conta da frustração da expectativa de vitória no primeiro turno que foi criada equivocadamente e pela diferença menor do que se esperava na votação entre os dois candidatos.

2 – Elemento dos meios de poder institucional: é o ponto em que Bolsonaro tem sua maior vantagem estratégica. Tem nas mãos a máquina do governo que não faz cerimônia em usar os instrumentos de Estado e dispõe de recursos financeiros que lhes foram concedidos pelo Congresso. No segundo turno formou uma trincheira de palácios estaduais que o apoiam (Rio, São Paulo, Minas, Paraná, Brasília, Goiás, etc.). Os palácios têm capacidade de mobilizar recursos e influências pelos municípios e instituições públicas diversas. Bolsonaro dispõem de um contingente maior de deputados e senadores eleitos ou reeleitos. Lula tem apoio de mais partidos, de alguns palácios e de prefeitos. Mas para equilibrar esse elemento estratégico será necessário mobilizar as instituições da sociedade civil e apoios com atos e eventos em todos os espaços possíveis. O desempenho de candidatos lulistas a governos estaduais no segundo turno também é um fator que pode equilibrar mais o jogo neste elemento.

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3 – Elemento do moral e da mobilização dos “exércitos”: Neste elemento Bolsonaro também tem vantagem. A militância bolsonarista está mais aguerrida. Nesses anos de governo ela foi estimulada ao combate e à mobilização, com presença nos meios digitais e nas ruas. Durante todo o tempo, o bolsonarismo foi alimentado por mensagens e conteúdos centralizados, enquanto os militantes de esquerda foram esquecidos pelas direções partidárias. O bolsonarismo disseminou o medo nos inimigos e, em contrapartida, setores da esquerda reforçaram a disseminação desse medo, com pouco estímulo ao combate e ao enfrentamento. O resultado do primeiro turno teve um efeito psicológico negativo no moral dos ativistas da esquerda e positivo no bolsonarismo. As redes de distribuição de conteúdos e de persuasão do bolsonarismo, como meios digitais, forças militares, evangélicos, comerciantes, agro, estão mais organizadas e ágeis. Somente a grande mobilização social no segundo turno pode equilibrar esse jogo.

4 – Elemento fideísta/guerra santa/guerra irregular: A estratégia fideísta, ao que consta, foi elaborada pelo profeta Isaías no contexto do assédio de Jerusalém pelos assírios e foi resgatada pelos judeus ortodoxos e evangélicos de extrema-direita dos Estados Unidos no nosso tempo. Ela é largamente usada pelas organizações e partidos de extrema-direita que mobilizam a fé em Deus, as religiões e os valores conservadores como ativos políticos de agregação e de mobilização.

O fideísmo consiste na ênfase dos elementos irracionais em paralelo aos elementos racionais/materiais. É uma estratégia que sempre foi funcional em determinados grupos de eleitores e/ou combatentes. Ela leva necessariamente à “guerra santa”, à luta do bem contra o mal e à ação ou vontade de aniquilação total dos inimigos. Ela tem significativo impacto sobre os “exércitos” evangélicos radicalizados que identificam um profeta em Bolsonaro e sustentam que votar em Lula é pecaminoso. Isto bloqueia o voto evangélico em Lula e pode estar até tirando votos dados a ele no primeiro turno. As esquerdas, hoje descaracterizadas ideologicamente, não conseguem ter um apelo mobilizador à fé, a uma crença ou à subjetividade. Neste elemento de estratégia, cabe à campanha lulista implementar medidas de redução de danos.

A guerra irregular, travada nos meios digitais, orquestrada pelas fake News, pelas acusações, pelas milícias digitais, pelo gabinete do ódio e pelos robôs, também é um terreno no qual o bolsonarismo leva vantagem. Nesse início de segundo turno, contudo, observa-se uma reação da campanha lulista, que pode minimizar a vantagem bolsonarista.

5 – Elemento material/político/racional: O elemento comporta as políticas públicas e obras materiais, as políticas econômicas e os programas sociais. Neste elemento Lula leva grande vantagem, embora Bolsonaro a tenha relativizado com o Auxilio Brasil e com a redução do desemprego e da inflação. Mas a comparação entre os feitos dos dois governos ainda desequilibra o jogo em favor de Lula. A vantagem só não é maior dada a falta de criatividade do marketing em produzir peças mais inteligentes e persuasivas. A política persuasiva é mais eficaz quando se expressa por pares antípodas, não só de propostas e programas, mas também das atitudes pessoais dos candidatos, considerando que, em eleições, parcelas significativas de eleitores votam nas qualidades e virtudes percebidas na personalidade do candidato.

Considerando estes e outros elementos da estratégia que não foram aqui abordados, deve-se considerar que, de modo geral, há um equilíbrio estratégico das duas candidaturas.

Para desequilibrar e garantir a vitória de Lula é necessário mobilizar recursos, meios, vontades e pessoas para evitar a tragédia que seria uma vitória de Bolsonaro. É preciso mobilizar a sociedade em todos os espaços possíveis de mobilização, abertos ou fechados, visando criar uma imensa pressão de opinião em favor de Lula sobre indecisos e sobre pessoas que votaram em Bolsonaro. É necessário mobilizar setores suscetíveis das classes médias para os riscos que corre a democracia.

É preciso intensificar a “guerra santa” e a “guerra irregular” mostrando as contradições religiosas de Bolsonaro, a sua hipocrisia, o quanto de engano e engodo representa, o quanto a sua prática e as suas atitudes são expressão do mal. Na “guerra irregular” é preciso evidenciar a corrupção da família e todos os seus preconceitos homofóbicos, machistas e racistas e todos os males que causou na pandemia.

Mas é preciso ir além. Lula precisa dirigir-se diretamente aos fiéis na qualidade de cristão que respeita todas as religiões e o quanto fez no seu governo pelas religiões. Precisa dizer que a fé é um direito humano inalienável e que a fé é uma dimensão essencial dos seres humanos. Que a fé que busca dar respostas às suas inquietações, angústias e aspirações transcendentais. Deve reconhecer que a razão e a ciência não oferecem respostas para todas as indagações humanas, mas que fé, razão e ciência não são contrapostas e podem trabalhar juntas para uma humanidade melhor, mais fraterna e mais justa. Não é concessão nenhuma reconhecer que as religiões são o cimento moral das sociedades e que elas não podem ser culpadas pelos desatinos e pecados dos religiosos que as instrumentalizam.

É preciso ocupar as ruas e as redes, chamando não só a militância, mas a sociedade, para salvar a democracia e construir um país melhor. Não basta chamar as lideranças dos movimentos sociais para reuniões. Os dirigentes partidários e líderes sociais precisam ir até as periferias, as fábricas, as universidades, onde os eleitores estão. É preciso municiar os ativistas e militantes com materiais que faltaram no primeiro turno. É preciso que se constituam centrais de informação das mobilizações e panfletagens nos estados e municípios.

Precisamos lembrar que em 2014, no final do segundo turno, foi a mobilização social que garantiu a vitória de Dilma sobre Aécio Neves. Agora os riscos são muito maiores e a mobilização precisa ser muito mais intensa. Temos o dever de evitar uma tragédia que infelicitaria os mais humildes, os aflitos, as mulheres, os negros, os índios. Que infelicitaria a humanidade pela continuada destruição ambiental.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.

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