23 de junho de 2026

O risco distópico de um longo ciclo da extrema-direita no poder

Clube do Livro do GGN vai discutir a obra "Pra onde vai a esquerda?", de Guilherme Boulos. Confira o resumo
Foto: Agência Brasil

Em agosto, o Jornal GGN lança o Clube do Livro exclusivo para assinantes. A obra escolhida para inaugurar o grupo é “Pra onde vai a esquerda?”, de Guilherme Boulos.

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Em 135 páginas, Boulos se debruça sobre os fatores históricos e as mudanças na sociedade que abriram portas para a ascensão da extrema-direita no Brasil e no mundo; explica como funciona essa nova ideologia neofascista em termos de tecnologia e psicologia de massas; analisa o cerco ao governo Lula e os atalhos que não servirão à esquerda brasileira na luta contra o bolsonarismo, e aponta alguns caminhos para que o campo progressista possa, enfim, sair do corner e dar uma resposta à altura dos desafios que enfrenta.

O Clube do Livro terá dois encontros, sendo o primeiro com a redação do GGN, onde os leitores poderão interagir entre si a respeito da obra. O segundo encontro será com o autor, Guilherme Boulos, e está marcado para a segunda-feira, 25 de agosto, às 18:00 horas.

O primeiro capítulo de “Pra onde vai a esquerda?” foi resumido nesta publicação aqui. Abaixo, você confere os resumos do capítulo 2 (Brasil: Governo Lula sob cerco) e capítulo 3 (Guerra cultural).

Governo Lula sob cerco

Guilherme Boulos abre o capítulo com uma provocação a respeito da vitória eleitoral de Lula em 2022: como foi possível a Jair Bolsonaro perder a tentativa de reeleição por uma margem tão estreita, após ter feito um governo tão desastroso? Somente o fato de ter tido a máquina pública na mão não explica seu substancial volume de votos. Para Boulos, a extrema-direita cresce e ganha corações e mentes, a despeito de todo mal que gera, porque nunca descansa nas redes sociais. Lá, eles espalham medo, desinformação, manipulam narrativas, criam inimigos e dão um norte para mobilizar permanentemente seus seguidores. 

Dessa forma, após a eleição de 2022, a esquerda vence a extrema-direita bolsonarista, mas não consegue eleger uma maioria para acompanhar Lula no Congresso. A partir de 2023, o petista inicia seu terceiro mandato pressionado por três frentes.

De um lado, a própria oposição bolsonarista, que está desde o 1 de governo Lula fazendo ataques com fake news (vide o caso da taxação do PIX). De outro lado, está o Centrão com as garras enfiadas no orçamento secreto, que impede o governo de lançar suas próprias políticas públicas. Por sim, a constante pressão da Faria Lima, ou seja, da elite econômica do país que anseia por medidas de contenção de gastos sociais a todo custo.

Risco de distopia

Neste cenário, Boulos cogita que há um risco de o Brasil mergulhar em um ciclo distópico de extrema-direita no poder, a partir das eleições de 2026. Afinal, mesmo saindo vitoriosa das urnas, a esquerda segue acuada, e ainda não aprendeu a usar os novos meios de comunicação com a mesma maestria com que a direita usa.

Boulos arranca um band-aid ao afirmar que a esquerda só não foi derrotada em 2022 porque o candidato era Lula, que conseguiu, ao longo dos dois primeiros mandatos, deixar uma marca profunda na vida dos brasileiros. Sem Lula, a esquerda corre o risco de ver o bolsonarismo retornar ao poder em 2026 mesmo com outro nome que não Bolsonaro, para deslanchar um ciclo que pode perdurar anos. 

“Se não reagirmos a tempo, estamos diante do risco distópico de um ciclo da extrema-direita no poder. Da mesma forma que o PT e a esquerda foram ganhando hegemonia na sociedade brasileira ao longo dos anos 1980 e 90 e, após isso, vencemos quatro eleições presidenciais sucessivas, o bolsonarismo está fazendo sua lição de casa e conquistando cada vez mais espaço na opinião social brasileira. O risco de um fechamento de regime é real” afirma Boulos.

