26 de junho de 2026

Como a extrema-direita global converte medo em mandatos

A estratégia avança sobre o vácuo de segurança pública e impulsiona lideranças punitivas no continente e no exterior

Por Armando Alvares Garcia Júnior

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Em The Conversation Brasil

Há uma fórmula política que está varrendo a América Latina e a Europa. Não é nova, mas nunca foi tão eficaz: pegar o medo que as pessoas sentem nas ruas, nas suas casas, no caminho para o trabalho — e transformá-lo em votos. A insegurança deixou de ser apenas um problema policial para se tornar o principal combustível da política contemporânea.

O ponto de partida é simples: a América Latina concentra cerca de 8,2% da população mundial, mas responde por 29% dos homicídios globais (cifras conservadoras). Isso significa que a violência não é uma percepção distorcida — é uma realidade cotidiana para centenas de milhões de pessoas. Dados do Barómetro de las Américas mostram que cerca de 43% dos latinoamericanos relatam temer ser vítimas de crime “todo ou quase todo o tempo”. Quando o Estado não consegue proteger o cidadão comum, abre-se um vácuo político que alguém sempre se dispõe a preencher.

É nesse vácuo que crescem líderes como Nayib Bukele em El Salvador, Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no Equador, José Antonio Kast no Chile, Abelardo de la Espriella na Colômbia — eleito presidente há poucos dias, com margem inferior a 1% dos votos — e Jair Bolsonaro — hoje condenado e preso —, cujo legado político é disputado por seu filho Flávio Bolsonaro nas eleições deste ano no Brasil. Todos chegaram ao poder, ou tentaram chegar, com a mesma promessa central: ordem, punição e força.

El Salvador virou referência global

O caso de El Salvador tornou-se a referência global dessa estratégia. Quando Bukele assumiu o governo, o país era um dos mais violentos do mundo, com uma taxa de 38,2 homicídios por 100 mil habitantes (UNODC, 2023). Em 2025, esse número caiu para 1,3 por 100 mil habitantes segundo dados oficiais do governo salvadorenho — queda superior a 96%.

Pesquisadores independentes questionem se essa queda em El Salvador decorre exclusivamente do encarceramento em massa ou também de dinâmicas anteriores ao regime de exceção, incluindo negociações secretas com as próprias gangues MS-13 e Barrio 18, cuja ruptura em 2022 desencadeou 87 homicídios num único fim de semana conforme investigação do El Faro, e que a acusação CR 22-429 da Corte do Distrito Leste de Nova York identificou nominalmente dois funcionários do governo Bukele como negociadores.

Em 2025, o governo salvadorenho reportou ter acumulado 1.000 dias não consecutivos sem homicídios desde o início do mandato — métrica elaborada pelo próprio governo e não verificada de forma independente, em um país que entre 2019 e 2025 registrou oficialmente 5.688 homicídios e 2.548 desaparecimentos.

Essa queda foi conquistada com o encarceramento de quase 90 mil pessoas sob um regime de exceção, com o OHCHR — Escritório do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos expressando “grave preocupação” com o estado de exceção, e o Comitê contra a Tortura da ONU documentando torturas, mortes sob custódia e prisões arbitrárias. Mas para uma população que vivia aterrorizada pelas gangues, os resultados concretos falam mais alto do que os relatórios de direitos humanos. De fato, a aprovação de Bukele varia, dependendo dos meios consultados, entre 80% e 94%.

O “efeito Bukele” [foto] já é sentido nos vizinhos. No Equador, Noboa declarou “guerra” ao crime organizado e suspendeu garantias constitucionais. Na Colômbia, De la Espriella — um advogado criminalista que construiu projeção pública fora dos canais partidários tradicionais e sem mandato eletivo anterior — derrotou a esquerda governante propondo megapresídios e o fim dos diálogos de paz, num país que havia elegido o progressista Gustavo Petro apenas quatro anos antes. A vitória por margem estreitíssima, contudo, deixa-o sem cheque em branco: a oposição de esquerda mantém bancada relevante no Congresso, o que tornará o governo De la Espriella mais contido do que sua retórica sugere.

A mensagem que percorre o continente é clara: funciona. E funciona porque a população permite e até deseja.

Mecanismo similar na Europa

Na Europa, o mecanismo é similar, porém o catalisador combina crime com imigração. O pleito de junho de 2024 para o Parlamento Europeu representou uma inflexão estrutural: partidos da direita radical conquistaram cerca de um quarto dos votos e ascenderam ao primeiro ou segundo lugar em um número sem precedentes de Estados-membros. Itália, Áustria, Países Baixos e Hungria são hoje governados por legendas que, há uma década, eram tratadas como marginais.

A estratégia europeia consiste em apresentar o controle das fronteiras como condição de proteção do cidadão comum. Após eventos traumáticos como ataques terroristas, o medo difuso converte-se em ira — um combustível eleitoralmente muito mais potente. É essa ira, derivada da instabilidade econômica e social e amplificada por episódios de violência, o principal acelerador das plataformas de mão dura na Europa contemporânea.

O Brasil viveu sua própria versão do fenômeno em 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito com um discurso centrado em armar a população e ampliar a autonomia da polícia. Anos depois, em 2025, o Supremo Tribunal Federal o condenou a 27 anos de prisão por liderar uma tentativa de golpe após perder a eleição de 2022. A condenação não esvaziou a força política que ele representa, mas mostrou para onde ela pode se rearticular. Seu filho Flávio Bolsonaro, eleito senador pelo Rio de Janeiro, surge entre os nomes competitivos na corrida presidencial de outubro.

O terreno onde essa disputa acontece é especialmente espinhoso. Pesquisadores identificam um padrão preocupante: facções como o Primeiro Comando da Capital ganham controle sobre territórios que antes o Estado considerava seus — no Amazonas e no Pará, com presença confirmada em centenas de municípios. Em Coari, no interior do Amazonas, a taxa de homicídios saltou de 9,8 para 71,7 por 100 mil habitantes entre 2017 e 2024 — um aumento de 628%, quase três vezes a média nacional.

A criminalidade digital avança em paralelo, do golpe do PIX ao tráfico internacional de dados. Mas o eleitor dificilmente chega à urna com essa complexidade em mente. Candidatos de extrema direita oferecem uma fórmula simples: punição rápida = maior segurança, receita testada em El Salvador.

O Brasil caminha num terreno conhecido: medo difuso, oferta simplificada, sensação de urgência — elementos que a extrema direita tenta mobilizar para replicar a fórmula regional, oferecendo uma resposta simples, direta e punitiva a um problema estruturalmente complexo e multicausal.

A verdade mais difícil que este cenário revela é que a “alavanca da insegurança” funciona porque toca em algo real. As pessoas têm medo. E quando a esquerda e o centro hesitam em falar sobre crime — com receio de soar repressivos — a direita radical ocupa esse espaço sem hesitar. A questão não é se o medo é legítimo. É. A questão é quem se beneficia politicamente quando o Estado falha em resolvê-lo — e a que custo democrático.

Armando Alvares Garcia Júnior é professor de Direito Internacional e Relações Internacionais da Universidad Internacional de La Rioja.

Este artigo não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Envie seus escritos para [email protected]

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