por Jéssica Welma
Por mais que lideranças do PDT apostem no discurso de que o partido está unido, na prática, os desgastes ficam cada vez mais evidentes e mostram que o que está em jogo é muito mais do que a escolha de um nome para disputar o Governo. A sucessão de 2022 põe em jogo a manutenção do papel de liderança política absoluta dos irmãos Cid e Ciro Gomes no Ceará.
Outros momentos sucessórios já geraram fim de alianças e intrigas políticas para o grupo desde 2006. Desde então, os irmãos souberam equilibrar interesses diversos e descartar aliados que ameaçavam desestabilizar o sistema. Mas nem tudo é passível de controle.
Agora, o grupo político precisa lidar com o novo papel de liderança do ex-governador Camilo Santana que, apesar da relação com o PDT, pertence a outro partido; com uma oposição que entrará na disputa montando o melhor cenário em 15 anos; e com o fortalecimento interno de partidos aliados que cobram voz e espaço na mesa de decisão.
FATOR CAMILO
O foco do impasse interno no PDT é a polarização entre as pré-candidaturas da governadora Izolda Cela e do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio. Os outros dois pré-candidatos, o presidente da Assembleia Legislativa, Evandro Leitão, e o deputado federal Mauro Filho correm por fora nessa disputa.
O “Time Izolda” tem como principal cabo eleitoral justamente o ex-governador. Já o “Time Roberto Cláudio” conta com o pré-candidato a presidente da República Ciro Gomes. Os demais aliados vão se somando a cada lado, alguns, no entanto, sem muito alarde público. Afinal, toda manifestação de apoio tem suas implicações.
Foi justamente a declaração pública de apoio a Roberto Cláudio pelo prefeito de Fortaleza, José Sarto, que expôs esse acirramento que já se percebia internamente.
Dentro do PDT, a ala cirista e mais fortemente ligada aos irmãos Cid e Ciro Gomes tem se mobilizado entorno de Roberto Cláudio, o que inclui fortemente a base de vereadores da Capital. O ex-prefeito também recebeu apoio do presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, com direito à música com trocadilho pró-Roberto Cláudio: “o melhor prefeito do Brasil vai virar governador”. O apoio efusivo não pegou bem e gerou mais desgaste para o partido.
O movimento pró-Izolda, no entanto, vem principalmente de fora do partido, encabeçado por lideranças de partidos como MDB, PP e PT, mas, com as estratégias de gestão de governo, tem tido simpatia também de deputados estaduais e prefeitos.
Percebe-se também que muitos do grupo “apoio se a candidata for Izolda” são forte aliados de Camilo Santana, gente que fez parte do Governo dele ou que foi atraída para a base por ele.
Para além de decidir sobre Izolda ou Roberto Cláudio, agora, a questão tem se encaminhado para mostrar qual padrinho político vai ter mais força.
Ao que os impasses indicam, não se contava com um apoio tão engajado de Camilo Santana à governadora, afinal o ex-prefeito também era próximo a Camilo e chegou a ser cotado como seu “sucessor natural”.
Em 2012, a ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins tentou usar seu capital político pós-gestão para emplacar candidato dentro da aliança. Não funcionou: os irmãos Ferreira Gomes racharam a parceria para lançar Roberto Cláudio, derrotaram Luizianne e minaram a força política da então prefeita na Capital.
O cenário de Camilo não parece o mesmo, mas é preciso ver o desenrolar da queda de braço para tirar conclusões.
Fato é que lançar Izolda é fortalecer a figura de Camilo como líder, é também abrir mão de parte de um poderio político para um nome de outro partido, o que, até hoje, não aconteceu.
Todos os nomes lançados pelos Ferreira Gomes nos últimos anos para cargos de maior relevância mantêm-se sob comando de Cid e Ciro.
Aliados de outros partidos que tentaram faturar parte da liderança do grupo, como Eunício Oliveira, do MDB, e Domingos Filho, do PSD, chegaram a ir para a oposição após serem preteridos por escolhidos dos irmãos Cid e Ciro.
OPOSIÇÃO FORTALECIDA
E quem está de olho na decisão do PDT e no que vai sobrar dela é a oposição, encabeçada pelo deputado federal licenciado Capitão Wagner (União Brasil), pré-candidato ao governo.
Ciente das manifestações de preferência por Izolda Cela e das sinalizações pró-Roberto Cláudio, ele tenta atrair partidos como MDB, PP e PSD para a base, sem descartar, inclusive, oferecer o cargo de vice para o PSD, cujo presidente, Domingos Filho, tem cruzado o Ceará em eventos partidários reivindicando a vaga na base governista.
