“É a primeira vez que somos ouvidos”: Amanda Rodrigues, alvo da Operação Calvário, fala à TVGGN sobre o documentário “Justiça Contaminada”

"O lavajatismo não se iniciou com o ex-presidente Lula e nem se encerrou com as recentes vitórias dele na justiça", lembra Amanda Rodrigues

Amanda Rodrigues em entrevista para TVGGN
Foto: Reprodução/ Youtube
Foto: Reprodução/ Youtube

“O documentário é um marco no caminho que a gente vem trilhando há mais de 3 anos. Pela primeira vez um jornalista se interessa pela história toda, não só pelo lado da acusação”, relata Amanda Rodrigues em entrevista exclusiva para o GGN. Ela se refere ao filme “Justiça Contaminada – O Teatro Lavajatista da Operação Calvário na Paraíba”, obra dos jornalistas Eduardo Reina e Camilo Toscano, que estreou em 25 de abril no canal TV 247. 

O documentário mostra os desdobramentos da Operação Calvário, que levou o ex-governador, Ricardo Coutinho, à prisão no final de 2019. Sob acusação de ter desviado mais de 130 milhões de reais da saúde e educação, o petista ainda responde pelos processos na Justiça paraibana, além de ter sofrido prisões preventivas, busca e apreensão e outras medidas cautelares. Do inquérito-mãe, outras 23 acusações já foram abertas contra Coutinho e outros nomes.

“É um processo inquisitório onde os acusadores não podem ser contrariados. Aí vem Camilo Toscana e Eduardo Reina [produtores do documentário] e eles buscam conversar com todas as pessoas”, diz Amanda. Os jornalistas mostram similaridades entre os processos da Operação Calvário na Paraíba e da Operação Lava Jato no Paraná sob o olhar e relato dos envolvidos. Em 9 episódios, a obra evidencia como o lawfare é usado para perseguição de grupos políticos. 

Amanda conversou com Gabriella Lodi, do Jornal GGN, sobre o documentário.

LAVAJATISMO NO BRASIL

“O lavajatismo não se iniciou com o ex-presidente Lula e nem se encerrou com as recentes vitórias dele na justiça”, lembra Amanda. Para ela, a Lava Jato deixou heranças no país que precisam ser enfrentadas. Ainda há processos pelo país inteiro, como os da Operação Calvário, em que pessoas respondem por denúncias sem comprovação e embasamento, medidas cautelares e prisões irregulares com pretexto de perseguição política.

“Essa poeira precisa sair do tapete e o brasileiro precisa compreender que quem aplaude esse tipo de Operação, quem aplaude operação autoritária, inquisitorial, e que não esteja dentro dos moldes da Constituição, está aplaudindo algo que a qualquer momento pode se voltar contra ele”, a empresária reforça.

COMO ESTÁ A OPERAÇÃO CALVÁRIO HOJE

Amanda relata que foi em 17 de dezembro de 2019 que tudo começou e muitos dos processos ainda estão se arrastando pelo judiciário até hoje. “Foi feita uma denúncia de uma suposta orcrim [organização criminosa] que continha de 35 para 34 pessoas, e esse processo, que é o processo-mãe da Operação Calvário, é muito confuso”, ela explica. A empresária afirma que a denúncia por formação de quadrilha é esdrúxula, pois o grupo acusado é composto por integrantes que não se conhecem; são “pessoas desconexas que nunca se reuniram formalmente”.

Após o pedido de prisão de 17 pessoas denunciadas, o Supremo Tribunal de Justiça afirmou que a prisão seria irregular, já que foram embasadas apenas em delações premiadas. Contudo, os réus tiveram que aguardar o recesso forense, e depois de soltos ainda responderam a uma enorme quantidade de medidas cautelares, impostas com o intuito de puni-los antecipadamente. 

Amanda conta que também é investigada e no corpo dessa denuncia ela não é qualificada como ré, mas denunciada por ser esposa do ex-governador Ricardo Coutinho. “Estou respondendo à essa denúncia, pedindo trancamento dela, pois não tem nenhuma prova contra mim, é mais uma falácia, uma denúncia cheia de narrativas”, ela afirma.

Para ela, quando os réus tiveram suas prisões decretadas, eles já foram condenados antecipadamente pela sociedade. “Eles viram que aquele processo não tinha força, mas eles precisavam continuar com o escândalo midiático”, relata a empresária.