Guerra cultura e algoritmos

No terceiro capítulo do livro “Pra onde vai a esquerda?”, Boulos falou sobre as raízes da guerra cultura que a extrema-direita aprendeu a encampar nas redes e na vida política pública, como forma de massificar e homogeneizar seus seguidores. O autor trata da economia da atenção e de como a psicologia social explica certos comportamentos radicalizados nos mundos real e virtual.

Boulos aponta que a extrema-direita ultrapassou a esquerda em termos de tecnologia, e aprendeu muito bem a operar nas redes sociais. Eles entenderam que os algoritmos privilegiam conteúdos que causam “indignação coletiva”. Esse sentimento introjetado nos cidadãos comuns ajuda a formar grupos coesos em ideias e visões de mundo, que logo vão ficando cada vez mais radicalizados e ganhando senso de comunidade em torno de um mesmo inimigo.

“A direita leu Gramsci, entendeu do seu jeito e partiu para a cruzada ideológica”, diz Boulos.

Olavo de Carvalho, Steve Bannon e outros gurus da extrema-direita deduziram que a esquerda, seguindo Gramsci, obteve hegemonia nas universidades, na cultura, na imprensa, nas instituições e, por isso, chamaram seus seguidores à ação numa guerra aberta contra essas figuras. 

“Foi assim que o algoritmo das redes transformou as sociedades nos últimos anos e permitiu a ascensão meteórica da extrema-direita. Os conteúdos, que geram indignação coletiva, são mais recomendados pelas plataformas porque, no fim do dia, dão aos usuários um inimigo, uma causa e uma comunidade onde obtêm reconhecimento. Essa gratificação emocional leva a pessoa a ficar mais tempo conectada, ainda mais numa sociedade em que todos estão cada vez mais solitários”, aponta Boulos.

Guerrilha digital

Para operar nas redes, a extrema-direita criou, de um lado, estratégias de guerra cultural a longo prazo (como a Brasil Paralelo, que produz e dissemina muito conteúdo revisionista, quase como uma Netflix para terraplanistas) e de guerrilha digital para o cotidiano (como a estrutura do Gabinete do Ódio e a máquina de cortes de Pablo Marçal, que o próprio Boulos enfrentou na pele em sua disputa pela Prefeitura de São Paulo, em 2024).

Enquanto a extrema-direita nada de braçada com suas estratégias (confira o capítulo 1 para entender a base histórica da ideologia), a esquerda, por sua vez, ainda patina em três desafios:

  1. Traduzir sua visão de mundo em mobilização social
  2. Disputar a guerra cultural nas redes sociais 
  3. Retomar a presença ativa nos territórios populares 

No quarto e último capítulo (Pra onde vai a esquerda?), Boulos responderá à grande questão que batiza sua obra. Mas isso, vamos conferir em um próximo post.

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Leia, abaixo, a matéria a respeito do capítulo 1:

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Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    20 de agosto de 2025 6:57 pm

    A esquerda brasileira oscila entre a síndrome do pânico e surtos maníacos de euforia. O país, entretanto, provou que é capaz de suportar tanto o trauma da ditadura quanto a boçalidade daqueles nóias do PSOL que ajudaram a direita e a extrema direita a derrubar Dilma Rousseff. Enquanto o PSOL não passar a limpo a merda que fez a partir de 2013 não perderei tempo lendo nada publicado por qualquer cara desse partido. Dito isso, devo dizer que NUNCA mais votarei em ninguém do partido de Boulos ou no próprio Boulos, porque meu voto em Dilma Roussef era apenas um mas ele tinha e ainda tem nuito valor para mim. E eu não perdoo ninguém e nenhum partido que tenha destruído minha pequenina parcela de poder político.

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