O União Brasil, comandando por Wagner no Ceará, terá a maior fatia de verba pública na campanha de 2022 e mais tempo destinado à propaganda eleitoral gratuita nas TVs e rádios. É uma oferta atrativa na mesa de negociação, que inclui ainda tratativas com o PL de Jair Bolsonaro.
Além dessa estrutura material, Wagner saiu fortalecido na disputa pela Prefeitura de Fortaleza em 2020, contra José Sarto (PDT), com uma pequena diferença no percentual de votos; e conta ainda com a “fadiga do poder”, ou seja, os desgastes acumulados pelo grupo governista ao longo de 16 anos de gestão, o que é natural na lógica política.
E COMO FICAM OS ALIADOS?
Nesse desgaste da base e nos atrativos da oposição, a pouco mais de um mês do prazo para definições partidárias, as alianças estão em aberto.
O PT, fortalecido com o nome de Camilo Santana, e com o desempenho do ex-presidente Lula nas pesquisas de intenção de voto para a presidência da República, marcou para o dia 2 de julho o encontro que vai definir se fica ou não na aliança com PDT. Boa parte do partido, seguindo o líder, Camilo Santana, é pró-Izolda.
No PDT, apesar dos discursos de que “a aliança é importante” e “não haverá ruptura”, o PT tem sido alfinetado com frases do tipo “quem escolhe candidato do PDT é o PDT” e “que seja feliz”, caso opte por uma candidatura própria. Entrelinhas, não parecem discursos de quem quer realmente manter um aliado perto.
O MDB de Eunício Oliveira é declarado opositor de Ciro Gomes e Roberto Cláudio e é mais um que segue os sinais de Camilo Santana.
O PSD de Domingos Filho tem insistido na vice, mas nada garante que, se for preterido em meio à queda de braço entre PT e PDT, não aceite as investidas de Capitão Wagner. No cenário atual, Domingos Filho lidera um partido bem mais robusto, com o filho deputado federal influente e prefeitos.
Os frequentes eventos regionais nos últimos meses também têm a intenção de demonstrar essa força. Isso muda (ou deveria mudar) os espaços de diálogo.
Numa aliança, não se pode cobrar que apenas um lado ceda nessa ou naquela decisão, mas é preciso também perceber as mudanças que o tempo traz e os novos jogos de força que se estabelecem. Contra o tempo e seus desgastes, quase ninguém pode.
O principal grupo político do Estado vive um momento singular em que terá de pôr à prova o discurso de que defende um projeto e não nomes. Não se trata apenas de escolher um nome entre quatro importantes figuras políticas. Comandar um grupo amplo sempre requer estratégias para muito além do que está à primeira vista.
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Tulio Muniz
18 de junho de 2022 8:02 pmExcelente análise, e acrescento: as investidas ferozes de Ciro contra Lula também se devem à possibilidade de Ciro ter menos votos que Lula no Ceará. Será inéditos nas disputas presidenciais de Ciro (2002 e 2018), mas nada supreendente pois, além da fadiga de poder apontada pela Jéssica, Ciro não é mais tão bem quisto após praticamente abandonar e até hoje desdenhar dum mandato de deputado federal para o qual foi eleito em 2006 , à época com cerca de 600 mil votos dos cearenses, a maior votação proporcional de um parlamentar. E , pra complementar Jéssica, o Roberto Cláudio, após oito anos na prefeitura da capital, não elegeria seu sucessor Sarto não fosse uma aliança inédita, no segundo turno, que envolveu da direita ao PSOL assegurou a derrota do bolsonaristas Capitão Wagner em 2020, que perdeu a capital por apenas 3% dos votos. Detalhes como esses são menosprezados por Ciro, que não se atualiza diante das exigência de coerência que os eleitores têm por seus eleitos.
MARIA DE FATIMA PINHEIRO
19 de junho de 2022 6:31 pmO Cel, Ciro Gomes é um ególatra, não respeita os aliados, sequer do PDT(até porque, não lè Gramsci;
não entende a força do Partido Político para manutenção da hegemonia), daí a dança dos Partidos e a implosão dos que usaram no Ceará, apenas pra formalidade eleitoral. O ódio de Ciro contra Lula, é na verdade contra Camilo, porque, não conseguiu domesticá-lo e retirá-lo do PT. Na essência ele tem muito pouco de Democrata, sua prática não nega a orígem no PDS(ex-ARENA), desde estudante na UNE foi um defensor da Anistia sem punição aos torturadores. Enfim, cada pleito eleitoral é uma ruptura com aliados que pretendem ascender na carreira política. Se tornam(não adversários), mas, inimigos. A situação hoje chegou no limite. Estão sem força para impor o Roberto Cláudio que faz o jogo sujo que eles mandam, O PT suportou todos os ataques à Lula pra manter a aliança, porém, não
aceita a imposição de Ciro. Até porque, é natural que Isolda queira disputar a reeleição. Vão perder…