E apesar de passados 3 anos desde a denúncia e as prisões terem sido tidas como irregulares, Amanda afirma que o processo ainda é muito embrionário, visto que as partes envolvidas não foram devidamente ouvidas. “A gente percebe que é uma operação política, que tem o intuito de acabar com a imagem dos envolvidos, porque uma parte desses envolvidos são políticos mandatários ou querem ter um mandato”, ela explica. 

IMPACTOS DAS DENÚNCIAS 

Após o início do processo, Amanda se tornou uma ativista contra o abuso de autoridade e o abuso de poder. Ela escreveu um livro sobre toda a experiência, com prefácio de Luis Nassif e lançamento previsto para os próximos dias.

Além disso, ela estudou a Operação Calvário como um problema sistêmico nacional e encontrou outras pessoas que passaram por operações com várias características similares. “A gente percebe que pessoas que lutaram por igualdade, que quando estavam em cargos de poder, incluíram a base social, se preocuparam com a classe C e D do nosso país, elas são perseguidas, essas pessoas incomodam muito”, ela completa.

Do ponto de vista pessoal, Amanda conta que os impactos são imensuráveis. Muitos envolvidos ficam impossibilitados de trabalhar, tanto por transtornos psicológicos quanto pelo vínculo do nome com o processo judicial.

Amanda também relata que devido ao estresse vivido na operação, ela perdeu um  filho com 5 meses de gestação. “Porque você vive um período de tensão o tempo inteiro, onde você passou por uma busca apreensão e isso invadir sua casa é algo muito profundo, você tem a sensação que ela pode ser invadida a qualquer momento. E todo esse achincalhamento midiático, isso termina causando uma opressão psicológica constante e no meu caso do nada minha bolsa estourou”, ela expõe. 

A empresária reforça que não existe uma correlação de forças iguais entre os acusados e os acusadores e que os impactos desses processos são inúmeros. “As pessoas esquecem que a Justiça tem um poder enorme e nós somos pessoas comuns, não podemos brigar contra a justiça, nós temos que encontrar a justiça na justiça. Não é todo mundo que aguenta se ver na mídia o tempo todo, além das ameaças contra as pessoas. Então é um processo que fragiliza muito o ser humano”, ela afirma.

E A REPARAÇÃO? 

Amanda não acredita na reparação de processos como a Operação Calvário e Lava Jato e lembra do caso do ex-presidente Lula.  Segundo ela, mesmo o petista conquistando uma indenização, os mais de 600 dias presos não voltam mais. “A indenização é importante, começa a mostrar que vai ter uma punição, mas de 600 dias na sua vida preso, o que é isso? É você perder a sua vida por mais de 600 dias, uma pessoa que já passou dos 60 anos de idade, isso repara?”, ela indaga.

A empresária defende que a verdadeira reparação só acontece de fato quando existir uma punição para quem utilizar do poder da justiça para perseguir pessoas. “Então da mesma forma que um médico, jornalista, advogado, é punido por extrapolar os limites da sua profissão, o Ministério Público e Judiciário também deve ser punido, porque quem julga eles são eles mesmos; precisa haver uma legislação que coíba esse tipo de abuso, senão o Brasil continuará a ser refém disso”, ela fala.

Além disso, Amanda reforça que investigações contra políticos podem e devem acontecer, porém que os processos sigam as normas previstas pela Constituição. “Eu ocupei um cargo importante do meu Estado e poderia sim responder 1, 2, 3 ou mil processos, desde que dentro do processo democrático de direito. Eu não posso ser condenada antecipadamente para aí responder um processo”, ela defende. 

Segundo ela, a verdadeira conquista é que a justiça seja utilizada da forma correta, não quando busca-se uma condenação a qualquer custo ou espera-se uma reparação após sofrido diversas consequências pelo processo. “E eu não posso ficar tentando achar uma reparação. Qual é a reparação para um filho que morreu? Você tem alguma reparação para eu ver meu filho nascer e morrer? Não existe reparação para isso. A reparação é para não acontecer, que não aconteça esse tipo de abuso no nosso país, nem político, nem com preto, nem com pobre, nem com rico, nem com ninguém, com nenhuma pessoa. Eu luto por isso”, afirma Amanda.

Por fim, a empresária avalia que processos irregulares como a Operação Calvário prejudicam a credibilidade do sistema de justiça brasileiro. “Existe um sistema de justiça e ele precisa utilizar as regras, e não criar legislação nova de acordo com sua vontade e convicção . Isso só não acontecerá mais quando tiver controle e punição efetivos e quando o sistema fizer uma autocrítica em relação a isso, porque quem acaba perdendo a credibilidade é o próprio sistema”, ela defende.

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